
DIVIDIR PARA DESPISTAR - A HORA DO CONCURSO SENSACIONAL - MAZARÃO, ENFRENTA O PRÍNCIPE ATÍLIO - A ABÓBORA FANTÁSTICA - HABILIDADES DO PROFESSOR NIZIR – A GERAÇÃO DO REI BRENAN – CONVIDADOS OFICIAIS
Sabemos que o singular talismã fora, pelo ancião da floresta, entregue ao naturalista Zulik Oberan (lembram-se desse nome?). O naturalista ao chegar a Brenan sentiu-se em perigo e ocultou a vela no fundo de uma igreja deserta. Mas foi depois raptado e levado para uma ilha deserta.
Os fanáticos amigos do Indiano queriam apoderar-se do extraordinário amuleto. E para chegar ao objetivo eles não escolhiam os meios.
Deixamos o professor Nizir, o príncipe Ronelito e seus dois companheiros, o pescador e o naturalista a caminho de Brenan.
Vejamos o que ocorreu.
Logo que os viajantes avistaram a capital brenanense o professor Nizir (sempre prudente) assim falou:
É um perigo entrarmos juntos na cidade. As ruas devem estar repletas e o nosso grupo (sujos e famintos como estamos) despertará suspeitas.
Tem toda razão - concordou o naturalista. - Seria imprudência de nossa parte.
- Imprudência só, não — acudiu o professor Nizir. - Seria imperdoável temeridade. E nossa situação exige que procedamos com muita cautela. Estou certo que de nós, unicamente de nós, vai depender a sorte do príncipe Atílio. Vamos, pois, dispersar o nosso grupo. O pescador Roque será o primeiro a entrar na cidade; eu e o príncipe Ronelito entraremos algum tempo depois. O nosso amigo Zulik só deverá atravessar as ruas de Brenan quando tiver sido iniciado o concurso.
- Mas eu devia ir na frente, a fim de apanhar o talismã - objetou o naturalista. - Só eu sei onde ele se encontra enterrado! Sem esse talismã o príncipe Atílio estará irremediavelmente perdido.
- Sim, está certo - concordou o professor Nizir. - Mas logo que for iniciado o concurso correrão todos para assisti-lo, e, nessa ocasião, poderás agir com toda calma. Antes disso qualquer tentativa será cercada de perigos imprevisíveis.
O naturalista aceitou o sábio conselho do professor Nizir.
Entrariam na cidade discretamente a fim de evitar a menor suspeita. O professor Nizir distribuiu entre o pescador e o naturalista uma parte das moedas de ouro que trazia. Com aquele dinheiro eles fariam suas refeições e comprariam armas e trajes novos. Na hora do concurso estariam todos juntos ao lado do príncipe Atílio.
Ia ter início o concurso do noivado. A praça principal da cidade (local destinado à realização do sensacional espetáculo) estava a transbordar de curiosos. Amontoava-se por todos os cantos e recantos imensa multidão de interessados. Os prédios que circundavam a praça apareciam enfeitados com bandeirolas e tapetes multicores. Havia gente até nos telhados. A polícia real, em uniforme de gala, recebera ordem de evitar qualquer distúrbio. E, coisa estranha: reinava impressionante silêncio!
Grande estrado de forma retangular fora erguido no centro da praça. Sobre o estrado, num dos extremos, sentados em poltronas vermelhas de couro, achavam-se os ministros do rei, os generais, o prefeito e os juízes do concurso. Esses juízes, em número de sete, eram mágicos de nomeada. No outro extremo do tal estrado erguiam-se três tronos de ouro e púrpura. Um, para o rei de Brenan (convém não esquecer que o monarca brenanense também conhecia magia), outro, um pouco menor, todo enfeitado de rendas, para a rainha e um terceiro para a princesa Zabely, cujo futuro ia ser decidido. Em ricas almofadas de seda, espalhadas pelo chão, atrás dos tronos, sentavam-se as damas de honra do palácio. No centro do estrado havia espaço livre, destinado aos competidores.
O professor Nizir e seu discípulo, o pequeno Ronelito, premidos no meio do povo, observavam com assombro os preparativos que deveriam preceder o concurso.
Ouviu-se um toque de clarim e a seguir um arauto do rei, vestido de veludo amarelo, anunciou com voz solene e forte:
- Por ordem de Sua Majestade Brenan XXXIV, rei de Brenan, vai ter início o concurso do noivado. Dois são os candidatos inscritos: Mazarão, o indiano, e Atílio, o brenanense. Aquele que se mostrar mais hábil e mais forte na mágica será declarado vencedor e receberá o título de "noivo da princesa Zabely".
Essa proclamação foi lida e relida três vezes. O arauto, antes de falar, fazia soar o clarim.
Ouviu-se, em dado momento, uma espécie de sussurro, que partia da massa popular.
O arauto anunciou com voz aguda e estridente.
- Acaba de chegar a este recinto o indiano Mazarão, o primeiro candidato.
Não pequena foi a surpresa do professor Nizir. O mágico Mazarão era um homem ainda moço, alto, robusto, de rosto moreno escuro; usava um turbante branco enfeitado com gemas preciosas e ostentava na cintura uma faixa de seda, da qual pendia riquíssima espada toda cravejada de rubis. Percebiam-se em seu olhar lampejos ameaçadores.
Decorridos alguns instantes, novo murmúrio ecoou pela praça. O arauto da capa amarela anunciou ao povo a chegada do segundo candidato, o príncipe Atílio.
O pretendente à mão da formosa Zabely era um moço de rosto claro, fisionomia viva e simpática. Vestia-se com elegância, é verdade, mas os seus trajes eram simples e relativamente modestos. Na cabeça trazia um pequeno gorro de veludo azul escuro, com plumas cor-de-rosa.
O professor Nizir, sempre atento, observou que o príncipe parecia gravemente preocupado. Depois de dirigir ao rei, às damas e aos nobres a saudação clássica - "Deus salve Brenan"! - começou a olhar para um lado e para o outro como se estivesse à espera de alguma pessoa que tardava em chegar. Lia-se no rosto do príncipe uma aflição que ele não conseguia ocultar.
E tinha toda razão. O auxílio prometido por seu Mestre, isto é, o talismã precioso, até aquele momento não chegara às suas mãos. Como poderia ele, sem os recursos da Magia, vencer o necromante da Índia?
- Preciso retardar o início desse concurso - refletiu o professor Nizir - É indispensável dar tempo a que o naturalista faça chegar às mãos do príncipe a vela dos três pavios. Só há um recurso. Vou ter à presença do rei e apresentar-me como um embaixador da Arábia.
- Ora, embaixador da Arábia! Que idéia!
E já ia o professor Nizir iniciar a caminhada através da multidão para chegar ao estrado real, quando sentiu que alguém o segurava pelo braço. Voltou-se e deu de rosto com um desconhecido de barba preta. Trazia uma cesta na mão e pela blusa, de pano grosseiro, cheia de nódoas, dava a impressão de ser um ébrio ou um mendigo profissional.
- Que deseja de mim? - perguntou o Professor Nizir encarando com desconfiança o importuno.
O homem de barba preta esboçou um sorriso e retorquiu:
- Quero vender-lhe esta abóbora. Está madurinha e doce como açúcar fino!
E apontava para vastíssima abóbora que repousava no fundo da cesta.
- Deixa-me em paz! - retorquiu o professor Nizir - Não preciso de abóboras!
Mas, ao proferir a recusa, reconheceu (pelo olhar, pelo tom da voz) que o homem da barba preta não era outro senão o naturalista Zulik, disfarçado em vendedor ambulante.
- Vamos, senhor - insistiu o falso mercador - Ajude-me a viver! Compre esta abóbora; é barato!
As pessoas que se achavam próximas sorriam. E ninguém considerava estranho que no meio da multidão, preocupada com a festa, aparecesse um pobre diabo, alheio aos acontecimentos, ocupado em vender abóboras. Presumiam todos que o vendedor das barbas pretas impingindo as suas frutas, pretendia apenas ludibriar aquele estrangeiro, oferecendo, por bom preço, uma mercadoria que bem pouco devia valer. (Em Brenan havia abóboras em abundância).
(continua)