
Nege Além
Colegas bem mais novos que eu no Banco, mal completavam o tempo exigido pela Previdência requeriam a aposentadoria e deixavam o serviço sem tristezas nem saudades. Tudo calma e naturalmente, sem perdas de noites de sono com a irreversível decisão. Nunca pensei que meu dia também chegasse.
Contava eu vinte e nove anos de serviço no Banco. Acabara de voltar de férias inesquecíveis, aproveitadas com a mulher em excursões até o último instante. Vivi dias de nababo, se tanta pretensão podia ter um bancário, e estranhamente ainda sobrou dinheiro.
Embora curta a minha ausência do Banco, pareceu-me que transcorreram anos, tamanho o desânimo que se apoderou de mim nos primeiros dias de volta ao trabalho. As dificuldades do dia-a-dia, que antes eu sempre soube suportar ou contornar com relativa serenidade, passaram a agigantar-se. Então, a idéia da aposentadoria insinuou-se-me firme na cabeça e ali se alojou irremovível.
- Minhas próximas férias serão longas, muito longas! - disse eu à mulher.
- Como assim?! Não entendi!
- Resolvi aposentar-me daqui a um ano...
- Aposentar-se?! Será mesmo?! Duvido muito!
- Pode duvidar! Aguarde para ver!
A Lara sorriu incrédula e voltou aos trabalhos rotineiros da casa, como se nada tivesse ouvido de extraordinário.
A maioria dos comissionados em altos cargos costuma ocultar até o dia do desligamento do Banco os propósitos de aposentar-se. Bem sabem que o homem perde o prestígio, mal deixa transparecer esse intento. Talvez por isso ainda se encontrem colegas com perto de cinqüenta anos de Banco e ainda indecisos e iludidos. Medo de quê?! Da nebulosa ociosidade, ou da total e irremediável perda de influência pessoal? Comigo aconteceu diferente. Propalei aos quatro ventos minha resolução.
- Vou pendurar as chuteiras, Colegas! anunciei aos funcionários. Comecei hoje mesmo a cancelar com um xis bem vermelho os dias na folhinha. Quando completar um ano, deixo o Banco.
- Fala sério mesmo?
- Muito sério.
- Mas o Chefe é ainda novo! Conheço gerentes com mais de quarenta anos de Banco e que continuam cada dia mais agarrados ao cargo, como a uma jovem noiva!
- Pode ser! Talvez tenham ficado noivos já em idade avançada. Meus amores e noivado com as comissões começaram antes do primeiro qüinqüênio de serviço...
Eu apreciava ouvir comentários sobre a vida de aposentados, as possíveis viagens sem pressa de regresso, a visão de um recomeço de vida liberto de pressões. E perguntava-me: será que eu não terei o direito de viver na ociosidade o resto de meus dias? Trinta anos de dedicação ao Banco, sem contar os dez ou mais em que estive em pequenos empregos antes! Após cerca de quarenta anos de trabalho, a aposentadoria deveria chegar como prêmio e não castigo.
E depois de aposentado? Procurar novo emprego?! Qual o quê! Jamais encontraria igual patrão. Recebi dele muito mais do que pretendia ou merecia. A posse no Banco foi o meu definitivo salto para uma posição estável e disputada. Ser funcionário do Banco do País era o máximo que a rapaziada podia almejar.
Convivi nas Agências com professores, economistas, advogados e engenheiros, em igualdade de condições, sem que seus invejáveis conhecimentos e diplomas em momento algum obstassem a carreira dos mais antigos no Banco e que apenas puderam cursar o secundário ou o primário. Esses admiráveis e competentes colegas julgavam mais vantajoso e garantido ser bancários, a princípio datilografando fichinhas o dia todo, do que enfrentar lá fora um desconhecido campo de trabalho minado de invejas e desleais concorrentes.
Numa segunda-feira cheguei ao Banco meio aborrecido. Retirei da gaveta a folhinha e risquei mais três dias, o sábado, o domingo e a segunda, como era meu novo hábito fazer no início de cada semana, calcando a caneta quase a ponto de perfurar o papel. Sentia imenso prazer no ato. Não entendi o que de súbito ocorreu. Durante instantes, pareceu-me estar eliminando meus próprios dias de vida, e restavam tão poucos. E eu os ia golpeando à direita, à esquerda, acima, abaixo, sem dó nem piedade. Menos três dias, menos dois, menos um...
Daí em diante as constantes repetições da palavra "aposentadoria", e de tudo o mais que se relacionasse com ela, entraram a causar-me forte mal-estar e a enervar-me. Quase cheguei ao auge de proibir os colegas de tocar no assunto. Continha-me a custo. Afinal, fui eu o culpado da situação criada e deveria pagar meus próprios erros, ouvindo com fastio o que antes me causava satisfação. Arrependia-me de ter exposto os planos com tanta antecedência, e sem nenhuma reserva, não cogitando nas desastrosas conseqüências para meu estado de espírito.
Caminhei no Banco letra a letra, cargo a cargo. Não experimentei a emoção dos sucessos envaidecedores, nem a desilusão de humilhantes fracassos. Galguei até ao último degrau da carreira, não havia mais aonde subir. Olhei para trás - todo o caminho percorrido. Olhei para frente - o termo da jornada e a aposentadoria a acenar-me cheia de mistérios. Aproximavam-se os derradeiros dias. Seria mentir se afirmasse que eu estava tranqüilo. Aumentava-me o pesar de deixar o Banco e os colegas, bem como o temor do salto à vida ociosa. Os depoimentos de aposentados eram contraditórios. Uns se arrependiam de não ter deixado antes o Banco. Outros, se previssem o que os aguardava, jamais se teriam aposentado. Eu não sabia em quem acreditar, se nos pessimistas, se nos otimistas.
Quando assumi a Gerência apossei-me de desprezível legado que vinha passando de mão a mão pelos colegas que me antecederam, num período de mais de vinte anos. O legado consistia em resistente pasta de cartolina rotulada com a tradicional marca sigilosa "Estritamente Confidencial - Gerência" e fechada a sete chaves em armário de aço. Continha a pasta memorandos de advertência, ameaças e censuras dirigidas por administradores a funcionários, e as justificativas destes, sobre emissões de cheques sem fundos, chegadas ao Banco com pequenos atrasos, uso demorado dos sanitários, namoros de casados com as "coleguinhas" modernas, desimpedidas e carentes de amor, dívidas vencidas e não pagas, etc., etc.
Nada mais tendo de importante que fazer, eu matava o tempo relendo esses disparates. Às vezes, ria. Noutras crescia-me a revolta. Entre os implicados, alguns estavam mortos havia anos, outros ocupavam gerências, inspetorias ou elevados postos na Direção Geral do Banco. Dois deles ainda permaneciam comissionados na Agência.
As dívidas contraídas ou se pagam, ou se perdoam, ou prescrevem com o tempo. Os colegas envolvidos, com certeza, haviam-se penitenciado das suas, se as houve, com elevadas perdas morais, durante anos seguidos, e ainda continuavam a figurar como devedores relapsos aos olhos e julgamentos dos futuros gestores da Agência.
Certo ou errado, resolvi interromper a sucessão e ser o último detentor de tão aviltante legado. Era tarde da noite. Eu estava sozinho na gerência. Abri a pasta. Os irrequietos dedos entraram a executar avidamente a tarefa de rasgar os referidos memorandos, um a um, em pedacinhos, e atirá-los bem misturados à cesta de lixo.
- Bem, caros Colegas, agora vocês estão remidos para sempre! - balbuciei, aliviado.
Que me lembre, foram esses os únicos momentos de prazer nos turbulentos dias que me antecederam a aposentadoria.
(“Lorotas de um Aposentado”)