Dia de chuva no quintal

 

Rua Marechal Deodoro, Marilia, interior de São Paulo.

Ali morávamos, pai, mãe e quatro filhos (os existentes na época). Tínhamos uma boa casa – espaçosa e confortável.

Tínhamos também um belo jardim do lado esquerdo e um quintal nos fundos. Boa parte do tempo de que dispúnhamos – éramos todos pequenos e não tínhamos nenhum tipo de compromisso, nem mesmo escola – passávamos ali.

Assim, brincávamos entre as flores, tentando caçar umas borboletas enormes que sempre estavam por ali. E púnhamos nomes nelas: “pito”, “rainha”, “imperador”...

E foi nessa casa, também, que meu pai recebeu a notícia do falecimento do meu avô (seu pai). Foi a única vez, em toda a vida, que vi meu pai encher os olhos de lágrimas...

Na parte dos fundos havia algumas árvores frutíferas plantadas, como goiabeira, abacateiro e parreira de uvas, entre as quais, alegre e rapidamente, transitávamos, brincando de pega-pega, ou mesmo simulando, com caixas de querosene, carrinhos – que não andavam...

Não sei se você imagina como eram os esgotos sanitários naquele tempo. Não havia rede de esgotos pública, pelo menos em nosso bairro. O que tínhamos eram as chamadas “fossas negras”. Você sabe, aquele buraco de cerca de oito metros de fundo, onde iam se acumulando os detritos dos vasos sanitários. Quando enchia chamávamos o limpa-fossa da Prefeitura para esvaziar. Feita a limpeza, colocavam-se algumas vigotas, cruzavam-se tábuas e despejava-se um pouco de terra – que na nossa região era barrenta e grudava.

Certa tarde saímos para o quintal para brincar, após uma grande chuva. Tudo estava molhado. Das folhas e dos troncos das árvores pingavam gotas límpidas. O chão estava encharcado e, onde pisávamos, ficavam as marcas dos nossos pés.

Mas isso em nada impedia os nossos folguedos. Pelo contrário, tínhamos certeza de que, depois de terminada a brincadeira, a nossa mãe nos chamaria para um bom banho – com roupas limpas.

E brincamos, e brincamos...

Nesse momento a minha mãe chegou à porta da cozinha e nos chamou para o café da tarde:

- Venham, crianças. Temos pão, manteiga, bolo de fubá e leite com café (coisa de mineiro, pois ‘leite com café’ significa mais leite do que café).

Não resistindo ao convite, corremos para dentro da cozinha, alegres e felizes, e sentamo-nos à mesa para o esperado lanche.

Tranqüilamente íamos do leite para o bolo e deste para o pão com manteiga, matando a nossa fome, que era quase permanente...

De repente, um enorme estrondo no quintal!

O que seria aquilo?

Ameaçamos correr para ver o que era. Sairíamos para o quintal e logo veríamos a causa do barulho.

- Não, meninos – disse minha mãe, - esperem. Não saiam para o quintal.

E foi ela própria saber o que acontecera. De vagarinho, como que pisando em ovos, afundando os pés calçados com uma simples sandália naquela lama vermelha que constituía o nosso solo.

A chuva tinha sido bastante forte, e nossas pisadas resultantes das correrias e brincadeiras fizeram com que a armação de madeira cedesse e fosse tudo para o fundo da fossa.

- Viram, crianças? - informou nossa mãe. - Viram só de que se livraram? - E contou-nos o que tinha ocorrido.

Por pouco, muito pouco, não caíamos todos lá no fundo, em meio a tábuas e fezes de vários meses!

 

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