
Ivan Ângelo
Você é capaz de rir da desgraça alheia? Não diga que não, porque depende. Consegue achar o máximo uma pessoa empregar toda a sua habilidade para realizar com sucesso uma ação ousada, que um detalhe inesperado põe a perder? Pense bem, pois a resposta pode ser sim. Acharia bom alguém ser mordido por um cachorro bravo ou ter os dedos esmagados pela porta de um carro? Mais uma vez, depende.
De duas semanas para cá tenho me deliciado com desgraças desse tipo. Não, não me tornei um sádico. Explico: as vítimas eram todas ladrões, no exercício da atividade.
Houve o caso da mulher do cantor-ministro Gilberto Gil. Saiu nos jornais, mas ajudo quem não ficou sabendo. Flora Gil e a irmã Fátima iam entrando no carro, uma perua Volvo blindada, em Botafogo, no Rio de Janeiro, quando foram abordadas por um rapaz com a mão na cintura. Entraram rápido, bateram as portas, que se travaram imediatamente, e nisso ficou presa no batente a mão do assaltante. Dói só de pensar. Era sexta-feira 13. Ele gritou, Fátima deu ré arrastando o ladrão, parou, ele gritava "Abre a porta! Minha mão!". Flora saiu de gatinhas até uma banca próxima, o ladrão puxou a arma e disparou seis tiros que não romperam o vidro, Fátima ligou a sirene de alarme e pediu socorro pelo alto-falante, chegou outro ladrão, de moto, disparou mais seis tiros para atingir a motorista e livrar o amigo, não conseguiu, fugiu, chegou depois um homem desconhecido que deu uma gravata no ladrão e o fez se ajoelhar. Só então a mão dele foi solta. Aqueles dedos devem ter ficado bem estragados.
Depois minha mulher me contou o caso do amigo que estava com a gripe que anda grassando por aí, nariz e olhos inchados. Precisava ir ao banco, encheu o bolso de lenços de papel e foi. Assoava e guardava, para não sujar as ruas. Quando ele saía da agência, o volume atraiu a atenção do ladrão, que o derrubou, meteu a mão em seu bolso e correu levando aquele chumaço melecado, do qual tentava se livrar pelo caminho, enquanto o assaltado, passado o susto, ria, ria.
No mesmo dia li em VEJA o caso do chefe do departamento de compras dos Correios que foi filmado recebendo e enfiando no bolso um pacote de dinheiro da corrupção.
Dias depois fiquei sabendo de dois casos de cachorro. Um ladrão abriu um carro estacionado, de vidro escurecido, desses que não deixam ver nada, e de lá de dentro saiu estraçalhando um rottweiler. Outro caso é o do ladrão disfarçado de entregador que, ao ser atendido, puxou a arma e fez o porteiro abrir o portão, entrou, mandou fechar. Com o controle remoto o porteiro abriu uma passagem lateral e de lá saíram em carreira de ataque dois cachorrões irados que deixaram o intruso em estado de pronto-socorro.
Em curta viagem a Brasília, li no jornal que um assaltante roubou a bolsa de uma mulher na rodoviária, correu, ela saiu gritando atrás, logo correram em perseguição vários homens, o gatuno foi atravessar a avenida e o atropelaram, girou no ar, caiu sem se mexer. A mulher foi lá, pegou a bolsa de volta e ainda disse olhando o atropelado: "Bem-feito!".
E nesta semana um publicitário paulistano me contou o seu caso. Parou no semáforo pilotando seu Jaguar preto, blindado. Um assaltante bateu com a pistola prateada no vidro do carro e gritou "Abre! Abre! Abre ou leva bala!". O publicitário olhou a arma, olhou o ladrão, sorriu e calmamente fez para ele um gesto obsceno com os dedos. O ladrão levou dois segundos para entender o que se passava, ódio impotente, e nesse instante o publicitário fez soar a sirene estridente que deu novo susto no ladrão e o pôs em fuga adoidada.
Não seria uma maravilha se mais vezes o azar estivesse do lado deles e não do nosso?
("Veja São Paulo" – 01/06/2005)