
Ouve outrora em Korassã, na Pérsia, um rei chamado Khara Abdulazim que se tornou famoso em razão de extravagante mania que sempre o dominou: queria ter em sua corte intérpretes para todos os idiomas falados no mundo.
Para isto mantinha uma enorme e dispendiosa Academia denominada "Razilda Radine Dalambo" - que quer dizer "Casa dos Intérpretes do Rei", onde se reuniam sábios, doutores e poliglotas famosos que se dedicavam exclusivamente ao estudo de todas as línguas e dialetos estrangeiros, desde os roucos e arrevesados sons dos tibetanos até o falar cantante dos negros selvagens do Kodjã.
Ora, um dia o rei Abdulazim ouviu contar que existia no interior da Pérsia, para além das fronteiras de seus domínios, uma pequena cidade chamada Semnã cuja população falava um idioma tão difícil e complicado que jamais sábio algum fora capaz de aprendê-lo.
Diante de tão extraordinária notícia, que punha sensível falha no saber de sua famosa Academia, o rei tomou uma decisão. Ordenou a um dos mais lustres membros da "Razilda Radine Dalambo", o ilustre Anazidbeg, que sabia falar trinta e duas línguas, que partisse sem demora para o país dos semnamitas e de lá voltasse quando soubesse falar fluentemente o idioma e estivesse apto a contar uma história em "mazalês" - que assim se denominava o ignoto falar de Semnã. O grande murza, em obediência à ordem do rei, para lá partiu e durante dez anos consecutivos estudou interruptamente o mazalês. Quando se julgou afinal em condições de compreender e falar o idioma voltou a Khorassã e apresentou-se ao rei.
Perguntou-lhe o monarca:
- Será possível - ó sábio! - que já possas contar uma história no impenetrável dialeto dos semnamitas?
- Acredito-me, ó rei poderoso! - respondeu o sábio - apto a narrar uma lenda ou um conto em mazalês!
Nesse dia mandou o soberano persa reunir com a maior pompa a famosa "Razilda Radine Dalambo" (Casa dos Intérpretes do Rei) e convidou igualmente para assistir à solenidade todos os nobres, ministros, vizires e altos funcionários da corte.
A "Casa dos Intérpretes do Rei" estava luxuosamente ornamentada. O rei Abdulazim recomendara mui expressamente que a prova de erudição do filólogo Anazidbeg fosse brilhantemente festejada.
À hora marcada para a grande cerimônia, quando já se achavam presentes todos os convidados, inclusive os embaixadores estrangeiros, o rei assim falou:
- Senhores! Que Allah, o Exaltado, nos proteja e abençoe! Vou apresentar-vos uma das mais sensacionais provas da nossa brilhante inteligência e grande cultura. O sábio filólogo Anazidbeg, o presidente da "Casa dos Intérpretes do Rei", depois de longo e cuidadoso estudo, aperfeiçoou-se no intrincado idioma mazalês, para o qual não havia até agora, intérprete algum no mundo, e vai exibir-nos a sua admirável sagacidade, narrando-nos uma história em puro dialeto semnamita!
Houve no grande e riquíssimo salão da Academia um movimento geral de surpresa e admiração. Os doutores julgavam impossível que houvesse alguém capaz de aprender uma língua diante de cujas dificuldades desanimaram os filólogos mais pacientes e mais cultos do mundo.
Ante o profundo silêncio que reinava no suntuoso cenáculo, o sábio Anazidbeg assim falou:
- Rei Magnânimo! Que o Altíssimo vos conserve feliz até o último século da Eternidade! Vou contar-vos no singular dialeto dos semnamitas, uma história intitulada "Sharak salmbala jak duari", que é uma das lendas mais formosas desse país curioso onde vivi por espaço de dez anos!
E diante do rei e de todos os ilustres ouvintes o sábio Anazidbeg mandou que lhe trouxessem uma lata de forma alongada, dentro da qual depositou cinco pedras de diferentes tamanhos. Feito o que entrou a sacudi-la, ora devagar, ora mais depressa, produzindo assim um ruído desagradável e quase monótono.
O poderoso rei fitava o sábio com os olhos esbugalhados de espanto: os doutores da Academia murmuravam assustados opiniões desabonadoras sobre a integridade mental do ilustre colega.
Depois de sacudir a lata durante algum tempo o sábio colocou-a cuidadosamente a seu lado e dirigindo-se respeitoso ao monarca disse-lhe:
- Fica assim contada, ó Rei Venturoso!, - no singular dialeto dos semnamitas, a belíssima história "Sharak salmbala jak duari!".
- Ó cão miserável! - gritou o rei esbravejando, colérico, o olhar fuzilante, os punhos crispados. - Julgas então que por seres sábio podes zombar impunemente do teu rei! Onde já se viu contar uma história substituindo-se a voz humana pelos ruídos de pedras sacudidas dentro de uma lata? Vais pagar caro a ousadia e pilhéria descabida com que me insultaste!
E, voltando-se para o chefe dos guardas, disse o soberano:
- Ordeno que este atrevido seja imediatamente degolado!
Essa inesperada sentença de morte foi ouvida com indizível assombro por todos os presentes. Ninguém poderia acreditar que o rei Abdulazim mandasse sacrificar um sábio cuja culpa única fora, talvez, a de haver enlouquecido ao tentar estudar uma língua tida como impenetrável à compreensão de um estrangeiro.
Nesse momento, porém, o venerando Kaleh Maldã - primeiro vizir do rei - homem muito estimado e respeitado no país por suas invejáveis qualidades de caráter e coração, dirigindo-se ao exaltado soberano, assim falou:
- Certo estou, ó Rei!, de que se Vossa Majestade mandar decapitar o sábio Anazidbeg, cometerá inqualificável injustiça.
- Injustiça? - estranhou o rei. - Onde há injustiça em castigar um súdito que teve a ousadia de escarnecer de seu próprio rei em presença de toda a sua ilustre corte?
Respondeu o digno ministro de Khorassã:
- Vejo-me forçado a revelar um segredo que durante cinqüenta anos guardei no mais recôndito do meu coração! Sou natural da cidade de Semna e conheço portanto o complicado linguajar denominado "mazalês". Sabeis vós todos (apelo para o testemunho de todos os presentes!) que jamais proferi uma mentira ou uma falsidade! Pois bem, posso jurar que o mazalês é tão complicado, tão áspero e dissonante, que faz lembrar o ruído de pedras sacudidas dentro de uma lata afunilada! E não tenho palavras com que exprimir a minha admiração pelo que acabo de ouvir, graças ao esforço e habilidade do nosso ilustre Anazidbeg, pois devo dizer (embora pareça incrível!) que esse sábio extraordinário conseguiu uma coisa realmente espantosa: sacudindo na lata as cinco pedras, imitou perfeitamente todos os sons do mazalês, reuniu-os em palavras que por sua vez reproduziram uma das lendas mais curiosas de meu país natal! Beijo como sincera homenagem as mãos desse grande e admirável Anazidbeg pelo talento que revelou, praticando uma proeza que deve causar assombro ao mundo inteiro!
- Meu caro ministro - disse o rei, - vou revogar, a teu pedido, a sentença de morte que há pouco proferi. Sei que és honrado e serias incapaz, sob pretexto algum, de proferir uma mentira! Confesso porém que a incrível proeza filológica praticada pelo sábio Anazidbeg (Allah porém é mais sábio!) me causa menos espanto do que curiosidade! Gostaria que me dissesses agora como poderias traduzir não só o título como também a história contada por tão original processo!
- Infelizmente, ó Rei - respondeu o ilustre ministro, - não posso atender ao justo pedido de Vossa Majestade. O título da lenda de Semnã é intraduzível! Não há em persa, árabe, siríaco, hindu, turco, chinês, ou em qualquer outro idioma falado por muçulmanos, cristãos, ou idólatras, palavras capazes de expressar o sentido da frase "Sharak salmbala jak duari", por conter vários trocadilhos feitos em torno de costumes inteiramente fora do nosso entendimento. Qualquer tentativa de tradução seria tão infiel e desajeitada que pareceria obra de um demente! E sem o sentido exato do título é impossível a compreensão da história!
O rei Khara Abdulazim, em face das impressivas palavras do austero ministro, convenceu-se de que os mistérios da Filologia são tais e tantos, que o cabedal humano é insuficiente para desvendar todos os recantos de seu grande campo.
O sábio Anazidbeg recebeu como recompensa de seu esforço, talento e tenacidade a mesma lata de que se utilizara para "contar" a lenda. Estava, porém, cheia de brilhantes e pérolas de grande valor.
("Lendas do Deserto")