De graça

 

(Mateus 10:18)

Quando Jesus enviou seus discípulos na primeira missão, fez-lhes a seguinte recomendação: Não vão necessitar nem de alforge para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão, porque digno é o trabalhador do seu alimento. Em qualquer cidade ou aldeia em que vocês entrarem, procurem saber quem nela é digno e hospedem-se ai. Ao entrar na casa, saúdem-na. Se a casa for digna, desça sobre ela a paz, mas, se não o for, torne para vocês a paz. E, se ninguém os receber nem ouvir as suas palavras, saindo daquela casa ou daquela cidade, sacudam o pó dos pés (Mateus 10:9-14).

Em relação à obra, em si, para a qual estavam sendo comissionados, disse: Curem os enfermos, ressuscitem os mortos,limpem os leprosos, expulsem os demônios. De graça vocês receberam, de graça devem dar (Mateus 10-8).

Não podemos nos esquecer, também, do episódio em que Jesus expulsou da porta do Templo de Jerusalém os vendedores, cambistas e camelôs, que tiravam partido dos fiéis que vinham especialmente para oferecer sacrifícios. (Mateus 21:12-13; Marcos 11:15-17; Lucas 19:45-46).

Como se vê, a orientação de Jesus foi – e ainda é – que não se comercializasse a fé e que algo que vem do nosso interior e se externa, muitas vezes, através dos nossos problemas, dúvidas, doenças e outras necessidades físicas e emocionais, não fosse transformado em empreendimento.

O mundo atual exacerbou a questão, visto que as instituições, inclusive as ditas 'religiosas', passaram a funcionar como um negócio lucrativo. Haja vista que algumas igrejas vêm aumentando rapidamente o seu patrimônio à custa da contribuição dos fiéis. Assim, a aquisição e gerenciamento de TVs, estações de rádio, jornais e revistas têm sido colocados como o principal objetivo de certas organizações.

É bem verdade que elas justificam a posse de tantos bens: 'tudo é feito para atender às necessidades dos crentes'. Mas, como explicar isso, pois, se fosse assim, se tudo fosse realmente distribuído, nada sobraria para a aquisição desses patrimônios. E tudo em nome da religião.

Nota-se que há um conflito flagrante entre essa atitude e os ensinos de Jesus. As igrejas não cobram pelos serviços (reuniões, bênçãos, 'curas', óleos santificados, etc.), mas estimulam e concitam insistentemente os fiéis a fazer as suas contribuições, a dar os seus dízimos, usando, muitas vezes, de verdadeiras lavagens cerebrais.

É bíblico o dízimo? É. Mas não para enriquecer um grupo. Os investimentos em obras de caridade - sempre a caridade, sempre a pobreza sendo pretexto para tudo – não correspondem, nem de longe, ao que é arrecadado, e todo mundo sabe disso.

Jesus era tão pobre que, quando foi chamado a pagar tributo, ordenou aos seus discípulos que fossem pescar e, quando saísse o primeiro peixe, que o abrissem e pegassem a moeda que, certamente, estaria em seu interior. Quando alimentou uma multidão com mais de cinco mil pessoas – fora mulheres e crianças, nem ele, nem os discípulos tinham dinheiro para comprar comida. Valeu-se de cinco pães e dois peixinhos que um menino trouxera como lanche – e de um milagre.

A verdade é que nunca ficou bem claro na cabeça dos fiéis das igrejas de hoje como separar as despesas realmente necessárias à manutenção, tais como aluguel, água e luz, das outras – estas, sim, de valor muito superior, que são as aplicações em bens e no mercado financeiro. Por isso, e para manter um bom relacionamento com e na igreja e fazer jus a tudo que ela oferece - desde lanchonete, bibliotecas, livros, discos, até bênçãos, imposição de mãos, expulsões de demônios e 'milagres', dão dinheiro, ou seja 'compram' os favores.

Será que os dirigentes dessas instituições não percebem tão grande incoerência? De um lado, Jesus sendo pobre e pregando os valores espirituais, de outro, as organizações religiosas, com tanto patrimônio e poder e afirmando aos fiéis que estão pregando os mesmos valores espirituais.

Pense nisso.

 

 

 

 

 

"Iguaçu" - foto de Carla Caffé

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