Caso de pescador

 

Um Caso de Pescador

 

Caniço pendendo das mãos, chapelão caído sobre os olhos, um interminável ressonar que impressiona a cada um dos freqüentadores daquele maravilhoso ponto de pesca, numa pequena cidade, no estado da Bahia, às margens do Rio São Francisco.

Só seu companheiro constante – seu filho – entende bem porque ele, religiosamente, a cada dois meses, faz questão de juntar suas tralhas e bagagens, fazer aquela longa viagem para, depois, ficar ali cochilando, sem apanhar um único peixe sequer.

Alvo de muitos comentários e chacotas, ele finge não ter conhecimento desses fatos e retorna à sua cidade tranqüilo e feliz, como se tivesse, durante o final de semana, lutado com os grandes dourados, pintados e tantas outras espécies que, naquelas águas, ainda insistem em crescer, até o ponto de merecerem o adjetivo de "gigantescos", tão constante nas publicações especializadas.

Um dia, encontrando o filho do amigo, o companheiro de pesca resolve matar a curiosidade de tantos anos... "Afinal, que prazer tem seu pai de viajar tantos quilômetros apenas para dormir, às margens do Velho Chico?". Espera que o jovem demonstre surpresa, por imaginar que o pai fosse um valente e exímio pescador, conhecedor de todos os segredos dos embates vitoriosos contra espécimes vorazes e predadores, mas, novamente, surpreende-se ante a resposta do rapaz: "Ele dorme na beira do rio? Que maravilha!".

A explicação vem logo em seguida: rico empresário e sócio majoritário de uma importante ‘holding’, ele vive às voltas com relatórios de produção, prospecção, planejamento, comercialização, exportação, importação, reuniões de acionistas, reivindicações do sindicato dos trabalhadores, taxas, impostos, empréstimos internacionais e mais isto e mais aquilo. Vive extremamente tenso, irritado, estressado... à noite, para dormir, necessita de fortes calmantes que, muitas vezes, não fazem efeito.

A cada dois meses, porém, no início da última semana do mês, às atividades costumeiras acrescenta telefonemas ao companheiro, a encomenda de novas iscas artificiais e naturais, um ou outro novo equipamento para sua imensa tralha de pesca, a reserva na mesma pousada na pequena cidade do interior do estado da Bahia. Na sexta à noite, com excesso de bagagem, ambos partem para aquele local maravilhoso, de flora e fauna impressionantes... ali, enquanto o amigo se esbalda em batalhas memoráveis com espécimes incríveis, que são fotografados e devolvidos à água, ele, simplesmente dorme...

"Mas, quando o papai retorna, está irreconhecível!", comenta o jovem. “Vem supercarinhoso, atencioso, traz flores para mamãe e passa horas conosco, contando suas aventuras às margens do Velho Chico. Essa serenidade dura, geralmente, duas semanas, quando, então, tudo volta à rotina. Tensão, irritação, insônia e tudo o mais”.

Foi assim que o companheiro de pescaria que, há anos, via o amigo dormir à margem do rio, entendeu que a natureza nos dá exatamente o que necessitamos e não mais que isso. A ele, grandes e maravilhosas pescarias, inesquecíveis pôr-do-sol, adrenalina pura e descoberta sobre descoberta a respeito dos hábitos dos peixes e outros fatores que garantem, cada vez mais, o sucesso das fisgadas. Ao amigo, um repouso recuperador, que ele jamais encontrará em outro lugar.

Assim continuam, ano após ano, tirando o melhor proveito, cada um a sua maneira, daquilo que a Natureza tem para lhes dar. Felizes de nós se aprendermos a fazer o mesmo: ir em busca do melhor e, para tanto, também dar a ela o melhor de nós.

 

 

 

 

 

 

 

(A pesca)

 

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