
A generosidade do sultão Harun-al-Raschid - dizia El-Moallin, um antigo poeta árabe - podia ser comparada ao rio Diala quando desce tumultuoso das serras de Kermanshak.
O leitor naturalmente não conhece o rio Diala e ignora, portanto, a singularidade que apresenta em seu curso esse famoso tributário do Tigre.
Assim não poderá, infelizmente, apreciar a bela comparação de que nos valemos, uma das mais felizes do apreciado poeta abássida.
Deixemos porém o impetuoso Diala correr em seu leito vermelho, cheio de pedras arredondadas, e narremos um singular episódio ocorrido em Bagdá, quando se achava no trono do Islã o mais generoso dos príncipes do Oriente.
O poderoso sultão Harum-Al-Raschid (Allah o tenha em sua glória!), sempre que regressava das suas peregrinações a Meca, dava uma audiência pública no rico divã de seu magnífico palácio e procurava atender a todos os que o procuravam.
Iam à presença do soberano, por simples cortesia, ou com o propósito de pedir um favor qualquer, nobres, poetas, mercadores, xeques e peregrinos vindos de todos os recantos da Arábia. Raro era aquele que não regressava do palácio do generoso príncipe com um belo presente. E quantas vezes o nômade que entrava humilde, coberto de andrajos, não saía da audiência a saltar de contente trazendo na mão uma bolsa cheia de ouro!
Ora, um dia, quando o soberano atendia a seus numerosos súditos, foi ter à sua presença um pobre beduíno, tão esfarrapado e tão sujo, que só o seu aspecto de mendicante incutia compaixão ao espírito mais avesso aos sentimentos de piedade.
- Donde vieste, ó beduíno - perguntou o califa.
- Emir dos Crentes! - respondeu o andrajoso árabe, depois de beijar três vezes a terra entre as mãos. - Que Allah, o Único, proteja os fios da vossa barba! Venho do oásis de Kobo, para além do Nedjed!
Assombrou-se o sultão ao ouvir tal resposta, pois bem sabia ele que o oásis de Kobo ficava situado no outro extremo de seus domínios, e parecia impossível que um crente viesse de tão longe para visitá-lo.
- Dize-me, ó filho do deserto! - continuou o califa - quanto tempo durou a viagem que fizeste de Kobo até Bagdá?
- Xeque do Islã! - respondeu o interpelado. - A minha viagem durou dois anos e cinco meses. Fui obrigado a atravessar a pé grande parte do deserto!
- Que desejas de mim, ó irmão dos árabes? - indagou o califa.
- Príncipe dos Crentes - tornou o beduíno - vim a esta audiência esperançado de obter da vossa inexcedível bondade um grande favor. Desejo que me mandeis dar um cão de caça!
- Um cão de caça! - exclamou cheio de espanto, o califa. - Tu vieste de tão longe fizeste uma viagem tão fatigante e perigosa, sofreste os maiores tormentos, foste torturado pela fome e pela sede para - no fim - me pedires, como recompensa de tantos sacrifícios, um simples cão de caça! É positivamente de causar assombro o teu modesto e original pedido!
Os nobres e ricos muçulmanos que assistiam à audiência, ao terem conhecimento do diálogo travado entre o mísero beduíno e o sultão, foram unânimes em declarar que era realmente de causar assombro a modéstia e a simplicidade daquele beduíno que fizera tão longa jornada para pedir ao grande Harum-Al-Raschid, o soberano mais dadivoso do mundo, um cão de caça.
O célebre califa querendo mostrar que sabia recompensar o grande esforço e premiar o desinteresse admirável do modesto beduíno, ordenou que lhe dessem um belíssimo cão da mais pura raça.
Era um soberbo animal, forte, esguio, de pêlos negros e lustrosos que fora criado pelos pastores do Cáucaso entre as montanhas. Dificilmente se poderia obter outro exemplar mais perfeito.
- Comendador dos Crentes! - exclamou o beduíno, depois de receber o cão. - Que Allah vos conserve feliz por todo o sempre. Não sei como agradecer-vos! A vossa generosidade colocou-me, porém, em sério embaraço. Este animal é tão perfeito, tão raro (e para mim tão precioso!) que confesso, não sei se poderei tratá-lo com os cuidados que ele merece!
- Não seja essa a dúvida, ó beduíno! - disse risonho o califa. - Vou ordenar que te dêem uma escrava especialmente para cuidar do teu cão!
- Príncipe generoso! - ajuntou o beduíno, beijando a terra com humildade. – Sois realmente incomparável! Que Allah, o Distribuidor, vos cubra de incalculáveis benefícios! A vossa generosidade veio colocar-me, porém, mais uma vez, em não pequena dificuldade! Como poderei voltar para o longínquo oásis de Kobo sem ter ao menos um camelo ou um jumento para - carregar o maravilhoso cão e a linda escrava com que acabo de ser presenteado?
- Tens razão, meu amigo - conveio o califa, ainda de bom humor. - Vou dar-te três camelos, cinco jumentos, um cameleiro e um guia hábil para conduzir-te!
- Califa do Profeta! - exclamou ainda, o beduíno. - Os vossos benefícios caem sobre a minha mísera pessoa como verdadeiros dons do Céu de Allah! Que o Altíssimo proteja os vossos filhos e os filhos de vossos filhos! Estou, entretanto (sinto dizer) em grave apuro. Não sei como alojar, quando chegar a Kobo, o cão, a escrava, o cameleiro e o guia, pois, infelizmente, não tenho de meu, no oásis, nem uma simples choupana!
- A tua observação tem todo o cabimento tornou o califa. - Vou providenciar para que seja adquirido e posto à tua disposição um dos melhores palácios de Kobo! Nele viverás com a tua família!
- Sombra de Allah na terra! - prosseguiu o beduíno. - Que o Criador vos cubra de bênçãos! A minha situação é cada vez mais embaraçosa! Como obter recursos para alimentar, durante o meu regresso, o cão, a escrava, o cameleiro e o guia?
- É fácil resolver-se este caso - retorquiu já bastante desconfiado o califa. - Vou dar-te dez mil dinares de ouro!
- Rei afortunado! - ajuntou logo a seguir o beduíno. - Seja a glória de Allah a vossa recompensa! A minha situação tornou-se aflitiva! Irei atravessar os sete desertos da Arábia, com os tesouros que levo sem ter quem me defenda dos bandidos e dos nômades?
- Os teus receios são razoáveis e justos, ó beduíno! - concordou impaciente o sultão. – Vou pôr à tua disposição uma escolta de cinqüenta soldados da minha confiança!
E antes que o aventureiro reclamasse qualquer coisa mais o califa gritou irritado:
- E basta, beduíno, basta! Vieste aqui, com falsa modéstia, pedir-me um cão de caça e levas uma caravana completa! Quem poderia supor, ó filho do deserto, que escondias a tua insaciável cobiça sob os pêlos de um rafeiro!
E durante muitos anos o povo de Bagdá guardou a lembrança daquele beduíno astucioso, que, tendo ido pedir ao califa um cão de caça, chegou a obter palácios, escravos e ouro!
Cuidado com a falsa humildade, ó leitor! Já dizia o Santo Sidi Aíssa (sobre ele a paz de Allah!
- A Cobiça é irmã gêmea da Hipocrisia!
Uassalã!
("Lendas do Deserto)