O depositário do rei

 

A velha cidade de Basra, no bairro denominado Haiessalã, vivia outrora um fabricante de móveis chamado Iussuf Abdallah Ben-Nahim.

Um dia, depois de ter ouvido na mesquita de El-Akbar uma prédica do imã sobre os deveres dos bons muçulmanos, resolveu Iussuf fazer pela primeira vez uma peregrinação a Meca - a cidade santa - a predileta de Allah.

Sem perda de tempo preparou-se Iussuf para a fatigante jornada. Vendeu os móveis que possuía, pagou seus credores, arrendou a casa - tendo conseguido obter, com a liquidação completa de seus bens, dois mil dinares-ouro.

Que destino dar àquele dinheiro? Era bem certo não poderia levar consigo, tais os perigos por que iria passar aquele ouro precioso. De que recurso valer-se para deixar em segurança guardada até o seu regresso de Meca a bela quantia em que se resumiam todos os seus haveres?

Procurou o imã e este, com a prudência que a sabedoria e a experiência soem ditar, aconselhou-o a que deixasse o dinheiro guardado com o cádi, isto é, o juiz da cidade.

Exercia este, em Basra, as funções de Governador e representante direto do sultão Harun-al-Raschid, califa de Bagdá. Homem poderoso, rico, cheio de prestígio, o cádi Mahomed El-Hadjazi estava naturalmente indicado para servir de depositário. O dinheiro de um peregrino estaria por certo bem guardado dentro dos pesados cofres do digno juiz de Basra.

Iussuf achou de bom alvitre o conselho do imã e seguiu sem perda de tempo para a casa de Mahomed El-Hadjazi, levando em um saco de couro os seus dois mil dinares.

A temida e respeitada autoridade muçulmana morava por esse tempo em um grande palácio, na praça Sahat-Ali.

Ao atravessar essa praça, avistou Iussuf andrajoso mendigo, de rosto e aspecto de homem vencido pela doença e pela miséria. Era de causar dó a figura do ancião.

O infeliz estendia a mão aos transeuntes, implorando humilde um óbulo, e a todos os que o auxiliavam dizia, como se resumisse o seu mais sincero agradecimento:

Allah vos livre de ser depositário do rei!

Iussuf achou estranho aquele voto do andrajoso ancião e não podendo dominar a curiosidade, chamou-o a um canto da praça e interrogou-o:

- Pela glória de Mafoma, ó muçulmano! Por que dizes a todas as pessoas que te auxiliam: "Allah vos livre de ser o depositário do rei"? Achas, então, indigno ou indesejável o ambicionado emprego de zelador dos tesouros de um soberano?

- Senhor - respondeu o mendigo - o voto que sempre formulo representa um desejo sincero! Não posso desejar que aconteça às pessoas dignas e piedosas a mesma infelicidade que me assaltou!

- Como pode ser isso? - perguntou Iussuf. - Conta-me a tua história. Mui vivo é o meu desejo de conhecer a causa de tua desdita!

Atendendo ao pedido de Iussuf, o velho mendigo narrou o seguinte:

- Meu nome é Hussein Et-Tay. Sou filho do famoso Mahmud Et-Tay, o poeta nômade a quem os árabes do deserto apelidaram "El-Arey" - o coxo. Muitos anos vivi em Kalaat-Abu, nas margens do Eufrates, onde possuía grande plantação de alhos, cebolas e lentilhas; quando chegava a época da colheita os meus escravos carregavam os camelos e iam vender, nas cidades próximas, os belos produtos das minhas terras. Assim, graças à vontade de Allah (exaltado seja o Altíssimo!), os meus negócios corriam bem e a minha prosperidade era notável.

Certo dia, porém, um velho amigo da minha família, ao regressar de um passeio em Bagdá, disse-me:

- "Amigo Hussein, o grão-vizir Gafar pediu-me que lhe indicasse uma pessoa honesta, de inteira confiança, capaz de exercer o cargo de zelador do sultão. Lembrei o teu nome, citei as tuas qualidades e o grão-vizir aceitou prontamente a minha indicação. Deixarás esta vida obscura e trabalhosa de agricultor, e irás servir no palácio do nosso grande califa. Passarás a ter uma existência brilhante, uma vida suave e grata aos olhos de Allah!".

E assim foi. Meses depois, recebi uma ordem em que o grão-vizir me chamava a Bagdá, para onde pressurosamente me transportei com a família, deixando as minhas propriedades entregues a um procurador. Na grande cidade do califa passei a exercer as funções de zelador dos tesouros do sultão.

A princípio tudo correu bem. O meu cargo era, realmente, de grande responsabilidade, mas eu procurava desempenhá-lo a contento de todos. O generoso califa Harun-al-Raschid (que Allah sempre o conserve!) distinguia-me profundamente, honrando-me com sua amizade.

Um dia, porém, notei, tomado de grande surpresa, que havia desaparecido de um dos cofres do tesouro um saco cheio de moedas de ouro. O desespero, praga que até então minha alma não conhecera, invadiu-a toda, brutalmente. Era eu o único responsável! Tudo fiz para descobrir o paradeiro do roubo. Nada consegui. Como não quisesse confessar ao califa o ocorrido, vendi as minhas propriedades e com o dinheiro que obtive nessa venda coloquei no cofre outro saco igual ao que fora furtado. Inútil será dizer-lhe que, desse dia em diante, redobrei cuidados e vigilância. Mal podia dormir, tal a preocupação e o desassossego em que vivia. Uma angústia de todos os instantes me estiolava a saúde e me embranquecia os cabelos.

Para maior desgraça minha, decorrido algum tempo, novo roubo foi praticado no tesouro do sultão. Dessa vez desaparecera um saco cheio de ouro em pó. Desvairado, arranquei as barbas e chorei copiosamente. Não havia o menor vestígio do roubo, nem a mais leve indicação que me pudesse levar à descoberta do audacioso ladrão. Não querendo passar por desonesto nem deslustrar a confiança ilimitada que o Emir dos Crentes depositava em mim, vendi todas as roupas, móveis, jóias e escravos que possuía, e consegui adquirir outro saco, igual ao desaparecido, cheio do precioso metal.

Vi-me, porém, depois desse segundo roubo, reduzido ao extremo da miséria; não tinha mais nada de meu. Esmagado peio infortúnio, mas acomodado à minha negra sorte, tomei uma resolução terrível. Dirigi-me ao califa, pedi-lhe licença por um ano, e afastei-me de Bagdá, desaparecendo para sempre. Abandonei a família e os amigos. E agora, sem teto e sem rumo, vivo como um molambo humano, a mendigar pelas ruas de Basra, à espera de que Allah, o Onipotente, escreva no Livro do Destino o termo dos meus dias infelizes!

E o mendigo, depois de uma pausa, prosseguiu:

- Eis porque, Senhor, a ninguém desejo a desgraça que a mim me feriu!

Sinceramente penalizado com a triste sorte do bom Hussein, disse-lhe Iussuf:

- Fizeste mal, meu amigo, em ocultar a verdade ao grande califa. Quando um homem está inocente, e não tem na consciência a mácula do pecado não deve recear a verdade, qualquer que ela seja! Acho que deves procurar o califa e contar-lhe o sucedido. Estou certo de que o Emir dos Crentes, generoso e justo, saberá corrigir o mal e punir os verdadeiros culpados!

Iussuf tirou de seu dinheiro cem dinares de ouro e entregou-os ao mendigo:

- Aqui está - disse - um pequeno auxílio para a tua viagem até Bagdá. Deverás partir sem perda de tempo.

O velho Hussein, os olhos cheios de lágrimas, beijou as mãos do bondoso Iussuf e, tomando o seu pesado bordão, partiu pelo caminho de Allah.

Depois de meditar algum tempo no estranho caso do velho Hussein, Iussuf dirigiu-se ao palácio do cádi.

O digno magistrado recebeu o peregrino imediatamente, fazendo-o entrar para um rico e luxuoso salão, cheio de alfaias e tapeçarias.

- Senhor - exclamou o jovem, inclinando-se, respeitoso - meu nome é Iussuf Abdallah Ben-Nahim; sou fabricante de móveis no bairro Haiessalã. Tenciono fazer pela primeira vez a peregrinação a Meca e, antes de partir, venho pedir-vos guardeis em vosso poder os mil e novecentos dinares que este saco encerra. Virei buscá-los quando regressar da cidade santa.

- Não vivo senão para bem servir os súditos de meu país - respondeu o cádi. - 0 dinheiro de um peregrino é sagrado. Saberei, meu bom Iussuf Abdallah Ben-Nahim, guardar com religioso cuidado o teu precioso pecúlio.

E, recebendo do peregrino o saco cheio de ouro, foi depositá-lo em um grande cofre que ficava no fundo do salão.

Na madrugada seguinte Iussuf partiu - com uma grande caravana - pela estrada de Hail em demanda à cidade dos Sete Minaretes.

Três vezes as águas do Eufrates já haviam subido quando Iussuf regressou de sua piedosa peregrinação.

O seu primeiro cuidado ao chegar a Basra foi procurar o cádi, a fim de reaver o seu precioso dinheiro.

Qual não foi, porém, a sua surpresa, quando ao chegar à presença do poderoso magistrado - tendo declarado o seu nome e o fim de sua visita - dele ouviu as seguintes palavras:

- Devo dizer-te, ó peregrino! - que seria incapaz de ficar com um dinar que não fosse meu. Allah me livre de praticar semelhante infâmia! Há porém, meu amigo, um engano lamentável da tua parte. Não te conheço e, posso jurar, é a primeira vez que ouço o teu nome!

- Senhor Cádi - murmurou Iussuf, pálido, trêmulo de espanto - juro pelo túmulo do Profeta. Juro pelo Alcorão! O que digo, é verdade! Antes de partir para Meca deixei em vosso poder um saco de couro com mil e novecentos dinares de ouro! E vi perfeitamente, ó cádi! quando guardastes o meu dinheiro ali, no grande cofre que ainda está naquele canto!

- Estás delirando, ó infeliz! - replicou o cádi. - Juras como um insensato sobre o que há de mais sagrado para os muçulmanos! Estás com certeza envenenado pelo haxixe e tens a mente presa a miragens enganadoras. Ali naquele cofre guardo apenas as pequenas migalhas que possuo. Achas então que eu, o cádi de Basra, seria capaz de conservar em meu poder um dinheiro que não fosse meu? É uma infâmia que lanças, inconsciente, sobre mim!

E como Iussuf insistisse na afirmativa, o governador interrompeu-o com severidade.

- Repito-o, ó insensato! - não guardei dinheiro algum! E se algum dia voltares à minha presença com essa idéia tola e descabida, a exigir um dinheiro que nunca me entregaste, mando-te recolher para sempre à prisão dos loucos! Vai-te daqui, ó comedor de haxixe!

lussuf, quase a chorar de desespero, retirou-se do palácio do cádi. Considerava perdido o seu dinheiro. Se perseverasse na idéia de recuperá-lo iria acabar os seus dias no fundo de uma prisão! O desonesto governador de Basra tinha nas mãos a força e o poder.

Profundamente abalado pelo rude e impiedoso golpe que acabara de sofrer, sentindo-se ao desamparo, sem ter a quem apelar, roubado, dilapidado e ainda sob ameaça de prisão, vendo diante de si a sombra da miséria, pôs-se Iussuf a caminhar sem rumo pelas ruas de Basra.

Ao se aproximar da mesquita de Otmã cruzou casualmente com um rico xeque que acabara de sair do famoso templo maometano.

Ostentava o nobre belíssimo turbante cinza. Seus trajes eram de seda. Em seus dedos rebrilhavam gemas de alto valor. Mal acabara de avistar o desventurado Iussuf o xeque parou e, abrindo os braços num gesto largo e afetuoso, exclamou arrebatado:

- Allah seja louvado! Até que enfim encontrei o meu bom amigo e protetor!

Iussuf encarara o desconhecido sem compreender o sentido daquelas exclamações de júbilo.

- Não te lembras mais de mim, ó peregrino! - exclamou o xeque, abraçando carinhosamente Iussuf. - Eu sou aquele Hussein Et-Tay, o velho mendigo que, há três anos, generosamente auxiliaste. Procurava-te ansiosamente para agradecer-te o que fizeste por mim! Segui o teu conselho. Fui ao califa e contei-lhe tudo. O Emir dos Crentes declarou que os sacos haviam sido retirados por ordem sua do Tesouro unicamente para que ele pudesse ajuizar, com segurança, acerca da minha honestidade. E como estava então certo de que eu procedera com a máxima correção e dignidade, ordenou que eu fosse indenizado de todo o meu dinheiro, restituindo-me as minhas propriedades deu-me belos presentes e nomeou-me para o lugar de tesoureiro do califa! Sou hoje, graças ao teu auxílio, o homem mais rico de Bagdá!

Notando, porém, o rico Hussein, que Iussuf parecia triste e abatido, perguntou-lhe:

- Que te aconteceu, ó Irmão dos Árabes? Por que estás tristonho e preocupado?

Iussuf contou então ao generoso xeque a desonestidade do cádi e a situação de miséria em que se achava.

- Por Allah! - exclamou o bom Hussein. - O teu caso é muito simples de resolver-se. Amanhã ao cair da tarde, depois da terceira prece, irás à casa do cádi e - como se nada tivesse acontecido - reclamarás novamente o teu dinheiro. Eu estarei lá nessa ocasião. Deverás, porém, fingir que não me conheces!

E eis o que aconteceu:

No dia seguinte o cádi recebeu a visita de Hussein El Tay, tesoureiro do sultão Harun-al-Raschid.

- O que me traz aqui, senhor Cádi - começou o xeque - é um assunto da maior importância. O nosso glorioso Emir Harun-al-Raschid (que Allah sempre conserve!) deseja fazer uma peregrinação a Meca. Não quer, porém, partir sem deixar sob a guarda de uma pessoa digna e honesta os seus imensos tesouros, as suas arcas cheias de lavores e tapeçarias. Lembrei o vosso nome porque a justa fama da vossa honestidade, do vosso belo caráter já está espalhada pelo país inteiro. Inútil será dizer que o califa aprovou desde logo a minha indicação. Declarou-me: - "Não quero partir sem deixar nas mãos do honesto cádi de Basra, o íntegro Mahomed El-Hadjazi, não só os tesouros como o governo de Bagdá!". E foi por isso, que aqui vim para consultar-vos e saber se vos sentis com coragem para prestar ao nosso generoso califa esse inestimável serviço!

O cádi, surpreendido por tão extraordinário oferecimento, desmanchou-se em salamaleques, mesuras afetadas e gestos de gratidão.

- Sinto-me profundamente honrado - disse ele ao xeque - com as generosas palavras que a meu respeito proferiu o Comendador dos Crentes! Tudo tenho feito por merecer a confiança que em mim depositou o nosso grande soberano!

Estas palavras eram ditas quando surgiu à porta do salão o amargurado Iussuf.

- Senhor Cádi - exclamou respeitoso, - o meu nome é Iussuf Abdallah Ben-Nahim. Há três anos, antes de partir para Meca, deixei em vosso poder, confiado aos vossos cuidados, um saco de couro com mil e novecentos dinares-ouro. E agora...

- Pois não, meu filho! - exclamou o cádi, risonho e amável. - Lembro-me perfeitamente do teu nome, Iussuf Abdallah Ben-Nahim, o fabricante de móveis! Muitas vezes pensei: - "Quando virá aquéle bom peregrino buscar o dinheiro que deixou sob a minha guarda? Queira Allah que ele volte cheio de vida e feliz! Queira Allah que nada de mal lhe aconteça!". Sinto-me feliz pelo teu regresso.

E o cádi no mesmo instante, abrindo o grande cofre, tirou de dentro um saco de couro que parecia bem pesado e, a conter ouro, encerraria uma bela quantia!

- Aqui está - continuou, entregando o valioso depósito a Iussuf - o teu dinheiro! Eu seria incapaz de ficar com um dinar que não fosse meu! Allah me livre de praticar semelhante infâmia!

O rico Hussein observava, com a maior atenção, todos os gestos e palavras do cádi.

Sem saber como explicar aquela extraordinária mudança, o peregrino, depois de agradecer ao cádi, retirou-se muito contente com o seu dinheiro.

Momentos depois, o rico xeque de Bagdá deixou também o palácio do cádi de Basra.

Passaram-se meses.

Vendo o cádi que o califa não mandava chamá-lo foi procurar o rico Hussein, que ainda se achava em Basra a comprar tapetes para os palácios do sultão.

O judicioso xeque, ao receber o cádi, perguntou-lhe o que desejava.

- Quero saber - respondeu este - quando devo seguir para Bagdá a fim de guardar os tesouros do nosso sultão Harun-al-Raschid, Emir dos Crentes!

- Senhor Cádi - acudiu o velho Hussein - devo dizer-vos que meditei melhor no caso. Se para devolver o pequeno pecúlio de um peregrino foi preciso que vos prometesse os tesouros do califa e o governo de Bagdá, que não seria preciso prometer-vos, futuramente, para obter de vós a devolução dos tesouros do sultão, quando eles já estivessem bem seguros em vosso poder?

 

("Céu de Allah")

 

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