A devolução do cofre

 

No mesmo dia, com a maior solenidade, e na presença do grão-vizir, o precioso cofre, com o seu imenso tesouro de pérolas, brilhantes e rubis, foi entregue ao seu legítimo dono, o odioso vizir Ganthus, das Inconformações Sociais.

Em conseqüência da memorável façanha o diligente chefe de Polícia, El-Hadj Chakib Chacur Ibn-Saveg, foi promovido a capitão e recebeu do grão-vizir um manto de honra bordado com fios de ouro e uma bandeja de prata com legendas do Alcorão.

Coube a Salim riquíssimo turbante de seda com barras vermelhas (como era moda em Damasco) e uma bolsa com duzentos e quarenta dinares de ouro.

A prodigiosa façanha reafirmou-se no espírito dos islamitas. Todo mundo dizia sem a menor sombra de incerteza:

- Salim, o cordoeiro, é mágico! É mágico mesmo de fato. Seus presságios voam nas asas da Verdade. Louvado seja Allah, o Muito Alto!

Há nessa extraordinária história que estou relatando um ponto sobre o qual não pretendo mais insistir. Salim era um homem bom. Incapaz de ferir ou de prejudicar até mesmo um agiota de má fama, ladrão de cofres. Informado, pelos amigos e vizinhos, de que o yemenita de Bab Touma fora preso por sua causa, sentiu-se o nosso pacífico Salim invadido por um terrível nervosismo.

Certa manhã, depois da prece (o dia corria claro e sereno) observou Nurenahar, um tanto apreensiva, que seu marido estava macambúzio, caladão, a gungruzar o dia inteiro, sem ânimo até para trabalhar no cordoamento. E era esse o seu trabalho de rotina. O seu ganha-pão. Os fios, recebidos na véspera, estavam atirados no chão, abandonados. Receosa de que seu marido fosse de um momento para outro assaltado de perigosa crise de nervosismo, procurou distraí-lo. E nesse firme propósito interrogou-o com expansivo alvoroço bem feminino:

- Mas, meu caro Salim, isso é espantoso. Espantoso mesmo, estar o tesouro preso no alto da macieira. Quem poderia imaginar?

Respondeu Salim, num tom meio abatido e como refletindo:

- A tal história do galho também foi sem querer. Pura casualidade. Não posso evitar, e jamais poderei impedir que os outros tirem conclusões erradas do que eu digo. E totalmente erradas. Agora, que já está tudo resolvido e liquidado, não acha, Nureninha querida, que eu devo o quanto antes procurar o capitão Ciranda e contar a verdade, e só a verdade?

- Isso seria uma loucura, Salim! Foi a nossa prece, querido! Foi a nossa prece que salvou você. Que nos salvou. Deus Misericordioso veio em nosso auxílio. É preciso, porém, que isso tudo fique em absoluto segredo entre nós dois. Só entre nós dois. Está ouvindo?

E num requebro de voz, como fazia todas as vezes que via seu marido nervoso, proferiu emocionada:

- Tenha calma, Salim! Deus ajuda!

E a calma voltou, outra vez, a dominar inteiramente o espírito de Salim. As palavras sensatas de Nurenahar vibraram em seu coração!

 

("Lendas do Céu e da Terra")

 

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