Conversa ao pé do ouvido

 

Ainda a propósito das bodas de diamante do Roberto e da Marilda.

Como se deve imaginar, nesse importante dia, especialmente eu e o Roberto teríamos que ter – e tivemos – alguns momentos para conversar.

Assim é que logo começamos a folhear as páginas da vida de trás para frente.

A cidade de Marília foi o palco primeiro dos acontecimentos.

E nos lembramos do primeiro momento, do primeiro contato em um culto evangélico na casa do seu irmão mais velho, eu teria os meus seis ou sete anos e ele uns treze, nessa ocasião recém-chegado do seu Estado de origem.

Em seguida veio às nossas mentes o nosso quarteto masculino. Cada um cantava na sua voz, primeira, segunda, terceira ou quarta voz. A verdade porém é que muitas vezes nos revezávamos nas vozes conforme pedia determinada música.

Quando, já casado, ele se mudou para a cidade de Garça, íamos até lá, aos domingos, para os ensaios.

Mas não dá para lembrar de tudo no primeiro momento.

De repente o Roberto disse:

- Olha, Herci, a pior coisa que pode acontecer a alguém é ter que amputar uma perna como ocorreu comigo... Ter que depender dos outros para se locomover. Andar apoiado em um andador!...

Fiquei meio passado de início. Realmente, é motivo para muita tristeza. Algo que ninguém quer enfrentar. Especialmente ele que, na mocidade, era um verdadeiro atleta e saía-se bem em todas as modalidades esportivas.

Mas passando esse primeiro momento readquiri o autocontrole e lembrei-me de Poliana - personagem de Eleanor H. Porter, e do seu otimismo.

- Não sei, mas em vez da perna poderia quem sabe ser a visão. Ou talvez a audição?

Ele fixou os olhos em mim.

- Como você se sentiria se não pudesse mais ouvir o som das aves, ou de uma criança brincando, ou de um coral louvando a Deus. Ou ainda cantar como você sempre cantou?

Não quis menosprezar o seu sentimento por ter perdido uma perna, mas sim fazer-lhe ver outras faces do mesmo problema.

Certamente que se fossem os olhos a serem atingidos ou quem sabe os ouvidos, a sensação de perda seria a mesma ou ainda pior.

Mas para mim o Roberto era e ainda é o Roberto - que seja sem um membro, ou sem som em sua garganta ou sem audição ou seja lá qual for a falta que tiver. O importante é o Roberto como pessoa humana, com as qualidades que teve e ainda tem, sendo parte importante da minha vida.

Disse-lhe mais:

- "Olha, eu vejo você como sempre vi deste os tempos em que éramos jovens. Para mim você não mudou nada. É como se ainda o visse entre os jovens da Igreja participando de um jogo de voleibol, ou sentado ao lado dos outros ouvindo uma palestra, ou mesmo de pé, à frente, dando uma palestra. Ou ainda na cerimônia do meu casamento, em que você homenageou a mim e a minha esposa com aquele solo.

- "Os nossos momentos foram inesquecíveis e a lembrança deles me emociona muito. Digo com toda a certeza: não são muitas as pessoas que podem ter um sentimento tão profundo de alegria e satisfação como eu e mais algumas pessoas que sempre estiveram próximas de você. O meu maior sentimento é ter deixado passar em branco um período tão grande de nossas vidas sem que nada fosse feito para preenchê-lo devidamente com nossos cânticos e nossas risadas.

 - "Hoje eu o vejo cercado e amado pela esposa, pelos filhos e pelos netos. Prova de que nada foi em vão".

De qualquer forma, a minha alegria foi imensa, pois sequer imaginei que ainda estivessem vivos, visto que os procurei com todo o empenho na cidade de Garça, há cerca de dez anos, sem nenhum resultado.

 

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