A contagem da população

 

O burro amarelo. História do vizir Dahriman.

 

Das "Mil histórias sem Fim... esta é a quadragésima quinta. “Suavemente descansarás se o teu coração não te repreender”. Lida a quadragésima quinta, restam novecentas e cinqüenta e cinco.

 

Ao repousar, como de costume, na soberba varanda de seu palácio, em Bagdá, o califa Harun Al-Raschid foi assaltado por um sonho impressionante.

Sonhou o bom monarca que se achava a deambular, sozinho, por uma região deserta e sombria. De súbito, surgiram três panteras negras que investiram ameaçadoras. Seus uivos ferozes abriam sombras no silêncio da tarde.

O monarca, vivendo a agitação do estranho sonho, pensou em fugir dquela região sinistra.

Era impossível. A seus pés abria-se, escavado nas pedras, um abismo trevoso onde a Morte implacável espreitava o viandante incauto. Já as feras se aproximavam arquejantes do rei quanta, quando um cavalheiro, poderosamente armado, veio destemido, em seu auxílio.

O temerário guerreiro tomou o rei em seus braços possantes e o arrebatou dali. Com indizível assombro, observou o rei que as vestes e as pesadas armaduras do gênio bondoso pareciam cheias de inscrições e figuras matemáticas.

Ao despertar na manhã seguinte o Emir dos Árabes, sentindo a nitidez marcante de seu sonho, recordava-se muito bem do cavalheiro que o livrara das panteras; revia-o com sua túnica cheia de números, com seu escudo prateado, onde rebrilhavam arabescos feitos de letras e algarismos.

A inquietação, com o bater aflitivo de suas asas negras, invadiu o espírito do rei.

Só um sábio divinamente inspirado no Livro do Saber Sem Limites seria capaz de elucidar aquela dúvida e desvendar o mistério.

Mandou, pois, o rei viesse à sua presença o esclarecido "taleb" Farid Ben-Farid, que se destacava entre os grandes "ulemás" (Allah, porém, é mais sábio!).

Interrogado pelo monarca, assim falou o eminentíssimo Xeque:

Esse sonho, ó rei do Tempo! apresenta, a meu ver, explicação clara e simples. Mais simples do que o riso da inocência e mais clara do que a água da fonte. As três panteras negras que investiram ameaçadoras simbolizavam, sem dúvida, os inimigos daquele que administra o Estado: a Imprevisão, a Desorganização e a Dissipação. Se o administrador é incapaz de prever, incapaz será também de organizar com eficiência os serviços públicos. Não poderá, portanto, agir com segurança a fim de evitar as despesas inúteis, os gastos improdutivos, os desvios criminosos - as dissipações, enfim.

- E como poderá o rei supervisionar os múltiplos e complexos problemas administrativos?

Cumpria ao "ulemá" esclarecer o soberano. E fê-lo em tom claro e em termos bem precisos:

- É fácil. Basta conhecer os recursos básicos do país, suas riquezas, suas possibilidades, suas populações. Todos esses elementos importantíssimos são expressos, em última análise, por meio de números. A salvação e a segurança do rei estão unicamente nos números.

Encantado com as palavras do judicioso "ulemá", mandou o rei reunir todos os seus vizires e emitiu em tom sério esta resolução:

- Determino que sejam contratados os mais hábeis calculistas, escribas e "talebs". Precisamos, com a maior urgência, calcular tudo, medir tudo, avaliar tudo. Antes de mais nada é mister contar os habitantes (crentes e infiéis) que vivem no País dos Árabes.

O ilustre e estimado vizir Amil Amin, homem pesada e já grisalho, ao ouvir aquela decisão do rei, ponderou com irrepreensível compostura:

- Rei magnânimo e justo! Queira Allah prolongar por muitos e muitos anos a vossa preciosa existência! Posso assegurar que seria quase impossível fazer um arrolamento de todos os habitantes do nosso belo país. Essa tarefa está muito acima de nossas possibilidades e iria exigir grande sacrifício de tempo e de dinheiro.

Acudiu com voz grave o jovem Dahriman (outro vizir da corte) que era apontado como um dos homens mais inteligentes do país:

- Peço perdão, ó Emir dos Crentes! mas devo observar que o meu ilustre colega Amil Amin deixou-se envenenar por deplorável pessimismo. Labora em equívoco ao inventar dificuldades e ao criar tropeços que só existem na imaginação dos incapazes. Conheço um artifício muito simples que permitirá calcular, em dois ou três dias, a população de Bagdá!

- Como farias isso, ó vizir?  indagou o rei, abrindo os lábios num riso de intenso júbilo.

- É muito simples, ó Sucessor do Profeta! - explicou sem titubear o digno ministro. - Conto primeiro os cegos: no dia seguinte (se Allah quiser!) contarei os que não são cegos. A soma desses dois números será a população total exata, sem erro e sem incertezas!

- Pela glória de Maomé! - exultou o monarca. - Quero que apliques, sem demora, o teu admirável processo. Estás autorizado a iniciar hoje mesmo o recenseamento de nossa gloriosa capital.

No dia seguinte o poderoso califa mandou vir a sua presença o vizir Dahriman e interrogou-o em presença de sua numerosa corte.

- Allah sobre ti e ao redor de ti, ó vizir! Quantos cegos vivem à sombra de nossas mesquitas?

O digno secretário do rei compreendendo que era alvo de todas as atenções, meditou durante alguns instantes, e respondeu solene:

- São precisamente mil e duzentos e quarenta e  sete!

Interpelou-o novamente o rei:

- E como chegaste a esse resultado tão perfeito?

Exigia o Emir uma explicação. E essa explicação, formulou-a o vizir Dahriman nos seguintes termos:

- Foi muito simples. Mandei pintar um burro de amarelo. Esse burro, pelas mãos de um beduíno, foi conduzido lentamente pelas ruas da cidade. E fomos andando. Logo na primeira rua, antes da mesquita, percebemos que uma das pessoas não conseguia enxergar o burro amarelo. Voltei-me para o escriba e ordenei: “Toma nota, esse homem é cego". Um pouco adiante, uma velha que vendia maçãs bradou assustada: "Pelas barbas de Maomé! Que será aquilo?". Eu disse outra vez ao escriba: - "Assinala mais essa. A infeliz e cega. E assim, um por um, foi contando todos os cegos de Bagdá. E o total foi exatamente esse: "Mil duzentos e quarenta e sete!"

Ao ouvir aquela estranha narrativa, o califa Harun Al-Raschid fez-se escarlate de indignação; cruzou lentamente os braços e, num tom que denunciava contrariedade e nervosismo, proferiu com impetuosa energia:

— O teu suposto artifício, ó vizir, não passa de uma leviandade insultuosa ou de uma pilhéria ridícula! Vou, pois, mandar reunir todos os cegos que vivem nesta cidade e determinarei que os infelizes sejam contados. Se o teu cálculo estiver certo, receberás uma boa recompensa; mas se a prova for contra ti, serás impiedosamente castigado!

O vaidoso monarca sentira-se melindrado com o gracejo do vizir Dahriman

O velho ulemá, assumindo uma atitude prudente e conciliadora, dirigiu-se respeitoso ao monarca e assim falou:

- Não creio, ó Príncipe dos Crentes! que meu nobre e distinto colega Dahriman tenha tido a intenção leviana de gracejar sobre assunto tão sério. Os atos do governo não podem servir de alvo às facécias dos humoristas. Posso assegurar que o jovem e talentoso vizir Dahriman quis apenas proporcionar uma sábia e profunda lição de moral aos nobres, Xeques e ulemás.

Lição de moral? Pela sagrada face da Caaba!

Se uma caravana de loucos tivesse entrado, com estrondo, no salão real, não teria, certamente, causado maior surpresa ao rei e aos vizires. A declaração do sábio era assombrosa. Os vizires da corte entreolharam-se espantados. Como descobrir ensinamentos morais no estranho sistema do burro bem amarelo?

O respeitável Farid-Ben-Farid depois de rápido momento de madura reflexão, prosseguiu solene:

- Que pretendia o vizir Dahriman ao pôr em prática o seu prodigioso artifício do burro pintado? Combater, sem intenção suspeitosa, o pessimismo de um colega. O pior cego, ó Rei dos Árabes! é aquele que não quer ver. Quase todos os homens sofrem os males terríveis da cegueira. Um e cego para a Justiça; outro é cego para a Bondade; outros, enfim, são cegos para o Trabalho, para a Virtude ou para o Amor.

Assim, foi contada a lenda do “Burro Amarelo”

 

(“Mil Histórias Sem Fim”)

 

continua ("O Tesouro Recuperado")

 

voltar

home