Deuses e semi-deuses

 

(Histórias do Sadu Sundar Singh)

 

Boanerges Ribeiro

 

Em Rishi Kesh, às margens do Ganges, o sol avermelhava no nascente e seus raios faziam brilhar as águas do rio sagrado. Um grupo de homens com roupa cor de açafrão aglomerava-se em certo ponto da praia, cercado de populares. No centro, um “sadu” mais moço, com um livro na mão, falava calmamente.

Quem olhasse o rosto de cada ouvinte veria atenção absorvente em alguns, tolerância noutros e zombaria ou indignação nos demais. Imperturbável, o pregador continuava a prática. Inesperadamente um homem do povo abaixou-se, encheu as mãos de areia e atirou-a aos olhos do “sadu” que falava. Houve indignação contra a brutalidade e um dos presentes, exaltado, agarrou o agressor e foi entregá-lo ao policial sik, que de longe observava a cena.

O policial prendeu-o e dirigia-se para o posto quando foi alcançado pelo Santo Homem atacado. A água com que lavara os olhos ainda lhe corria pelo rosto. Pedia ao representante da justiça que deixasse em paz o seu ofensor. Não faria queixa contra ele. E voltou à praia para reiniciar a pregação. O policial pensou alguns segundos, indeciso. Afinal, se o próprio ofendido pedia a soltura do culpado, que mal havia nisso? E largou o agressor que, ressabiado, voltou ao grupo. Ouviu com atenção. Terminada a palestra, pediu licença ao “sadu” para acompanhá-lo. E durante vários meses foi seu companheiro dedicado e fiel.

Na Índia as coisas espirituais dominam o homem desde o nascimento até a morte. O povo vive num mundo de deuses e semideuses que se encarnam em vacas, em crocodilos, em outros animais, ou que vagueiam no espaço, quando não escolhem homens para habitação. De sorte que muitos incidentes que a nós pareciam sem importância, assumem ali proporções de luta de morte entre as forças das trevas e o poder de Cristo.

Penetrando no Nepal, dirigiu-se para o “Ilom”, não muito longe da fronteira. Logo que iniciou a pregação na cidade, um dos naturais da terra advertiu-o, em voz baixa, de que o melhor seria voltar para a índia, em lugar de se expor à morte ali.

Continuou. Mas não por muito tempo. Poucas horas depois, quando pregava na rua, uma escolta prendeu-o e o levou aos trancos para a cadeia local, onde o atiraram para o meio de assassinos e ladrões profissionais. Contemplando os mal-encarados companheiros, que o olhavam com malévola desconfiança, Sundar Singh encheu-se de piedade. Iniciou palestra com eles e logo o ouviram profundamente atentos.

Anoiteceu. Um deles providenciou um canto onde ele dormisse em paz. O “sadu” abriu o Novo Testamento e anotou, na primeira página: "Nepal, 7 de Junho de 1914. A presença de Cristo transformou a minha prisão num céu abençoado: como não há de ser o próprio Céu?".

No dia seguinte, a palestra com os criminosos continuou. Não demorou muito e um deles declarou que quando saísse dali nunca mais reincidiria nos velhos vícios. Seria cristão, como o “saduji”. Os carcereiros, abismados, foram relatar aos oficiais o que se passava e veio ordem de retirar o “sadu” cristão da cadeia e levá-lo ao tronco, na praça. Mãos e pés presos, em posição forçada e incômoda, despido, passou ali o dia e a noite. Colocaram sanguessugas no seu corpo, para lhe absorverem lentamente a vida, num suplício diabólico. Até a morte conservou cicatrizes desse tormento. As marcas do Senhor Jesus. Em torno, uma multidão selvagem fugida das páginas da História Medieval gritava e insultava.

Quando o dia seguinte raiou vieram os coveiros encarregados de sepultá-lo. Pasmados, verificaram que o “sadu” cristão não só estava vivo, mas conservava no rosto uma expressão inalterada de calma que fazia pensar na mais tranqüila das noites. "Não sei por que, mas tinha o coração tão cheio de alegria que não podia abster-me de cantar e pregar".

Soltaram-no, maravilhados. Fraco pela perda de sangue e pelo sofrimento, caiu inconsciente, e ali o deixaram. Mas residiam no lugar cristãos da Missão Saniasi, os quais vieram buscá-lo, carregaram-no até sua casa e cuidaram dele.

Nesses anos duros, mas abençoados, aprofundou-se a vida espiritual do “sadu”. As longas horas de prece transformavam-se muitas vezes, inexplicável e insensivelmente, em horas de êxtase e visão. Nos momentos de dor uma estranha alegria o dominava, alegria quase eufórica, irresistível e dulcíssima.

Sofrer por Cristo era para ele, após as primeiras lutas em que chegara a duvidar de que Deus o guardasse, uma felicidade.

 

(“O Apóstolo dos Pés Sangrentos”)

 

voltar

home