Desespero de um namorado

 

Helik, o cínico - Nagib procura evitar uma companhia indesejável - Halcima desaparece - O golpe de um alucinado - Nagib é preso

 

Apareceu nesse momento, junto à porta, um rapaz mal-encarado, de rosto redondo, olhos vesgos e pescoço curto. Eu o conhecia de vista, da casa de banhos, e achava-o bastante antipático.

- Este é Helik, filho de Ezid - esclareceu Hayeck apontando para o tal sem-pescoço.

Encarei-o de revés. Tinha um ar meio atrevido. Em seu rosto papudo, visguento, meio amarelado, pintado de pequenas manchas cor de tâmara, percebia-se um risinho torpe.

- Queres ir conosco? - convidou Ezid, interpelando o filho.

- Sim, meu pai, - assentiu logo Helik, encolhendo os ombros e com trejeitos de indivíduo mal-educado.

Intervim no diálogo e disse ao sevandija em tom delicado, mas resoluto:

- Dispensamos teu auxílio, meu amigo! Temos muita pressa e, um pouco longe daqui, uma pessoa querida aguarda os socorros urgentes de teu pai!

A verdade era bem clara. Eu não queria que aquele sacripanta viesse a conhecer o incrível segredo de minha vida e não desejava, de modo algum, que ele pusesse os olhos maldosos, cintilantes de inveja e veneno naquele rosto puro de Halcima.

Recalcitrou o patife num tom brutal e desabrido:

- Longe vai a tua audácia, mercador. Aqui, quem manda é meu pai! Cuida de tuas raposas, esfrega tuas peles e não te preocupes comigo, que eu dispenso os teus conselhos.

E cuspinhou ainda contra mim, numa exaltação impulsiva e colérica, duas ou três ignomínias que não posso repetir.

Em outra ocasião, aquele estúpido amargaria, ali mesmo, diante do pai e do tio, o insulto proferido. Saberia castigá-lo, estou certo. Contive-me, porém. Dissimulei. Comprimi a ira. Era preciso não retardar mais o socorro. E no mesmo instante tomamos o rumo de Al-Bek, para além do rio, onde se encontrava a minha tenda.

Durante todo o percurso o detestável Helik não deixou um só momento de assobiar ou cantarolar. Todo o meu ser parecia querer explodir de inquietação, de angústia, de rancor!

Olhei para o céu. Tudo parecia tranqüilo. Nuvens acinzentadas novelavam-se ao longe, rolando pela imensidão. Andorinhas velozes riscavam com suas asas a serenidade da tarde.

Como estaria Halcima? Teria a infeliz menina despertado do seu torpor, durante a minha ausência?

Chegamos, finalmente! Ao entrar arquejante em minha tenda com mal disfarçada angústia, seguido do médico, uma dolorosa surpresa petrificou-me o coração. Tudo ali estava deserto e em desordem. Numa caixa, junto à porta, repousava o púcaro de bronze. Medi num relance a extensão da desgraça ocorrida por ter sido tão retardado o meu regresso. A encantadora menina havia sido raptada por bandoleiros do deserto!

Esbravejei como um infeliz a quem Allah tivesse privado da luz da razão.

Desvairado pela angustiosa paixão, entrei a proferir blasfêmias contra a vida, contra o destino, contra tudo! O meu arrebatado furor seria capaz de abalar todas as mesquitas do mundo! Helik, o cínico, informado do sucedido, desandou a rir. Era uma cascalhada de riso que rolava aviltante sobre a minha desgraça, que feria fundo a minha própria dor!

Um ímpeto de ódio apoderou-se de mim. Tomei num abrir e fechar de olhos do púcaro de bronze, que deveria ter servido para mitigar a sede de Halcima, e atirei-o com extrema violência à cara insultuosa do miserável. A pancada apanhou-o em cheio, cortando-lhe o riso! O golpe fora terrível, ele expediu um grito e rolou por terra, ensangüentado. O nariz estava partido, vários dentes arrebentados!

Em conseqüência daquela agressão, fui preso e levado, dois ou três dias depois, à presença de um juiz.

Não quis ouvir o magistrado as razões que eu alegava em minha defesa. Condenou-me a cinco anos de prisão e ao confisco de todos os meus bens.

Perdi, assim, ó Rei, a minha tenda, as minhas peles preciosas e todos os meus bens, e fui atirado nesta prisão, onde já me encontro há mais de dois anos! Ignoro a sorte de Halcima: não sei, afinal, qual foi o destino daquela linda menina que, durante alguns minutos, encheu de luz a minha tenda e trouxe tanto encantamento ao meu coração. Logo que deixar este presídio, e obtiver liberdade, hei de procurá-la, custe o que custar, pelos caminhos de Allah.

Disse então o rei Baribé:

- Pelo que acabo de ouvir, ó Nagib!, a sentença que contra ti foi proferida traduz uma iniqüidade. No momento em que ocorreu a agressão contra Helik, estavas de todo inconsciente. Eras, na verdade, um irresponsável. Como pode um juiz lavrar uma sentença contra um irresponsável?

Acudiu o grão-vizir:

- Mas se este homem (segundo foi possível inferir de sua narrativa) se considera isento de culpa, por que não levantou, como todos os outros, a mão direita?

Respondeu Nagib Noturno.

- Nos primeiros meses que aqui passei, julgava-me digno de figurar no rol dos que se acham livres de culpa. Mas depois que ouvi a narrativa deste meu amigo Nagib o Egípcio (e apontou para o outro detento que ficará a seu lado), fiquei convencido de que se, nesta prisão, existe um inocente, esse inocente será, forçosamente, ele, o amigo, e não eu!

- Mas isto é espantoso! - estranhou o rei. - Esse mercador é tão generoso que pretende salvar o amigo com sacrifício de sua própria liberdade!

E voltando-se para o outro detento, que tudo ouvira, impassível, ordenou:

- Que fale Nagib o Egípcio! Quero ouvir a estranha narrativa de sua vida!

Intimado a falar, o jovem inclinou-se respeitoso diante do monarca, e assim começou:

 

(continua - "Proposta de casamento")

 

(“Aventuras do Rei Baribê”)

 

voltar

home