
A hesitação, meu bom e paciente amigo, é um dos sete deploráveis caminhos do erro (Ibn el-Roumi). Segue, portanto, o teu roteiro na vida, sem vacilações, sem incertezas, pois a dúvida é sinal de fraqueza e os espíritos esclarecidos abominam as indecisões. Dize-me, agora, sem titubear meio segundo:
- Queres partir comigo? Não te surpreendas, ó irmão dos árabes, com este convite feito assim, de momento, inopinado. É obra exclusiva do Destino. Alkitab el-maçoum! Maktub!
Dentro de vinte e três minutos, sem falta, posso afirmar, voarei naquele grande avião moderno, a jato, um PRST-109, da Varig que está ali pousado. Meu rumo será Damasco, a cidade das Mil e Uma Noites, a prodigiosa capital da República da Síria. Irei, como já disse, na Varig.
Repito. Decorridos vinte e poucos minutos, na companhia de vários amigos, estarei em pleno vôo. Sim, voando para o maravilhoso Oriente, se Allah quiser! Inch'Allah!
- Que pretendes fazer tão longe, no Oriente? Adquirir raridades históricas? Visitar amigos? Rever famosas ruínas?
- Nada disso, meu amigo. Nada disso. Quero dizer a verdade e atender a tua justa e natural curiosidade. Escuta.
Vou, neste momento, visitar a nossa tão querida e saudosa Darmasuq, rever o riquíssimo museu, colher alguns nomes, apurar certas datas, ouvir os ulemás, consultar documentos antigos, entrevistar astuciosos caravaneiros, a fim de obter dados e informações que me permitam escrever, com total segurança, tintim por tintim, de cabo a cabo, a memorável história intitulada Salim, o Mágico.
- Mas quem foi, afinal, esse tão citado Salim que fez jus ao honroso apelido de "O Mágico"? Dize-me, por favor, quem foi Salim?
- Vou contar-te a história de Salim. Dentro de poucos minutos, como sabes, deverei partir.
Em Damasco, que é uma das cidades mais velhas e mais românticas do mundo, vivia um homem tímido, bastante retraído, chamado Salim. Salim só, não. Seria ridículo. Sem cabimento. O nosso herói poderia jactar-se de ter um nome bonito, sonoro, invulgar, que jamais ficará apagado ou perdido na poeira cinzenta do esquecimento: Salim Maluf Ibn Munir Hillal.
Exercia Salim Maluf Ibn Munir Hillal a modesta profissão de cordoeiro e, na sua faina diária, torcendo e retorcendo fios, fabricava corda; com rara perfeição. Destacavam-se as cordas de sua fabricação pelo requinte de acabamento. E eram cordas seguras, resistentes, duradouras, de vários tipos: cordas de algodão, de cânhamo, fibras, de crinas, cordas finas de linho, cordas ainda mais finas de seda, cordas para instrumentos musicais e dezessete outras variedades das quais tratarei mais tarde, quando regressar de El-Cham, a Cidade do Sol.
"Salim bom". Essa frase, com duas palavras apenas, deveria exprimir, em seu laconismo, o seguinte palanfrório: "Salim era bom como uma tarde serena de primavera. Bom e honrado. Honrado e modesto". É lógico e prático o sistema árabe: Salim bom.
Retomemos à narrativa de nossa história. Prometo não me deter mais com trivialíssimas questiúnculas gramaticais, com verbos e advérbios. Nada disso. Allah iá inana! (Pela vontade de Deus).
Salim, sendo um homem educado, bom, e bem esclarecido na vida, era tolerante e aceitava, com imensa simpatia a religião de sua esposa.
Nurenahar, por seu lado, pesando bem a felicidade do lar e o futuro dos filhos, e sendo pessoa também finamente educada, concordava com as crenças islâmicas do seu marido.
Num ponto (e era um ponto essencial) Salim e Nurenahar estavam inteiramente de acordo: Deus ou Allah, Criador do céu e da Terra, é único, Eterno, Onipotente, Justo e Misericordioso.
("Salim, o Mágico")