Cegos guiando cegos ...

 

 

"...se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova" (Mateus 15:14)

 

Morei muitos anos em Marília, bela cidade do interior paulista. Para lá fui com meus pais em 1939, procedente de Minas Gerais, onde nasci.

Conhecíamos bem toda aquela região – cidades e estradas. Mas, quando falávamos em vir para a Capital, era uma verdadeira lástima: cada vez que tínhamos, eu, minha esposa e filhos que sair em direção a São Paulo – fosse para entrar na cidade ou para "tentar" ir para Santos, Ubatuba ou Itanhaém, era um verdadeiro martírio e ficávamos tensos. Nós nos perdíamos, retornávamos, parávamos para perguntar.

- Hi, moço! Vocês estão completamente fora da rota – era a resposta que sempre ouvíamos.

Aí, então, alguém de boa vontade nos ajudava e ensinava mais ou menos como fazer para alcançar o nosso destino.

Mas não era sem dificuldades que chegávamos, além de que tudo isso demandava horas preciosas.

Lembro-me até de uma vez, num fim de semana em pleno centro de São Paulo que, para vencermos os obstáculos do trânsito e das ruas, pagamos um garoto para entrar no carro e nos guiar.

Ele realmente foi e nos guiou. Mas era até engraçado como ele nos guiava, pelas ruas tortuosas e "redondas" da Capital: "em frente...", ou "reto, à direita...", ou "reto, à esquerda...".

Os meus filhos nunca mais se esqueceram desse episódio.

Hoje, morando em São Paulo há mais de trinta anos, a coisa ficou mais fácil, mas não muito: ainda tenho problemas de orientação quando vou, por exemplo para os lados da Vila Maria...

Mas o meu objetivo mesmo é relatar um fato ocorrido quando, passando pela Capital, pretendíamos chegar ao litoral, lá pelos idos de 1968 ou 1969.

Saímos muito cedo de Marília, para aproveitar o dia – queríamos chegar logo e usufruir o clima de Itanháem e redondezas, da primeira vez que conseguimos uma semana de férias no "Satélite Esporte Clube", associação de funcionários do Banco do Brasil.

Tudo foi muito bem até a entrada na Capital.

Hoje a coisa está bem mais fácil, com a implantação dos corredores de trânsito e as pistas especiais com destino ao litoral.

Pois bem, ao entrarmos em São Paulo, vimos na nossa frente um carro com quatro pessoas dentro, com placa do Interior, indo na direção que "achávamos" ser a certa.

Pretendíamos tomar a Via Anchieta, naquele tempo a única que demandava o Litoral (fora o "Caminho do Mar", é claro). Aonde o tal carro ia, íamos atrás. Se parava, parávamos lá atrás, pois não queríamos que notassem a nossa manobra. Percebemos que trazia no vidro traseiro um adesivo, cujos dizeres não era possível ler do nosso carro.

E a coisa foi... e foi... e foi... – Meu Deus! Que demora e que canseira! Pensamos que logo estaríamos em Itanhaém e que ao menos almoçaríamos tranqüilos. Mas... que nada!

Finalmente o carrinho da frente parou. Parece que também estava perguntando alguma coisa a um cidadão. Aproximamo-nos dele, paramos atrás e – agora sim – deu para ler o que estava escrito no adesivo. Era uma frase em tom ao mesmo tempo divertido e perverso, que dizia: "NÃO ME SIGA. EU TAMBÉM ESTOU PERDIDO!".

Ai, Senhor dos Exércitos! Quase desistimos...

Percebemos, entretanto, que o motorista do carro recebia alguma orientação sobre o itinerário e, logo depois, desceu do carro e foi em nossa direção.

E agora? O que teria acontecido? O que ele pretendia fazer?

Simplesmente chegou-se a mim, pela janela esquerda e disse:

- Vocês estão atrás de nós? Estão perdidos também?

- Sim, estamos tentando sair desta confusão e tomar o rumo de Itanhaém.

- Muito bem. É o que pretendemos fazer também. Vamos para Santos. Isso quer dizer que o nosso caminho é o mesmo até certo ponto. Agora, com as informações que obtive, creio que a coisa já está praticamente resolvida. Agora, sim, podem vir atrás de nós.

Agradecemos e fomos seguindo aquele carro como dizíamos no Interior: feito burro de tropa, seguindo o guia.

Chegamos finalmente.

Ficou-nos uma grande lição, já aprendida anteriormente nos bancos de nossa Igreja. É importante saber a quem seguir. Aquele que pretende não errar o caminho – agora falando de coisas espirituais - precisa seguir Alguém que o conheça.

Não se esqueça: "...se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova" (Mateus 15:14).

 

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