
Nelson Reprezas - Cascais, Portugal
Moçambique é conhecido por ser um país de excessivos fenômenos naturais. Por exemplo, uma trovoada, sobretudo no último terço territorial ao sul, não é uma trovoada tal como normalmente a imaginamos. É uma descarga brutal de energia elétrica, quer através de enormes e ribombantes raios, quer através de longos períodos de continuadas descargas seguidas que podem iluminar a noite durante vários minutos sem interrupção. As chuvas podem ser torrenciais e inundar a parte baixa de Maputo em pouco mais de uma hora, o granizo pode ter a dimensão de tangerinas (não me contaram, eu vi e o meu carro sentiu...), e um dia de sol e mar calmo no período da manhã pode transformar-se numa tarde de ventos de 100 km horários vindos do Sul, provocando vagas de três ou quatro metros. Tudo sem avisar.
É uma terra bruta, violenta e não são raros os fenômenos naturais de conseqüências freqüentemente trágicas para as populações. De tal forma que o governo tinha, pelo menos até há poucos anos, um departamento especial de combate e prevenção às calamidades naturais.
Quando lá vivi, habituei-me a este tipo de ocorrências. Mas um dia saí de casa, meti-me no carro e, a caminho do trabalho, vi as ruas pejadas de gente, sobretudo mulheres e crianças que, com sacos e aventais, apanhavam qualquer coisa dos canais. Intrigado, parei o carro e vi... que era peixe. Sim, peixe. Peixe miúdo, com não mais que um centímetro de comprimento e que virtualmente cobria a rua onde eu passava. As gentes iam apanhando o peixe no meio da maior confusão e risadas de contentamento. Pensando que algum caminhão teria perdido a sua carga e que os populares ali estavam a recolhê-la, segui caminho. Mas reparei que a "inundação de peixe" continuava ao longo de toda a Julius Nyerere. Eram milhares (milhões?) de peixes minúsculos ao longo das bermas e fiquei verdadeiramente surpreendido sobre o que se estaria a passar. Decidi então perguntar a uma mulher o que tinha acontecido...
- Choveu peixe esta noite - respondeu-me ela.
Já vi muitas coisas na vida e sabia que um árbitro português até já tinha visto um porco a andar de bicicleta. Mas... chover peixe? Insisti na pergunta e a resposta veio de mais pessoas. "Choveu peixe". Pronto, pensei, ficamos assim. Tinha chovido peixe e eu segui para o escritório a pensar que tipo de herança teria aquele povo herdado de nós para me dizerem, com a maior naturalidade que tinha "chovido peixe".
Poucas horas depois, a rádio transmitia a notícia de que tinha havido durante a noite uma tromba d'água a cerca de sessenta milhas da costa (cem quilômetros), em resultado da qual toneladas de peixe miúdo teriam sido elevadas pelo remoinho ascendente a muitas centenas de metros e arrastadas pelo vento para as ruas de Maputo.
A maioria daquela gente que eu vira a apanhar peixe não sabia o que seria uma tromba d'água. Tinha "chovido peixe" em Maputo e isso era quanto bastava saber. Havia apenas que levar o peixe para casa...
http://espumadamente.blogspot.com/2005/07/histrias-de-moambique-4-chuva-de-peixe.html