As cores do pássaro

                  

Eu quero bem, mas não digo A quem é que eu quero bem;

Quero que saibam que eu quero, Mas que não saibam a quem! 

Mão direita – pensamento, Mão esquerda — coração!

Para escrever sentimento preciso mudar de mão...

                                                                 

Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso...

Estamos em Bagdá, nos maravilhosos jardins de Al-Motassim, Emir dos Crentes, poderoso senhor do império muçulmano.

 

A manhã surge lenta e suave

Há pelo ar uns frêmitos de festa...

Florescem lírios, desabrocham rosas,

E a vida em tudo a rir se manifesta

 

O disco sangüíneo do Sol, escalando pachorrentamente o horizonte, como uma panóplia de ouro resplandece. O céu, puro e sereno, é todo inteiro azul, a brisa não açoita as folhas das palmeiras.

Junto ao portão principal do serralho, um guarda núbio de agigantada estatura, bradou alvoroçado:

- Allaur Akbar!

Pelos pátios do suntuoso palácio ecoou surdamente o inesperado alarme.

Os escravos cristãos, que dormitavam descuidados à porta do "banho", ergueram-se apreensivos, fazendo tilintar as pesadas correntes; os servos, esquálidos e temerosos, puseram-se a correr de um lado para outro, numa inquietação desoladora; alguns soldados cuidaram de empunhar os mortíferos "kandjares" e, impassíveis como heróis de muitas pugnas, aguardavam as ordens do chefe.

- Mas afinal - indagavam os mais curiosos - que teria ocorrido nos tranqüilos jardins do Rei?

Ao cabo de alguns minutos o angustioso mistério estava, em parte, esclarecido.

Eis a razão do alarme.

O califa Al-Motassim, rei e senhor dos árabes, fora visto, "na manhã luminosa, ébria de claridade", sem escolta, completamente só, atravessando as alamedas floridas do serralho.

Aquele fato, na aparência tão simples, era que causava tão profunda impressão. Possivelmente pressagiava graves e soturnos acontecimentos.

Afirmavam alguns que o monarca, receoso da segurança de eu trono, procurava acautelar-se contra o conspirar sutil de inimigos perfidamente ocultos. Não obstante, era rico e poderoso:

 

Tinha escravos, guerreiros, pedrarias; / seu palácio era cheio de magias, / Seu tesouro era imenso e portentoso

As lentas caravanas, sem repouso, / Traziam-lhe, em devotas romarias,

Rebanhos, cordovões, tapeçarias, / O cravo, a mirra e o sândalo cheiroso.

 

No salão do "Alegre Jasmim" achavam-se, naquela ocasião, dois nobres muçulmanos. Um deles, o famoso poeta Chaeb Al-Raud, desfrutava invejável prestígio na corte; o outro era Agib, apelidado "O Mágico", físico de renome, que aprendera a ciência médica com os ulemás do Egito.

O poeta, dando mostras de agitado e apreensivo, explicava ao amigo com voz mal-segura:

- Há mais de cinqüenta anos que tal coisa não ocorria sob o céu de Bagdá. O último rei que ladeou o jardim pela manhã, depois da primeira prece, foi o glorioso Al-Mandi (que Allah o tenha em sua salvação!). E, no dia seguinte ao do temporão passeio real, três vizires foram mortos e duas cidades arrasadas. Admiro, ainda hoje, o califa Al-Mandi. Admiro-o porque foi bom, foi puro e justiceiro.

Agib, ao ouvir tão séria ponderação, sorriu incrédulo, como homem que deposita absoluta confiança na boa-estrela que o ampara. Seu espírito, caldeado por longa experiência da vida, não se deixava invadir facilmente de temores pueris ou superstições grosseiras. E retornou tranqüilo, ao poeta:

- Tudo isso é muito estranho, ó Chaeb Al-Raud! Não creio que um fato insignificante - um acidente tão natural da vida - possa influir no destino de um povo ou abalar a segurança do Estado.

- Escuta, meu amigo, - insistiu Chaeb com veemência - Queres que te conte uma verdade interessante e esquisita? Vou relembrar um episódio ocorrido comigo e verás se tenho ou não razão. Certa vez, quando me dirigia para a cidade de Lohéia, no Iêmen, surgiu-me à frente um velho mercador chamado Hossein, que avançava pela estrada em desesperada carreira. Embora não o conhecesse, senão ligeiramente, eu o fiz parar segurando-o pela "aba". Suas mãos porejavam desgraça, aflição inundava seus olhos. Interpelei-o com energia:

- "Por que corres assim? Estás sendo perseguido por algum bandido?" - Respondeu-me ofegante, o gesto decomposto: - "Estou a fugir da cidade!" - "Fugindo?" – estranhei. - "E por que motivo abandonas tu a cidade como infiel que leva o Demônio na garupa? Receias a agressão de algum inimigo cruel?"

Hossein contou-me o seguinte: - "Notei que todas as manhãs, junto ao muro de meu quarto, aparecia invariavelmente, um pequeno pássaro cinzento-escuro de bico amarelo. Chamei para o caso a atenção de minha mulher:

 

Todas as manhãs, Seja manhã de chuva / Ou manhã bela,

Um passarinho vem se postar / Vem cantar Na minha janela.

Canta cantigas que eu cantava outrora / Canta coisas que eu sinto mas não digo.

De onde ele vem não sei; nem onde mora; / Se lembranças me traz, leva-as consigo.

 

Pois bem. Estranha coincidência. Há dois dias que esse passarinho não aparece. Alguma coisa de muito grave está para acontecer aqui, pensei. E sem mais hesitar vendi todos os meus bens, liquidei os meus negócios e abandonei a cidade".

- "Ora, amigo Hossein" - repliquei em tom brejeiro. - "Que importância pode ter, para a vida de uma cidade. o ausentar-se dos muros de teu jardim um passarinho fosse qual fosse a cor de sua plumagem ou do seu bico? Receias alguma tempestade de areia? Afugenta-te o flagelo de um simum - o terrível simum que revolve os areais com fúria insana, e tudo varre, prostra e despedaça? Não te preocupes. Repara:

 

O ar tem transparência de cristal. / Vê como a sombra é suave, e o céu como está perto

E a brisa que anda tonta pelo espaço Vai ofertando vida à minha vida / Vai enchendo de luz meu coração".

 

O desvairado mercador, sem dar a mínima atenção às minhas palavras e aos meus versos, ditados, aliás, pelo bom-senso, prosseguiu em atropelada carreira pela estrada de Tehama. No dia seguinte, ao cair da tarde, o oásis de Lohéia foi alcançado por uma catástrofe. O céu tornou-se, de repente, escuro e avermelhado. O vento começou a soprar com violência inaudita. Era "o rugir infernal do furação infrene".

Os homens, tontos, alucinados, corriam a esmo pelas ruas, por entre nuvens de areia, que os cegavam, atropelando-se uns aos outros, blasfemando, aqui correndo, ali caindo, tentavam todos fugir, sem saber para onde. "O simum! O simum!" — gritavam num delírio trágico e pavoroso.

Era, enfim, o simum, que alucinadamente solto em pleno esplendor da sua força ardente, impelia de longe e esbarrondava as dunas, Desenrolando-se, no ar, em raivosas colunas...

O furacão terrível desabou sobre a cidade amontoando asas, destruindo as fontes e arrancando pelas raízes as verdejantes tamareiras. Foi-me forçoso reconhecer que o mercador Hossein se houvera, em verdade, cautelosamente, ao tomar a ausência do pássaro por um aviso sinistro. É possível que o passarinho tivesse fugido da região ao perceber, pela agudeza do instinto, a aproximação do flagelo.

E Chaeb, apoiando a fronte na palma da mão direita, concluiu:

— Seria um erro olhar com desapreço a todas as coisas de que a vida é feita. Vimos hoje o pássaro cinzento perpassar silencioso, pelo jardim. Que estará para acontecer? Só Allah sabe a verdade! Felizmente temos no trono um homem digno, leal e prudente, que sabe governar o povo "brilhando sem rancor, sem tirania".

Agib ergueu-se e acercou-se da varanda. Avistou ainda, ao longe, o vulto esguio do califa, que caminhava, lentamente, serpenteando por entre as roseiras olorosas.

O monarca, entrando no caminho das suaves alamedas, dirigiu-se para o belo e confortável pavilhão "cor de pérola", onde morava sua filha, a princesa Nadima.

 

A manhã é bela e luminosa, / Pássaros gorjeiam nas árvores do caminho,

O vento espalha, por toda parte, / Um perfume de flores entreabertas.

O Sol é um dardo de ouro cortando as nuvens, rasgando o azul

 

("A Sombra do Arco-Íris")

 

continua (aguarde publicação)

 

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