Chegou a hora

 

(São Paulo, 2005)

 

Estou com setenta e três anos bem vividos, nos quais sempre contei com o amor e a proteção de Deus.

Não que eu ache essa idade tanto assim, mas o próprio salmista afirma que "a duração da nossa vida é de setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o melhor deles é canseira e enfado, pois passa rapidamente e nós voamos" (Salmo 90:10).

A primeira barreira eu já venci...

Casei-me, tive três filhos, formei-me em curso superior, acompanhei a morte da minha esposa.

Morei em vários lugares do Brasil, conheço algumas partes fora do Brasil.

Bem, parece que agora chegou a hora.

Resolvi imaginar o que eu diria para meus amigos no momento final ou o que eles diriam para mim, usando algumas vezes palavras ou frases que eles sempre usaram em conversa comigo.

Telefono para o Osmar:

- Alô!

- Osmar, sou eu.

- Olá, Herci (a minha voz é bastante conhecida). O que houve? Geralmente você não liga para cá.

- Ah!, mas desta vez estou ligando. O que você diria à notícia de que estou morrendo?

- Não!... O que foi?

- Estou acometido de um mal incurável que está me fazendo definhar e caminhar para lá... O que queria era me despedir antes que aconteça.

- Ora, mas que coisa! Você tem certeza? O que dizem os especialistas?

- Pois foi exatamente um especialista que me deu a notícia.

- Que pena... O que será dos nossos encontros, dos almoços de confraternização?

- Tudo cancelado. – "Aviso do Herci: Informo que não poderei comparecer ao próximo encontro por motivo de falecimento".

- Não brinque com essas coisas! Adeus, Herci, e até nos encontrarmos lá. Você sabe o quanto eu gosto de você e quanto essa perda vai significar para mim. Mas, enfim...

Aos que posso falar de viva voz eu não telefono. Aos demais, só resta telefonar.

Toco para o Arildo. O telefone está tocando.

- Alô – diz a voz.

- Oi Arildo, sou eu, o Herci.

- Oi, Herci, como vai.

- Nada bem.

- Como? Está doente? Não vá "perecer em combate", hein?

- Mas desta vez a coisa é séria, algo que me toma todo o abdômen, com dores atrozes e com más perspectivas de regredir.

- Não me diga? – Não há tratamentos?

- Todos foram tentados, e nada. Só me resta um adeus.

- Olha, Herci, gostaria de ficar mais tempo conversando com você, mas isso não está fazendo bem para mim. É algo que me constrange e deixa mal. Prefiro me despedir. Adeus.

Sua voz estava realmente embargada. Sinto a sua emoção...

- Adeus Arildo.

Telefono para o Pastor Walter nos Estados Unidos.

Ouço o toque do telefone. Alguém atende.

- Just a moment, please.

Estão falando em inglês. Nada mais natural nos Estados Unidos.

- Hello! – Walter speaking!

- Eh, Pastor, prefiro falar em português. Quem fala aqui é o Herci.

- Ah!, Pastor Herci. Quantas saudades! Como vai? Bem?

- Então, Pastor, é para isso que estou ligando. O Senhor está me chamando para o seu glorioso lar.

- Como assim? Você está doente?

- Muito. Os especialistas me dão, no máximo, sessenta dias de vida.

- Mas como foi isso? Qual é o mal que o aflige?

- Ainda não sei bem. Algo insidioso e maligno, que vai me consumindo dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Só me resta esperar.

- Oh, Pastor, vamos orar por você. Que a benção do Senhor e Seu eternal consolo estejam sobre você, Pastor. Deus o abençoe.

Resolvo ligar para Marília, para um amigo de mais de quarenta anos, o Belisário.

Belisário entrou no Banco mais ou menos na época em que eu entrei. Trabalhamos juntos, ou na mesma seção, ou em seções contíguas e interdependentes.

Nada havia que me fosse necessário que o Belisário não providenciasse. Nem sei se merecia tanto...

Ligo o telefone: DDD 014... etc.

Toca, toca, toca.

Até que enfim alguém atende.

- Alô (reconheço a voz).

- Mariazinha! Tudo bem? É o Herci quem está falando.

- Oi, Herci! Que surpresa!

Posso falar com o Belisário?

- Claro, Herci, deixe-me ver se ele pode atender. Você sabe que ele é diabético e, ultimamente, a coisa ficou mais séria.

Fico apreensivo. Levar notícias de doença a alguém que está doente...

- Oi, Herci. Espere um pouquinho, ele vai atender - diz sua esposa.

- Alô "meu chapa", como vai – é o que ele diz.

- Olá meu caro, estou muito mal. Por isso estou ligando... para me despedir, visto que o mal que me acomete é irreversível.

- Como? Você, com toda a sua saúde!

- Pois é – respondo. – É simplesmente o fim.

- Não é possível! E nem vamos nos ver mais?

- Parece que não. Mas as lembranças que tenho de Marília e especialmente de você, que sempre esteve ao meu lado e me ajudou, são todas muito boas.

- Então, é mesmo o fim?

- É, sim. Adeus.

- Adeus, Herci. Eu não queria que fosse assim, tão rápido, tão... (soluços).

Tento ligar para o Hospital. Embora o mal que me acomete não seja cardíaco, gostaria de falar com o cardiologista que tem me acompanhado há vários anos.

Ligo.

- Incor, bom dia.

- Quero falar com meu cardiologista, Dr. Roberto.

- É urgente?

- Urgentíssimo!

- Vou tentar transferir, aguarde.

Aguardei uns bons minutos.

- Alô, Roberto falando.

- Olá, doutor, é seu cliente Antonio Herci Ferreira.

- Ah, sei. Você tem consulta comigo em janeiro, não é? Mas, o que foi que aconteceu?

- Um outro mal me atingiu, doutor, com desfecho mais rápido que um enfarte. Estou prestes a partir desta para melhor e gostaria de me despedir e agradecer todo o cuidado e desvelo com que eu fui tratado.

- Mas, o que foi?

- Algo no meu abdômen que se espalha. Um câncer. As dores são intensas. Mais uma vez, obrigado.

- Ora, não foi nada. Só sinto que nada possa fazer por você. Vê se aparece, ao menos para eu tomar a sua pressão arterial (risos velados).

- Não brinque, doutor. A coisa é mesmo prá valer. Então, adeus!

Em seguida resolvo ligar para a Miriam.

Deixe-me ver: será que ainda tenho o telefone dela? Sim, e é de São Paulo. O endereço é lá para os lados do cemitério do Tremembé (sem nenhum humor negro!).

Disco e aguardo.

Daí a alguns segundos uma voz de homem atende.

- Alô. - É o Bima, esposo dela. Sempre seco e lacônico.

- Olá, pastor, aqui quem fala é o Herci.

- Olá. - Sem um comentário, sem uma palavra amiga de quem me conhece há mais de quarenta anos, de uma cidade no interior do Estado.

- Posso falar com a Miriam?

- Um momento.

- Alô.

- É a Miriam?

- Sim, e pela voz só pode ser o Herci! Como vai tudo com você?

- Não tão bem. Estou ligando para, digamos, me despedir.

- Como? Vai viajar?

- Só se for para o lar eterno. Estou acometido de um mal que está me consumindo. Todo o abdômen está inflamado e parece que não tenho mais jeito.

- Ah!, Herci, não diga isso.

- É verdade. E estou telefonando para dar-lhe um abraço e um adeus. Até nos vermos na glória!...

- Nem vamos nos rever? Nem relembrar de alguns momentos felizes da mocidade?

- Não, Miriam, não vai dar mesmo. Adeus!...

 

***

Claro, é tudo fruto da minha imaginação. Digamos que é uma figuração mas que, no entanto, bem poderia acontecer.

"Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento" (Eclesiastes 12:1).

 

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