
Aos sábados realizavam os zaddikn interessantes reuniões que eram dedicadas aos comentários dos textos sagrados e ao estudo das tradições israelitas.
Um dia, quando a sala se achava repleta de discípulos e curiosos, o zaddik Isaac Lip tomou da palavra e narrou o seguinte:
Naquele dia Adão chegou ao declinar da tarde. Percebiam-se em seu rosto sinais de fadiga: em seus olhos pesavam a inquietação e o temor. Intrigada com a estranha demora do esposo, Eva o interrogou um tanto maliciosa e um tanto abespinhada: - "Onde estiveste, querido, todo esse tempo? Por que demoraste tanto para chegar?". Com palavras reticentes, meio gaguejantes, desculpou-se Adão com motivos que, para um habitante do Eden, não pareciam dos mais aceitáveis. Eva não insistiu. Aceitou as evasivas fraquíssimas do esposo e deixou-o em paz. Adão, sem mais palavras, deitou-se, de bruços, sobre o tapete macio da relva e dormiu pesadamente Eva, sentada a seu lado e nada conformada com a indiferença do companheiro, pôs-se a contar, em voz alta, numa obstinação maníaca: Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove...
Nesse ponto o velho zaddik fez ligeira pausa e interrogou em tom malicioso os ouvintes:
- Surge agora, meus amigos, grave problema. Que estava a Mãe Eva contando, naquela tarde, enquanto Pai Adão dormia pesadamente sobre o chão aveludado do Paraíso?
Permaneceram todos em silencio. O enigma parecia desafiar a imaginação dos mais cultos e brilhantes talmudistas.
O orador insistiu, com um sorriso matreiro, sem mudar de tom:
- Vamos – insistiu, - que estava a Mãe Eva contando?
E como os zaddikn continuassem calados, o mestre do "hassidismo" explicou:
- A nossa Mãe Eva contava, sem errar, as costelas de Pai Adão a fim de apurar se faltava mais alguma.
(*) Anedota calcada numa passagem "hassídica". – Cf. Lewis Browne, ob. cit., pág. 492, no capítulo: "Doutrina e histórias hassídicas".
("Lendas do Povo de Deus")