
Depois da segunda prece deixamos a hospedaria e seguimos para a residência do vizir Ibrahim Maluf.
Ao entrar na rica morada do vizir, o calculista ficou encantado. Era uma casa principesca de puro estilo árabe.
Um escravo negro conduziu-nos à presença do rico ministro. Fomos encontrá-lo recostado em grandes almofadas a palestrar com dois de seus amigos.
Um deles era o xeque Salém Nasair, nosso companheiro de aventuras do deserto; o outro era um homem baixo, de rosto redondo, fisionomia bondosa, a barba ligeiramente grisalha. Trajava com apurado gosto e ostentava no peito uma medalha de forma retangular, tendo uma das metades amarela, cor de ouro, e outra escura como bronze.
O vizir Maluf recebeu-nos com demonstrações de viva simpatia. Dirigindo-se ao homem da medalha, disse risonho:
- Eis aí, meu caro Iezid, o nosso grande matemático. Esse jovem que o acompanha é um bagdali que o descobriu por acaso, quando jornadeava pelos caminhos de Allah!
Dirigimos respeitoso salã ao nobre xeque. Soubemos, mais tarde, que se tratava de brilhante poeta - Iezid Abdul-Hamid - amigo e confidente do califa Al-Motacém. Aquela medalha singular ele a recebera, como prêmio das mãos do califa por ter escrito um poema com trinta mil e duzentos versos sem empregar uma única vez as letras Kaf, lam e ayn.
- Custa-me acreditar, amigo Maluf - declarou o poeta Iezid - nas façanhas prodigiosas levadas a termo por esse calculista persa. Quando os números se combinam, aparecem também os artifícios de cálculos e as manifestações algébricas. Aprendi na Índia um provérbio que diz: - "É preciso desconfiar sete vezes do cálculo, e cem vezes do calculista".
- Para pôr termo a essas desconfianças - sugeriu o vizir - vamos submeter o nosso hóspede a uma prova decisiva.
E, isso dizendo, ergueu-se da cômoda almofada e conduziu-o a uma das varandas do palácio.
Abria essa varanda para um grande pátio que, no momento, desbordava de camelos. E que lindos espécimes! Quase todos pareciam de boa raça. Avistei, de pronto, dois ou três brancos, da Mongólia, e vários "carehs", de pelo claro.
- Eis aí - disse o vizir - a bela partida de camelos ,que comprei ontem e que pretendo enviar como dote ao pai de minha noiva. Sei precisamente, sem erro possível, quantos são!
E o vizir, para tornar mais interessante a prova, enunciou em segredo ao ouvido de seu amigo Iezid, o poeta, o número total das alimárias.
- Quero agora - prosseguiu, voltando para Beremiz - que o nosso calculista diga quantos camelos se acham no pátio, diante de nós!
Fiquei apreensivo com o caso. Os camelos eram numerosos e confundiam-se no meio da agitação em que se achavam. Se o meu amigo, por um descuido, errasse no cálculo, a nossa visita teria como conseqüência o mais doloroso fracasso. Depois de correr os olhos pela cáfila o inteligente Beremiz disse:
- Senhor vizir! Quero crer que se encontram agora, no pátio, 257 camelos!
- É isso mesmo! - confirmou o vizir. - Acertou. O total é realmente esse: 257!
- E como chegou a esse resultado tão depressa e com tanta precisão? - indagou, com indisfarçável curiosidade o poeta Iezid.
- Muito simplesmente - explicou Beremiz. - Contar os camelos, um por um, seria, a meu ver, tarefa sem interesse, do valor de uma bagatela. Para tornar mais interessante o problema, procedi da seguinte forma: contei primeiro todas as pernas e em seguida as orelhas: achei desse modo um total de 1541. A esse total juntei uma unidade e dividi o resultado por 6. Feita essa pequena divisão, encontrei o quociente exato: 257!
- Pelo nome do Profeta! - clamou o vizir. - Isso tudo é originalíssimo e estupendo! Quem pudera imaginar que esse calculista, para tornar mais interessante o problema, fosse capaz de contar todas as pernas e orelhas de 257 camelos! Pela glória de Mafoma!
- Devo dizer, senhor Vizir - retorquiu Beremiz - que os cálculos tornam-se, às vezes, complicados e difíceis em conseqüência do descuido ou da falta de habilidade do próprio calculista. Certa vez, em Khói, na Pérsia, quando vigiava o rebanho de meu amo, passou pelo céu um bando de borboletas. Um pastor, a meu lado, perguntou-me se eu poderia contá-las. "São oitocentas e cinqüenta e seis!" - respondi. "Oitocentas e cinqüenta e seis!" – exclamou o meu companheiro, como se achasse exagerado aquele total. Só então verifiquei que por descuido havia contado não as borboletas, mas as suas asas. Feita a necessária divisão por 2, encontrei a seguir o resultado certo.
Ao ouvir o relato desse caso, expandiu-se o vizir com estrepitosa risada que soava, aos meus ouvidos, como se fora uma música deliciosa.
- Há nisso tudo - insistiu muito sério o poeta Iezid - uma particularidade que me escapa ao raciocínio. A divisão por 6 é aceitável, uma vez que cada camelo tem 4 patas e 2 orelhas e a soma (4+2) é igual a 6. Não compreendo, porém, é a razão que o levou a juntar 1 ao total antes de dividi-lo por 6!
- Nada mais simples - acudiu logo Beremiz. - Ao contar as orelhas, notei que um dos camelos era defeituoso (só tinha uma orelha). Para que a conta ficasse certa era preciso acrescentar 1 ao total obtido.
E, voltando-se para o vizir, perguntou:
- Seria indiscrição ou imprudência de minha parte perguntar-vos, ó vizir!, qual a idade daquela que tem a ventura de ser vossa noiva?
- De modo algum - respondeu, risonho, o ministro. - Astir tem 16 anos !
E acrescentou, sublinhando as palavras com um ligeiro tom de desconfiança:
- Mas não vejo relação alguma, senhor calculista, entre a idade da minha noiva e os camelos que vou oferecer de presente ao meu futuro sogro!
- Desejo apenas - refletiu Beremiz - fazer-vos uma pequena sugestão. - Se retirardes da cáfila o tal camelo defeituoso (sem orelha) o total passará a ser de 256. Ora, 256 é o quadrado de 16, isto é, 16 vezes 16. O presente oferecido ao pai da encantadora Astir tomará, desse modo, feição altamente matemática: O número de camelos que formam o dote é igual ao quadrado da idade da noiva! Além do mais, o número 256 é potência exata do número 2 (que para os antigos era número simbólico), ao passo que 257 é primo! Essas relações entre os números quadrados são de bom augúrio para os apaixonados. Conta-se que o rei Salomão, para assegurar a base de sua felicidade, deu à rainha de Sabá - a famosa Belquiss - uma caixa de 529 pérolas. Sabe-se que 529 é o quadrado de 23, e era precisamente a idade da rainha. O número 256 apresenta, entretanto, grande vantagem sobre o número 529. Se somarmos os algarismos de 256 obteremos a soma 13; elevando-se 13 ao quadrado teremos 169, no qual a soma dos algarismos faz voltar ao número 16. Por esse motivo os calculistas indicam o número 256 como reversível, pelo quadrado de seus próprios elementos! Existe, pois, entre os números 13 e 16 curiosa relação que poderia ser chamada a "amizade quadrática". Realmente, se os números falassem poderíamos ouvir o seguinte diálogo:
O Dezesseis diria ao Treze: - Quero prestar-te uma homenagem, meu caro. O meu quadrado é 256 e a soma dos algarismos desse quadrado é 13. O Treze responderia: - Agradeço a tua bondade, meu amigo, e quero retribuí-la na mesma moeda. O meu quadrado é 169 e a soma dos algarismos desse quadrado é 16.
Parece-me que justifiquei cabalmente a preferência que deve ser dada ao número 256, que excede, em propriedade, o número 257.
- A sua idéia é bastante curiosa - concordou prontamente o vizir - e vou executá-la, muito embora venha sobre mim pesar a acusação de plagiário do grande Salomão !
E, dirigindo-se ao poeta Iezid, rematou:
- Noto que a inteligência desse calculista não é menor que a sua habilidade para descobrir analogias e inventar lendas. Muito acertado andei no momento em que resolvi convidá-lo para meu secretário.
- Sinto dizer-vos, ilustre Mirza - tornou Beremiz - que só poderia aceitar o vosso honroso convite se aqui houvesse também lugar para o meu bom amigo Hank-Tade-Maiá - o bagdali que ora se vê desempregado e sem recursos.
Fiquei encantado com a delicada lembrança do calculista. Ele procurava, desse modo, atrair a meu favor a valiosa proteção do poderoso vizir.
- É muito justo o seu pedido - condescendeu o vizir. - O seu companheiro Hank-Tade-Maiá ficará exercendo aqui as funções de escriba, com o ordenado que lhe couber.
Aceitei sem hesitar a proposta, exprimindo logo ao vizir e também ao bondoso Beremiz o meu reconhecimento.
(“O Homem Que Calculava”)