
O Homem que Calculava recebe consultas. Crendices e superstições. Unidades e figuras. O caso das 90 maçãs. A Ciência e a Caridade.
A partir do célebre dia em que estivemos pela primeira vez no divã do califa, a nossa vida sofreu profundas modificações. A fama de Beremiz ganhou um realce excepcional. Na modesta hospedaria em que morávamos os visitantes e conhecidos não perdiam oportunidade de lisonjear-nos com repetida simpatia e respeitosos salãs.
Todos os dias o calculista via-se obrigado a atender a dezenas de consultas. Ora era um cobrador de impostos que precisava conhecer o número de ratls contidos em um abás e a relação entre essas unidades e o cate; aparecia, a seguir, um haquim ansioso por ouvir de Beremiz uma explicação sobre a cura de certas febres por meio de sete nós feitos numa corda; mais de uma vez o calculista foi procurado por cameleiros que pretendiam saber quantas vezes devia um homem saltar uma fogueira para se livrar do Demônio. Apareciam, por vezes, ao cair da noite, soldados turcos, de olhar iracundo, que desejavam aprender meios seguros de ganhar no jogo de dados. Esbarrei muitas vezes com mulheres -- ocultas por espessos véus - que vinham tímidas consultar o matemático sobre os números que deviam escrever no antebraço esquerdo para obter boa sorte, alegria e riqueza!
A todos Beremiz Samir atendia com paciência e bondade. Esclarecia alguns, dava conselhos a outros. Procurava destruir as superstições e crendices dos fracos e ignorantes, mostrando-lhes que nenhuma relação poderá existir, pela vontade de Deus, entre os números e as alegrias, tristezas e angustias do coração.
E procedia dessa forma, guiado por elevado sentimento de altruísmo, sem visar a lucro ou recompensa. Recusava sistematicamente o dinheiro que lhe ofereciam e, quando um Xeque rico, a quem ensinara, insistia em pagar a consulta, Beremiz recebia a bolsa cheia de dinares, agradecia a esmola e mandava distribuir, integral-mente, a quantia entre os pobres do bairro.
Certa vez um mercador, chamado Aziz Nemã, empunhando um papel cheio de números e contas, veio queixar-se de um sócio, a quem tratava de "ladrão miserável", "chacal imundo", e outros epítetos, não menos insultuosos. Beremiz procurou acalmar o ânimo exaltadíssimo do homem e chamá-lo ao caminho da mansidão.
- Acautelai-vos - aconselhou - contra os juízos arrebatados pela paixão porque esta desfigura muitas vezes a verdade. Aquele que olha por um vidro de cor, vê todos os objetos da cor desse vidro; se o vidro é verme-lho, tudo lhe parece rubro; se é amarelo, tudo se lhe apresenta completamente amarelado. A paixão está para nós como a cor do vidro para os olhos. Se alguém nos agrada, tudo lhe louvamos e desculpamos; se, ao contrário, nos aborrece, tudo lhe condenamos ou interpretamos de modo desfavorável.
E a seguir examinou com paciência as contas e descobriu nelas vários enganos que desvirtuavam os resultados. Aziz certificou-se de que havia sido injusto para com o sócio e tão encantado ficou com a maneira inteligente e conciliadora de Beremiz que nos convidou, naquela noite, a um passeio pela cidade.
Fomos levados, pelo nosso delicado companheiro, até o café Bazarique, sito no extremo da Praça de Otmã.
Um famoso contador de histórias, no meio da sala invadida por fumo negro e espesso, prendia a atenção de um grupo numeroso de ouvintes.
Tivemos a sorte de chegar exatamente no momento em que o Xeque El-Medah, tendo terminado a costumada prece inaugural, começava a narrativa. Era um homem de seus cinqüenta anos, quase negro, a barba negríssima, e dois grandes olhos cintilantes; trajava, como quase todos os outros narradores de Bagdá, um amplíssimo pano branco apertado em torno da cabeça por uma corda de pêlo de camelo, que lhe dava a majestade de um sacerdote antigo. Falava com voz alta e vagarosa, ereto no meio do círculo dos ouvintes, acompanhado submissamente por dois tocadores de alaúde e de tambor. Narrava com entusiasmo uma história de amor, intercalada com as vicissitudes da vida de um sultão. Os ouvintes não lhe perdiam uma só palavra. O gesto do Xeque era tão arrebatado, a sua voz tão expressiva, o seu rosto tão eloqüente que às vezes deixava a impressão de viver as aventuras que sua fantasia criava. Falava de uma longa viagem. Imitava o passo lento do cavalo fatigado. Aqui encarnava o beduíno sedento procurando, em torno de si, uma gota d'água; ali deixava pender os braços e a cabeça como um homem prostrado.
Árabes, armênios, egípcios, persas e nômades de Hedjaz, imóveis, sem respirar, refletiam na expressão do rosto todas as palavras do orador. Naquele momento, com a alma toda nos olhos, deixavam ver, claramente, a ingenuidade e a frescura de sentimentos que ocultavam sob a aparência de uma dureza selvagem. O contador de histórias andava para a direita e para a esquerda, parava, retrocedia aterrado, cobria o rosto com as mãos, erguia os braços para o céu e, à medida que se ia afervorando e levantando a voz, os músicos tocavam e batiam com mais fúria.
A narrativa empolgara os beduínos; terminada que foi, os aplausos estrugiram no ar. O mercador Aziz Nemã, que parecia muito popular naquela barulhenta sociedade, adiantou-se para o centro da roda e comunicou ao Xeque, em tom solene e decidido:
- Acha-se presente, ó irmão dos árabes! o célebre Beremiz Samir, o calculista persa, secretário do Vizir Maluf.
Centenas de olhos convergiram para Beremiz, cuja presença era uma honra para os freqüentadores do café.
O contador de histórias, depois de dirigir um respeitoso salã ao Homem Que Calculava, disse com voz clara e timbrada:
- Meus amigos! Tenho contado muitas histórias maravilhosas de gênios, reis e efrites. Em homenagem ao luminoso calculista que acaba de chegar, vou narrar uma história que envolve um problema cuja solução, até agora, não foi descoberta.
- Muito bem! Muito bem! - exclamaram os ouvintes.
O Xeque evocou o nome de Allah (com Ele a oração e a glória!) e, a seguir, contou o seguinte caso:
* * *
- Vivia outrora em Damasco um bom e esforçado camponês que tinha três filhas. Um dia, conversando com o cádi, declarou o camponês que suas filhas eram dotadas de alta inteligência e de raro poder imaginativo.
O cádi, invejoso e implicante, irritou-se ao ouvir o rústico elogiar o talento das jovens e declarou:
- Já é a quinta vez que ouço de tua boca elogios exagerados que exaltam a sabedoria de tuas filhas. Vou apurar se elas são, como afirmas, dotadas de engenho e perspicácia de espírito.
Mandou o cádi chamar as três raparigas e disse-lhes:
- Aqui estão 90 maçãs que vocês deverão vender no mercado. Fátima, que é a mais velha, levará 50. Cunda levará 30 e Siha, a caçula, será encarregada de vender as 10 restantes. Se Fátima vender as maçãs a 7 por um dinar, as outras deverão vender, também, pelo mesmo preço, isto é, a 7 por um dinar; se Fátima fizer a venda das maçãs a três dinares cada uma, será esse o preço pelo qual Cunda e Siha deverão vender as que levam. O negócio deve fazer-se de sorte que as três apurem, com a venda das respectivas maçãs, a mesma quantia.
- Eu não posso desfazer-me de algumas das maçãs que levo? - perguntou Fátima.
- De modo algum - obstou de pronto o cádi. - A condição, repito, é essa: Fátima deve vender 50. Cunda venderá 30 e Siha só poderá vender as 10 que lhe tocaram. E pelo preço que Fátima as vender, pelo mesmo preço deverão as outras negociar as frutas. Façam a venda de modo que apurem, ao afinal, quantias iguais
Aquele problema, assim posto, afigurava-se absurdo e disparatado. Como resolvê-lo? As maçãs, segundo a condição imposta pelo cádi, deviam ser vendidas pelo mesmo preço. Ora, nessas condições, é claro que a venda de 50 maçãs devia produzir quantia muito maior que a venda de 30 ou de 10 apenas.
E, como as moças não atinassem com a forma de resolver o caso, foram consultar, sobre o complicado problema, um imã que morava nas vizinhanças.
O imã, depois de encher várias folhas de números, fórmulas e equações, concluiu:
- Meninas! Esse problema é de uma simplicidade cristalina. Vendam as noventa maçãs, conforme o cádi ordenou, e chegarão, sem erro, ao resultado que ele mesmo determinou.
A indicação dada pelo imã em nada esclarecia o intrincado enigma das 90 maçãs, proposto pelo cádi.
As jovens foram ao mercado e venderam todas as maçãs, isto é, Fátima vendeu 50, Cunda vendeu 30 e Siha encontrou logo comprador para as dez que levara. O preço foi sempre o mesmo para as três moças e, por fim, cada uma delas apurou a mesma quantia. Aqui termina a história. Cabe agora ao nosso calculista explicar como foi resolvido o problema.
* * *
Mal acabara de ouvir o apelo do inteligente narrador, Beremiz encaminhou-se para o centro do círculo formado pelos curiosos ouvintes, e assim falou:
- Não deixa de ser interessante esse problema apresentado sob forma de história. Já tenho visto, muitas vezes, exatamente o contrário; simples histórias mascaradas sob o disfarce de verdadeiros problemas de Lógica ou de Matemática! A solução para o enigma com que o cádi de Damasco quis atormentar as jovens camponesas parece ser a seguinte:
Fátima iniciou a venda fixando o preço de 7 maçãs por um dinar. Vendeu, desse modo, 49 maçãs ficando com uma de resto. Cunda, obrigada a ceder as 30 maçãs por esse mesmo preço, vendeu 28 por 4 dinares ficando com duas de resto. Siha, que dispunha de uma dezena, vendeu sete por um dinar, ficando com 3 de resto.
Temos, assim, na primeira fase do problema: Fátima vendeu 49 e ficou com 1.
Cunda vendeu 28 e ficou com 2.
Siha vendeu 7 e ficou com 3.
A seguir, Fátima resolveu vender a maçã que lhe restava por 3 dinares, Cunda, segundo a condição imposta pelo cádi, vendeu a duas maçãs, que ainda possuía, pelo mesmo preço, isto é, 3 dinares cada uma, obtendo 6 dinares, e Siha vendeu as três maçãs de resto por 9 dinares, isto é, também a lista dinares cada uma:
E, terminado o negócio, como é fácil verificar, cada uma das moças apurou 10 dinares. Eis como foi resolvido o problema do cádi. Queira Allah que os perversos sejam castigados e os bons recompensados.
O Xeque "el-medah", encantado com a solução apresentada por Beremiz, exclamou erguendo o braço:
Pela segunda sombra de Mafoma! Esse jovem calculista é realmente um gênio ! É o primeiro ulemá que descobre, sem fazer contas complicadas, a solução exata e perfeita para o problema do cádi!
A multidão que enchia o café de Otmã, sugestionada pelos elogios do Xeque, vozeou:
- Bravos! Bravos! Allah esclareça o jovem "ulemá"!
É bem possível que muitos dos homens não tivessem entendido a explicação de Beremiz. Não obstante essa pequena restrição, os aplausos foram gerais e vibrantes.
Beremiz, depois de impor silêncio à rumorosa sociedade, disse-lhe com veemência:
- Meus amigos, vejo-me forçado a confessar que não mereço o honroso título de ulemá. Louco é aquele que se considera sábio quando mede a extensão de sua ignorância. Quanto pode valer a ciência dos homens diante da ciência de Deus?
Um barqueiro de bochechas largas que se achava na roda interpelou Beremiz:
- E qual é, ó Calculista, a ciência de Deus?
- A ciência de Deus é a Caridade!
Lembrei-me, nesse momento, da poesia admirável que ouvira, pela voz de Telassim, nos jardins do Xeque Iezid quando os pássaros foram postos em liberdade:
Falasse eu as línguas dos homens
E dos anjos
E não tivesse caridade,
Seria como o metal que soa,
Ou como o sino que tine.
Nada seria! Nada seria!
Por volta da meia-noite, quando deixamos o café Bazarique, vários homens, para testemunhar a consideração que nos dispensavam, vieram oferecer-nos suas pesadas lanternas, pois a noite ia escura e as ruas estavam esburacadas e desertas.