O casamento secreto

 

Nedjma, a filha do Xeque faz uma narrativa surpreendente - A troca das noivas - Nedjma abandona o Egípcio para ir em socorro do pai

 

Ontem ao anoitecer meu pai chamou-me e disse:

- Grave perigo ameaça o teu Destino, minha filha! O vizir Sayeg está apaixonado por ti e receio que amanhã, antes de ir para a audiência, venha pedir-te em casamento.

Aquela notícia, espantosamente inesperada e ingrata, fez descer sobre mim o espesso véu do horror. Conhecia o vizir Sayeg. Vira-o várias vezes passar pela rua em companhia de seus servos e ajudantes. É um tipo feio, quase ignóbil, e de uma perversidade incrível. Preferiria morrer de sede no deserto a ser esposa daquele chacal.

Só vejo, querida Nedjma - prosseguiu meu pai - um recurso para o teu caso. Nesse sentido já conversei longamente com tua mãe. Terás que casar dentro de poucas horas com um estrangeiro qualquer. Uma lei recente de nosso glorioso Califa (com ele a proteção de Allah!) proíbe que um vizir se case com mulher que já tiver sido esposa de um estrangeiro. O teu casamento (que vamos preparar ainda para esta noite) não irá além de uma simples formalidade. Dentro de poucos meses anularei esse matrimônio convencional, e livre, assim, do perigoso vizir, poderás tomar estado conforme a tua escolha. Prepara-te, então, minha filha, para os teus esponsais, que eu e teu irmão Nasif iremos, depois da última prece, procurar pelas ruas de Bagdá um estrangeiro sério, de confiança, que se disponha, mediante generosa retribuição, a fazer o papel de marido num casamento fictício! Já solicitei com urgência a presença do cádi Abul Soraka (que presidirá o ato nupcial) e três amigos nossos virão dentro de poucas horas servir de testemunhas.

- Escuto e obedeço, meu pai - respondi. - Queira Allah que tudo corra bem!

Retornei aos meus aposentos e, a conselho de minha mãe, mandei chamar as minhas amigas prediletas Omalisã e Oadia.

- Grande novidade - disse-lhes. - Vou-me casar esta noite!

Oadia não acreditou:

- Casar! - mas onde está teu noivo? Jamais ouvi dizer que houvesse uma pessoa combinando o teu casamento.

Contei-lhe tudo:

- Meu pai e meu irmão Nasif saíram com grandes lanternas pelas ruas de Bagdá, em busca de um noivo!

- O teu casamento, Nedjma - afirmou Omalisã - será um dos mais originais que tenho visto. Quem não se divertiria em observar a atitude desse noivo mercenário que não chegará a ser marido?

Decorridas duas ou três horas fomos informadas de que o cádi havia comparecido. Trouxera consigo um dervixe cuja figura era inquietante. Pouco antes, os servos já tinham conduzido para a grande sala os três amigos, que concordaram em testemunhar aquela farsa nupcial.

Estava eu auxiliada por duas escravas, vestindo o meu traje de noiva, quando vi minha mãe surgir com a fisionomia pálida e transtornada.

- Que ocorreu? - perguntei-lhe.

- Ah! minha filha! Allah se compadeça de nós! Receio que esse infame cádi esteja traindo teu pai. Keira, escrava de confiança, ouvia casualmente uma conversa entre ele e o dervixe imundo que o acompanha. Parece-me que a intenção dele é retardar o teu casamento, a fim de dar tempo a uma intervenção do vizir Sayeg.

Omalisã, que se achava a meu lado, acudiu:

- Tenho uma idéia que inutilizará, por completo, a traça miserável do cádi. Nedjma irá para a sala disfarçada, isto é, vestida como se fosse uma simples escrava e a sua escrava predileta (a Rithia) irá vestida com os trajes de noiva. Se o casamento for perturbado, Nedjma fugirá pela porta secreta para o subterrâneo e lá ficará oculta. Rithia (a suposta noiva) ficará para atender ao apaixonado vizir Sayeg.

- E o noivo? - indaguei.

- O noivo mercenário - retorquiu Omalisã - ficará  na sala. O ciumento Sayeg saberá tomar logo conta dele.

O plano esboçado por Omalisã foi aceito. Preparamos tudo, sem desatadas fantasias, com o máximo cuidado, de modo que fossem atendidas todas as minúcias.

Já muito avançada ia a noite quando surgiu a notícia de que meu pai havia chegado com o "noivo" alugado.

- Como é ele? - indaguei com redobrada curiosidade a meu irmão.

Informou-me Nasif que se tratava de um jovem egípcio pertencente a uma rica família do Cairo, casualmente perdido em Bagdá. A hora em que, sob os trajes de uma simples escrava, fui conduzida à sala, sentia-me bastante apreensiva. E se o nosso estratagema fosse descoberto? Estaria tudo perdido. Meu pai era a única pessoa da família que ignorava a nossa trama. Não tínhamos tido tempo de avisá-lo.

Ao ver o noivo que a sorte me havia destinado (devo confessar) achei-o distinto. O seu olhar era leal e bondoso. Disse de mim para mim: "Está aí um jovem que eu aceitaria de bom-grado para esposo." E pensei: “Se o casamento for perturbado pela presença do vizir, fugirei com esse estrangeiro para a sala do subterrâneo”.

Quando o cádi, com o fito de retardar o juramento, chamou o dervixe - aquele mago asqueroso - para ler a sorte do noivo, eu compreendi que o traidor já havia mandado uma denúncia ao vizir. Era certo, portanto, que o vizir Sayeg com seus guardas não tardaria a aparecer por ali.

Coloquei-me, pois, de lado e, quando estalou a confusão, enquanto o vizir Sayeg fazia reter a falsa noiva, eu fugia em companhia do verdadeiro noivo, pela porta secreta.

Oadia e Omalisã aqui já se achavam à minha espera.

Terminada a narrativa, a sedutora Nedjma, filha do Xeque, disse-me (e a sua voz era mais branda que a sombra de uma asa):

- E agora, ó Egípcio, vais ouvir o plano admirável que pretendemos executar com a tua cumplicidade! Da sua boa execução dependerá, talvez, a tua sorte, ou melhor, a nossa sorte!

- Qual o plano? - indaguei.

Apurava-me o desejo de conhecer o plano a que ela se referia com tanta insistência.

Já Nedjma revelava a engenhosa trama que havia arquitetado, quando ouvimos na porta surdas pancadas. Assustaram-se as três jovens.

A porta a que me refiro, e na qual batiam, já com extrema violência, era a única do aposento. Abria para duas galerias. Uma conduzia ao corredor que ia terminar na escada (tal escada por que eu havia descido nas trevas), e a outra, mais extensa, ia ter, depois de vários desvios e passagens secretas, a um dos pátios internos do palácio. Por essa galeria é que as duas amigas de Nedjma haviam chegado (pouco antes de nós) ao subterrâneo.

- Quem será? - indagava Omalisã, muito pálida, arregalando os olhos. – Que dirão meus pais e meus irmãos quando souberem que este jovem egípcio me viu o rosto descoberto?

- Ora, querida - replicou Nedjma, procurando acalmar-se e acalmar a amiga. - Não te aflijas. Só minha mãe sabe que estamos aqui. É ela com certeza que nos vem prevenir de algumas coisas.

E com essas considerações, que me pareceram assaz razoáveis, ergueu-se Nedjma e encaminhou-se com decisão para a porta de ferro. Puxou um trinco para cima, outro para a esquerda. Abriu-se a porta.

Travou-se logo vivo diálogo entre Nedjma e a pessoa que chegara e que permanecia oculta na sombra do corredor.

Não compreendi bem do que se tratava. Pareceu-me vagamente ouvir: “egípcio”, "vizir", "teu pai", "dervixe". A mulher que estava de fora (já que a voz era acentuadamente feminina) parecia tomada de estranha aflição.

Nedjma, com meias palavras, procurava acalmá-la.

- Não há perigo. Ele não fará isso.

A outra, convulsiva, disse qualquer coisa que levou Nedjma a exclamar aflita:

- "Mach'Allah!” Mas isso é incrível!

E voltando-se para as duas amigas ordenou, com um brilho estranho nos olhos cor do mar:

- Temos que sair daqui, imediatamente. Meu pai está em perigo!

E fitando-me com inquietante súplica:

- Ficarás aqui, Egípcio! Logo que tudo estiver resolvido, voltarei para te buscar!

Saíram. A porta de ferro foi cuidadosamente fechada. Fiquei, como um prisioneiro, abandonado no fundo daquele subterrâneo.

 

(“Aventuras do Rei Baribê”)

 

continua ("Amor eterno")

 

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