Os corredores da morte

 

Nagib o Egípcio fica prisioneiro no fundo do subterrâneo - Tentativa de fuga - Uma prece diante do abismo

 

Omalisã tão precipitadamente saiu que deixou cair o exemplar do Alcorão. O Livro jazia aberto no tapete, entre duas almofadas. Apanhei-o com a mão esquerda e beijei-o, respeitosamente, murmurando:

- Afirmo que só há um Deus, que é Allah, e Maomé o seu profeta.

Senti, nesse momento, na palma da mão o roçar de alguns grãos de areia.

Um pensamento, mais rápido do que o simum, apoderou-se de meu atarantado espírito. Dizem os sábios do Islã:

“Das páginas do Livro de Allah vem sempre a salvação para o crente!”

"Ora, - pensei - o desprender-se aquela areia do livro foi um aviso de Deus. Na areia e só na areia poderei encontrar a minha salvação".

Impulsionado por aquela idéia fixa, comecei a rebuscar todos os recantos do subterrâneo. Arrancava os tapetes, repuxava os divãs; amontoava as almofadas. Para facilitar as pesquisas, acendi duas lâmpadas, colocando uma delas a meia altura, em cima da caixa de madrepérola.

De repente a minha atenção foi despertada por uma pequena depressão circular que havia no chão sob um dos tapetes mais espessos. Levantei-o e descobri, no assoalho, uma escavação arredondada, cheia de areia.

Areia! Areia! - bradei, emocionado pela descoberta. - Aquela areia apontava-me uma saída secreta! Retirei-a, com sofreguidão. Senti nas pontas dos dedos uma chapa de ferro em forma de disco. Com algum esforço pude levantá-la. Aos meus olhos atônitos surgiu a boca negra e tétrica de uma cavidade. Procurei, à luz da lâmpada, sondá-la. Tinha a forma de um tubo e mal daria entrada a um homem de corpo esguio. Do seu interior exalava um ar úmido e fétido.

Aonde iria ter aquela estranha galeria aberta nas profundezas da terra?

Procurei dominar-me e coordenar, com a calma possível, os meus tumultuosos pensamentos.

- Aquela saída era secreta e duvidosa, já que a sua existência fora cuidadosamente disfarçada e encoberta. Tentar por ali uma fuga seria temeridade. A minha permanência, porém, naquele subterrâneo, só poderia oferecer-me a morte. Só havia, pois, a meu ver, uma solução: tentar a vereda do misterioso funil.

Preparei-me, pois, para fugir. Desfiz-me da espada; desmanchei o turbante, juntamente com o haic, e fiz uma espécie de corda resistente; coloquei a bolsa, com os dinares, por dentro da blusa.

Feitos esses rápidos arranjos ajoelhei-me e ergui uma prece a Allah, a cuja infinita misericórdia devia entregar a minha sorte:

"A Ti, Senhor, que cuidas de cada um de nós cuidando ao mesmo tempo de todos, a Ti confio, neste momento de angústia, temor e aflição, a minha vida e tudo que de Ti recebi, na certeza de que o meu coração não poderá descansar senão em tua infinita misericórdia. Ó Allah, Clemente e Misericordioso!"

Firmei as mãos nas bordas ásperas e agarrado à caixa deixei-me escorregar, lentamente, para dentro do antro tenebroso. As trevas fecharam-se sobre mim. O meu corpo deslizava em partes viscosas e nauseabundas. Faltava-me apoio. Resvalei pelas pedras visguentas e caí, com o tronco no fundo de uma espécie de poço aonde a água chegava à altura dos joelhos.

A escuridão era completa. Ouvia o rumor surdo da água que vinha não sei de onde. Era como um líquido a lançar-se dentro de um túmulo.

Percebi que me encontrava numa das temerosas, extensas galerias subterrâneas, construídas ao tempo do glorioso califa Harum-al-Raschid (que Allah o tenha em sua glória), e que despejava o seu barro imundo nas correntes pardacentas do Tigre.

Para sair dali teria de seguir pelo esgoto afora. Foi o que fiz. Murmurei, cheio de fé: “Yallah bina”, e pus-me a engatinhar às apalpadelas, com a cabeça baixa, serpenteando, cautelosamente, a fim de evitar alguma queda fatal.

Algum tempo andei assim. Às vezes o desânimo tentava apoderar-se de mim. Prosseguia às cegas, atordoado. O desejo de escapar àquele abismo trevoso trazia-me novas energias. Em dado momento, uma réstia de luz feriu-me os olhos. Atingira a saída do extenso funil.

Cobrei novo alento. A corrente era, então, mais violenta. Fui despejado junto à Ponte de Suleimã (Salomão). Saltei para um monte de areia. Estava livre.

A minha sorte, entretanto, levava-me a uma das aventuras mais estranhas da minha vida:

Vou contá-la.

 

(“Aventuras do Rei Baribê”)

 

continua ("Um homem enlameado")

 

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