
Um jovem recusa uma caravana com preciosas mercadorias. Um rajá intervém.
Das Mil Histórias Sem Fim... é esta a vigésima terceira!
Em Bagdá vivia outrora um jovem muçulmano chamado Ibraim IbnTabir, que passava os dias descuidado em festas e banquetes a gastar, sem pensar no futuro, a prodigiosa herança que lhe deixara o pai.
Cedo viu-se o nosso herói reduzido a penúria extrema. No dia em que fora obrigado a separar-se de seu derradeiro dinar, proveniente da venda do último escravo, ocorreu-lhe apelar para o auxílio dos alegres companheiros que haviam compartilhado de sua mesa e de seu ouro, quando aquela era farta e este abundante. Não houve, porém, um só que se compadecesse da situação aflitiva do desajuizado mancebo.
Compreendendo que nada poderia obter de seus falsos e ingratos amigos, e resolvido a enfrentar corajosamente as vicissitudes da pobreza, regressava Ibraim à casa quando, ao chegar à rua em que morava, notou um movimento anormal. Vencendo a custo a massa de curiosos, deparou ele uma grande caravana que parecia vir de longe, com seus guias condutores e cameleiros!
O chamir - chefe da caravana - dirigiu-se ao jovem e disse-lhe:
- Acabo de ser informado de que sois Ibraim, filho do rico Tabir Messoudi. É vossa, portanto, esta caravana que acabo de trazer de Bássora, através do deserto.
Convencido de que o chamir estava enganado, Ibraim, que era honesto e incapaz de apoderar-se de qualquer coisa que não lhe pertencesse, respondeu:
- Estás enganado, ó amigo! Esta caravana não me pertence! Houve, com certeza, algum equívoco na indicação de quem ta confiou, para que a leves a seu destino.
- Recusas, então, ó jovem? - indagou o chamir. - Recusas esta caravana tão rica, que vem carregada de preciosas mercadorias?
- Recuso! - replicou com segurança Ibraim.
Essa resposta do jovem causou aos homens da caravana uma impressão indescritível. Gritaram todos alegremente. "Allah! Alá Kerim!" Alguns arrancaram os turbantes e rasgavam as vestes entre risos estrepitosos; o próprio chamir chegou a rolar pelo chão, a rir como um faquir demente.
Ibraim, surpreendido por tão inesperada manifestação de regozijo, agarrou o caravaneiro-chefe pelo braço e gritou-lhe, enérgico:
- Que significam essas risadas e chacotas? Por que ficaram todos tão contentes com a minha recusa? Exijo que me expliquem o mistério desse caso!
Diante de tal intimação, o chamir resolveu esclarecer o sucesso:
***
Deveis saber, ó jovem tão bem dotado, que o vosso pai tinha em Bássora um sócio riquíssimo chamado Ahmed Bakhari que possuía, além de muitas terras e rebanhos, palácios, camelos, escravos e jóias de grande valor.
Sentindo-se, um dia, gravemente enfermo e certo de que o Anjo da Morte não tardaria a vir arrebatá-lo deste mundo, o generoso Bakhari chamou-me para junto de seu leito (pois era o seu empregado de maior confiança) e disse-me:
- Dentro de poucos dias deverei comparecer perante Allah, o Altíssimo. Não quero, entretanto, deixar este mundo sem pagar as dívidas que contraí. Logo que eu morrer, levarás em meu nome a Bagdá uma caravana de 30 camelos carregados de estofos, tapetes e jóias. Essa caravana deverá ser entregue ao meu velho amigo e sócio Tabir Messoudi, em pagamento de uma quantia que há tempos me emprestou. Sei que Messoudi é riquíssimo e de um espírito de generosidade sem igual. É bem provável, portanto, que ele não queira aceitar (como aliás, já tem feito) o pagamento do dinheiro que lhe devo. No caso de ser recusada, a caravana deverá ser repartida equitativamente entre os homens que a conduzirem.
Jurei, pele Livro Sagrado, que obedeceria cegamente às instruções de meu amo e no dia seguinte ao seu enterro, despedi-me de suas quatro viúvas, e pus-me a caminho para esta cidade.
Logo que aqui chegamos, soubemos que o velho Tabir Messoudi já havia falecido, tendo deixado um filho único chamado Ibraim. Esse jovem - acrescentaram ainda os nossos informantes - está reduzido à maior pobreza, por ter esbanjado em mil festins os bens superabundantes que lhe deixara o pai.
Fiz sentir aos meus honestos caravaneiros de jornada que nada poderíamos esperar, a não ser uma modesta paga dos nossos trabalhos, pois era bem certo que um rapaz pobre não iria recusar uma caravana tão valiosa.
Depois de pequena pausa, o velho chamir continuou:
- Eis aí explicado o motivo único da grande alegria, que se apoderou dos cameleiros quando ouviram de vossos lábios a recusa formal em aceitar a bela caravana que trouxemos de Basra. A vossa inesperada recusa foi ouvida por várias testemunhas, inclusive pelo representante do nosso cádi, que vai proceder, neste mesmo instante, à partilha da caravana! Mesmo depois de pago o cádi, esta caravana é suficiente para enriquecer a todos nós!
Nesse momento, o secretário do cádi aproximou-se de Ibraim e disse-lhe:
- É tarde para arrependimentos, meu filho! Ouvi perfeitamente a tua declaração. Segundo a ordem do rico Bakhari, a caravana que recusaste vai ser repartida pelos dedicados caravaneiros que a trouxeram de Basra até aqui!
- Tive a riqueza nas mãos e perdi-a! - exclamou Ibraim, cheio de mágoa - Maktub! Estava escrito! Louvado seja Allah que duas vezes me fez mais pobre do que um escravo!
Mal havia o jovem pronunciado tais palavras sentiu que lhe tocavam no ombro.
Voltou-se rápido e viu diante dele um homem alto, de cor bronzeada, ricamente trajado, que ostentava na cintura um longo punhal indiano e na cabeça um turbante de seda amarela, onde cintilava um grande brilhante azulado.
- Jovem - começou o desconhecido pondo carinhosamente a mão sobre o ombro de Ibraim, - acabo de observar com a maior admiração, a tua maneira digna e honesta de proceder. Recusaste uma caravana inteira, carregada de ricos objetos, porque estavas convencido de que ela não te pertencia, e como bom muçulmano aceitaste sem revolta os decretos do Onipotente.
E como o jovem Ibraim fitasse nele os olhos, cheio de espanto, o estrangeiro continuou:
- Chamo-me Walaemg Mahadeva, e sou rajá da província de Mahabalipur, na Índia! Queres, ó jovem, recuperar não só essa caravana perdida como outras muitas que valem mil vezes mais? Escuta, então, a extraordinária história intitulada "A Bolsa Encantada" que vou contar. Verás como pode ocorrer com um pobre homem um caso milagroso que o pode tornar, de um momento para outro, mais rico do que um emir.
E o raja contou ao jovem a história que se vai ouvir:
(“Mil Histórias Sem Fim”)
continua (A bolsa encantada)