César Lattes

 

Um autêntico gênio brasileiro. Assim era a definição mais comum dada ao físico César Lattes, de 80 anos. Ele faleceu às 15h40 desta terça-feira - 8 de março de 2005 - em virtude de uma parada cardiorespiratória, no Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nascido em Curitiba (PR), no dia 11 de julho de 1924, ele vivia no distrito de Barão Geraldo há mais de três décadas.

O físico, batizado como Cesare Mansueto Giulio Lattes era viúvo há dois anos e deixou quatro filhas. O enterro está marcado para as 16h45 desta quarta-feira, no Cemitério Parque Flamboyant. Lattes marcou seu nome na história da Ciência exatamente no dia 24 de maio de 1947, quando a prestigiada revista científica inglesa Nature anunciava que o pesquisador - filho dos imigrantes italianos Giuseppe e Carolina - havia descoberto e comprovado a existência de uma partícula decisiva na exploração do átomo: a sub-atômica Meson-Pi.

Aquela que significaria o mínimo pedaço de tudo o que costumamos chamar de vida, que parecia ser algo muito distante e incompreensível para o público em geral foi considerado como um grande passo pelos cientistas, que avançaram no estudo da matéria. Por sua descoberta, Lattes poderia ter recebido o Prêmio Nobel aos 24 anos de idade, coisa que inexplicavelmente não se concretizou.

Seus estudos primários foram sendo completados em diversos pontos do Brasil e do mundo, como Curitiba, Porto Alegre, Turim (Itália) e São Paulo. Na Capital, ele optou em fazer o curso de Física na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, o embrião da futura Universidade de São Paulo (USP), aonde foi um precoce professor aos 19 anos. A amizade de Lattes com cientistas como Marcelo Souza Campos reforça o seu interesse pela radiação cósmica.

O caminho para a descoberta da revolucionária Meson-Pi estava sendo criado. Depois de passar pela USP, Lattes fundamenta seus estudos na Universidade de Bristol, na Inglaterra. Sua viagem para a Europa aconteceu no primeiro cargueiro que saiu do Brasil rumo ao velho continente depois da 2ª Guerra Mundial. Foram 40 dias de uma viagem torturante, onde o físico precisava dormir no porão, apenas sobre uma tábua no chão.

Em Bristol, a imagem do desespero, tudo havia sido bombardeado, apenas o laboratório se mantinha de pé. Todo o trabalho era coordenado pelo inglês Cecil Frank Powell, ganhador de um Nobel em 1950. Um dos companheiros de estudos de Lattes era o também físico Giuseppe Occhialini, de origem italiana. As pesquisas em busca do Meson-Pi se aprofundaram depois que chapas fotográficas levadas para os montes Pirineus, na Itália, acenaram que a busca pelas partículas sub-atômicas estava no caminho certo.

Obstinado, Lattes levou o material para a Bolívia, onde se deslocou para montanhas com até 5,6 mil metros de altura para conseguir resultados ainda mais esclarecedores. Acompanhado por uma equipe, Lattes espalhou placas fotográficas especiais de chumbo em locais como Cochabamba, Oruro e La Paz, além da superfície do Lago Titicaca. Tudo com a ajuda fundamental de índios bolivianos, conhecedores dos atalhos de suas matas.

Os resultados foram os esperados: a Meson-Pi era definitivamente uma realidade no mundo científico. O fato, aguardado há tempos, ganhou repercussão internacional. Esta descoberta já havia sido "prevista" pelo japonês Hideki Yukawa na década de 30, que ganhou um Nobel em 1949, mas sem conseguir comprovar na prática suas conclusões. Isto coube ao brasileiro morador de Campinas.

Em 1948, já conhecido como o descobridor da Meson-Pi, Lattes deixa Bristol e parte rumo à Universidade de Berkeley, nos EUA, onde trabalhou com o físico norte-americano Eugene Gardner. Com final de sua bolsa, o brasileiro foi convidado para se unir aos cientistas da prestigiada Harvard, também dos EUA, mas recusou o convite. "Naquele tempo, ninguém ia para lá com a idéia de fazer carreira. A gente pensava em melhorar o Brasil", contou o físico à revista Ciência Hoje, do Rio de Janeiro, em uma ocasião.

Celebridade no mundo da Ciência, Lattes é levado para uma série de conferências por Neils Bohr, um dos pais da energia nuclear, ao redor do mundo. Sobre este personagem existe um fato curioso e misterioso que só o tempo poderá solucionar. Diz a lenda que no Museu Neils Bohr, em Copenhague, na Dinamarca, existe uma carta cujo envelope está escrito: "Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel. Abrir depois de 50 anos da minha morte". Como Bohr morreu em 1962, o mistério só será desvendado em 2012.

Apesar de não ter trazido aquele que seria o primeiro Nobel brasileiro, Lattes foi homenageado muitas vezes pela comunidade científica internacional. Entre outras condecorações que enalteceram a sua capacidade como cientista estão os prêmios da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Academia de Ciências do Terceiro Mundo. Lattes era casado com Martha Lima, com quem teve quatro filhas.

Questionado pela reportagem da revista "Super Interessante" em maio de 1997 sobre o que ele mudaria em sua carreira, o físico foi direto. "Não mudaria nada, fui empurrado pela história e fiz o possível", resumiu o gênio verde e amarelo chamado César Lattes.

 

(Agência Anhangüera)

 

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