
Omalisã, no fundo do subterrâneo, conta as peripécias de um casamento malogrado - A noiva desmaiou ao saber que seu noivo era ministro - Omalisã surpreende o egípcio com uma extraordinária declaração - Despeito e ciúme
EXATAMENTE como havíamos suspeitado, o cádi Abul Saroka, que não passa de um vil bajulador, fizera chegar ao conhecimento do vizir Sayeg o plano do casamento de Nedjma. Informado de tudo, o vizir preparou-se para intervir e obstar a que a filha do Xeque Kamil viesse a casar-se, embora por simples formalidade, com um estrangeiro.
Acompanhado de poderosa escolta, chegou o vizir ao palácio, precisamente no momento em que o dervixe, com suas artimanhas, conseguia retardar a cerimônia.
Ao ver aquela jovem - que outra não era senão a escrava Rithia vestida com os ricos e deslumbrantes trajes de Nedjma, - o vizir, iludido pelas aparências, puxou-a para junto de si. Não se interessou pelo noivo mercenário e permitiu, é claro, a fuga da verdadeira Nedjma pela portinhola secreta que abria para o subterrâneo.
Sem atender aos protestos do velho Xeque, o maldoso e violento Sayeg ordenou ao cádi que realizasse, imediatamente, o seu casamento com a sua prisioneira, a qual, para ele, seria a sedutora Nedjma. Declarou que oferecia, desde logo, como dote, dois mil dinares de ouro e cinqüenta camelos de sela.
Não esperou o digno Saroka pela repetição da ordem.
Pronunciou, com a maior solenidade, a prece, leu as palavras do ritual e exarou, por fim, a fórmula definitiva do matrimônio.
Nesse momento, Rithia, que trazia o rosto inteiramente velado, ao saber-se rica e esposa legítima de um ministro do rei, desmaiou. Resultou desse acidente um escândalo espantoso. Certificou-se, nessa ocasião, o vizir, atrozmente ferido em sua vaidade, do ludíbrio de que fora vítima, ludíbrio que culminaria no ridículo atroz de seu casamento com uma escrava. Entrou a gritar e a blasfemar como um possesso, ameaçando arrasar a casa, prender as testemunhas e degolar todos os escravos, caso não fosse descoberto o paradeiro de Nedjma.
A mãe, assustada com essas terríveis ameaças e crente de que a filha deveria ter fugido para o subterrâneo, desceu a procurá-la aqui. Era preciso que ela reaparecesse, pois, do contrário, o vizir seria capaz de praticar as maiores violências. Nedjma viu-se forçada a ceder aos rogos de sua mãe. Estão, agora, fechadas no harém, aguardando a fixação de nova data para os verdadeiros esponsais. Enquanto isto, o vizir vai divorciar-se de Rithia, a quem dará o dote prometido.
E Omalisã acrescentou, entreabrindo os lábios, num sorriso significativo:
- O pior é que o palácio está inteiramente cercado e dez guardas, secundados por cinco servos, estão rebuscando todos os recantos à tua procura.
- Uahyat en-nébi - pela vida do Profeta! - Que pretende o vizir de mim? - perguntei.
- Enforcá-lo, ó Egípcio! - respondeu Omalisã muito séria. - Apenas isto: enforcá-lo!
Aquela nova aterrou-me.
Não me seria possível sair daquele subterrâneo sem cair nas garras do vizir.
A minha situação era, portanto, mais grave do que nunca.
- E julgas, Omalisã - inquiri, encarando-a com inquietação - que existe ainda solução para o meu caso?
- Decerto que existe - confirmou a linda menina com os olhos fixos em meus olhos.
E repetiu, como um eco:
- Decerto que existe.
E depois de pequena pausa:
- É muito simples - disse com grande meiguice, - e não me parece difícil nem desagradável!
E pronunciando tais palavras, Omalisã tomou-me delicadamente pela mão, puxou-me para junto dela e obrigou-me a sentar a seu lado, no tapete.
Em seus olhos brilhava um fulgor estranho.
- Por Deus, ó Egípcio! - começou. - A salvação de tua vida só depende agora de ti mesmo. Visto que não chegou a realizar-se o teu casamento com Nedjma, quero crer na inexistência de compromisso entre ti e a filha do Xeque Kamil. Não passavas, ao chegares a este palácio, de um noivo mercenário, alugado por um punhado de ouro, no pátio de uma mesquita. Não obstante, estou disposta a sacrificar-me em teu benefício. Meu pai, o Xeque Abder Ali Madyan é rico, poderoso, e tem grande prestígio, pois conta com a amizade do califa, nosso amo e senhor! Para que possas escapar com vida só vejo uma solução: casarás comigo!
E como eu ficasse estarrecido pela surpresa, ela prosseguiu:
- Sairás desta casa sob minha proteção. O vizir nada poderá fazer contra ti. Meu pai, avisado de tudo, providenciará para que se realize, o mais depressa possível, o nosso casamento. Iremos viver em Basra, onde possuímos grandes propriedades!
E apontando para a bolsa que eu trazia presa à cinta:
- Joga fora essa bolsa! O ouro que ela contém há de queimar-te as mãos.
Com tais palavras levantou-se e encarou-me com seus olhos tranqüilos e límpidos como os raios da lua.
- Escuta, formosa Omalisã, ramo de pérola - disse-lhe serenamente, - a tua proposta avulta aos meus olhos como o íris de um delicioso encantamento! Feliz o mortal que receber por esposa uma jovem graciosa e inteligente como tu! Em qualquer outro momento de minha vida, não hesitaria, um instante, em aceitar a tua proposta e atirar-me aos teus braços sedutores, ó deslumbrante criatura! Agora, porém, diante da situação em que me encontro, concordar com tua sugestão seria trair Nedjma. E como queres que eu pratique tão negra traição?
- Traição! - repetiu Omalisã com infinita maviosidade. - Não existe (que eu saiba) juramento nem compromisso algum de tua parte. Hamdullah! O teu casamento com Nedjma nada mais foi que uma farsa ridícula. Onde estás vendo, ó Egípcio, a sombra da traição?
Repliquei com grande força de ânimo, que a mim mesmo surpreendia.
- Nedjma confiou em mim. Salvou-me do vizir. Conduziu-me a este subterrâneo. Daqui, portanto, só sairei para salvá-la e, nunca para traí-la!
- Insensato que és! - retornou com voz repassada de longos suspiros, envolvendo-me o pescoço com o seu braço esguio e desnudo. - Cego ou insensato! Pela glória de Deus! Não compreendes ainda, ó Egípcio! que estou loucamente apaixonada por ti?
Fitei-a longamente, com um misto de assombro e incredulidade. Sua fisionomia se ensombrou numa contração de mágoa. O seu rosto, agora mais alvo que o alabastro, estava tão perto de mim que eu senti, no ombro esquerdo, o leve roçar de sua corrente de ouro.
Afastei-a de mim, delicadamente, e disse-lhe:
- Por Allah, ó deliciosa Omalisã! Sei que és amiga de Nedjma! (Eu falava e as minhas palavras eram repassadas de amargor.) Estarás tu, diante de mim, tentando trair a tua boa amiga? Não contes com a minha cumplicidade, em tão denegrido proceder. Permanecerei fiel a Nedjma e por ela sacrificarei a minha própria vida.
E para dissuadi-la, de uma vez para sempre, levantei-me, e encaminhei-me para o outro extremo da caverna, onde se achava a caixa de madrepérola. Tirei de dentro dela o exemplar do Alcorão e entreguei-o nas mãos de Omalisã.
Na capa do Livro de Allah, como já sabeis, havia escrito com a ponta da espada: "Nedjma..."
Sem embargo de sua desatinada paixão, compreendeu Omalisã que um juramento muito grave acorrentara o meu destino ao de Nedjma. Apoderou-se dela uma exaltação sem limites. As suas feições se deformaram num ricto de rancor.
Soltou um frouxo riso nervoso, levantou-se, de golpe, e bradou enviperada, pálida e convulsa:
- Fica, pois, estúpido cameleiro, com a tua noiva impossível! Aqui não voltarei mais!
E sem que eu pudesse fazer o menor gesto para impedir-lhe os passos, atirou-se para a porta, abriu-a com impetuosa energia e saiu para a galeria. A porta rodou nos pesados gonzos e eu me vi de novo só, abandonado, amaldiçoado talvez.
"Agora, sim! pensei. - Agora estou irremediavelmente perdido! Esta ciumenta vai denunciar-me ao vizir Sayeg".
Seja tudo pela vontade de Allah!
Acendi a segunda lâmpada, pois que a primeira, já bruxoleante, se extinguia lentamente.
(“Aventuras do Rei Baribê”)
continua ("Os corredores da morte")