
(do folclore árabe)
Conheceis, ó meu amigo, a singular aventura ocorrida com o sultão Al-Mahdi durante uma caçada nos arredores de Bagdá? Ouvi-a há tempos de um velho muezim e vou repeti-la fielmente agora para que aprecieis também um dos episódios mais originais da vida do famoso soberano abássida.
Um dia, entre os dias do passado, o sultão Al Mahdi - o grande califa - quando se achava a caçar em uma floresta nas margens do Diala, perdeu-se dos companheiros e foi ter a uma pequenina choupana onde morava um velho beduíno.
Não quis o califa dar a conhecer o seu nome nem revelar a sua qualidade de soberano; pediu unicamente ao beduíno que o recebesse como hóspede, dizendo-se apenas um pobre tecelão em caminho para Bagdá.
Sem conhecer naquele viajante transviado o poderoso soberano dos árabes, o beduíno recebeu-o bondosamente, fê-lo transpor os umbrais de sua rústica morada e disse-lhe:
- Não vos preocupeis com a vossa pessoa, ó tecelão! Ficareis aqui esta noite e amanhã, ao nascer do sol, se Allah quiser, eu mesmo vos conduzirei até Bagdá pelo caminho mais seguro da floresta.
E, para ser agradável ao hóspede desconhecido, o beduíno foi buscar um pequeno vaso de barro, cheio de delicioso vinho, e ofereceu ao califa num copo feito de osso um pouco da deliciosa bebida.
Depois de tê-la sorvido com verdadeiro prazer, o califa voltou-se para o beduíno e perguntou-lhe:
- Sabes afinal, ó beduíno!, quem sou eu?
- Sei perfeitamente. Sois um modesto, diligente e honrado tecelão de Samarra! Que Allah, o Exaltado, vos faça prosperar!
- Eu, um tecelão? - exclamou o califa. - Estás enganado, meu bom amigo! Sou um dos oficiais mais nobres da corte do vosso glorioso sultão!
Ao ouvir tais palavras mostrou-se o beduíno muito satisfeito, e exclamou!
- Que Allah vos proteja, ó valoroso oficial! Queira o Altíssimo que o nosso bondoso califa saiba apreciar sempre, com a devida justiça, os vossos elevados méritos!
E, para que a alegria fosse mais completa beberam ambos outro copo de vinho.
Fitando, porém, no beduíno os seus olhos vi-vos e claros, o califa perguntou-lhe pela segunda vez:
Sabes afinal, ó irmão dos árabes, quem sou eu?
- Já sei perfeitamente - respondeu o beduíno - sois um dos oficiais mais distintos da guarda pessoal do sultão de Bagdá!
- Eu, um simples oficial? - exclamou o califa risonho. - Muito te enganas, meu amigo. Exerço o cargo de vizir junto ao nosso glorioso sul-tão Al-Mahdil.
Surpreendido ficou o bom do beduíno ao ouvir essa segunda declaração.
- Generoso vizir! - exclamou, inclinando-se respeitoso. - Que o Criador vos cubra de incalculáveis benefícios!
Momentos depois o califa serviu-se de um terceiro copo de vinho. Depois de saborear a generosa bebida, voltou-se outra vez, para o seu paciente hospedeiro e perguntou-lhe risonho:
- Sabes afinal, ó filho do deserto!, quem sou eu?
- Senhor vizir respondeu o beduíno -a ser verdade o que há pouco ouvi dos vossos lábios, sois um dos mais dignos ministros do nosso glorioso califa!
- Muito mais do que isso! - respondeu o sultão. - Fica certo, ó beduíno!, que tens agora diante de ti o próprio grão-vizir, braço direito do Comendador dos Crentes!
Ao ouvir tais palavras o beduíno inclinou-se respeitosamente e saudou o seu ilustre conviva com expressões eloqüentes e sinceras:
- Que o Distribuidor vos cumule de benefícios! Que os vossos dias corram sempre calmos, prósperos e felizes por muitos anos!
O sultão Al-Mahdi, que muito se divertia com as sucessivas surpresas que aquelas suas promoções vinham causando ao árabe, bebeu ainda outro copo de vinho, depois do qual novamente interpelou o seu amável hospedeiro com aquela mesma pergunta
- Sabes afinal, ó beduíno amigo!, quem sou eu?
- Xeque venerável - respondeu o beduíno. - Não tenho motivos para deixar de dar crédito às vossas próprias palavras. Sois o grão-vizir do Príncipe dos Crentes!
- Muito mais do que isso! - replicou o sultão. - Vou dizer-te a verdade: sou o próprio Al-Mahdi, califa de Bagdá!
Se a pedra negra da Caaba voasse pelo céu não causaria, talvez, mais espanto nem maior temor ao beduíno, que ficou -e com razão -estarrecido ao saber que tinha como hóspede em sua rústica choupana o monarca mais poderoso e mais rico do mundo.
- Allah ibarak f'ama sidi! -exclamou. - Que Deus prolongue a vossa vida, ó Rei! Que Allah proteja os vossos filhos e os filhos dos vossos filhos!
Al-Mahdi, vendo que o seu curioso estratagema havia causado profunda impressão no espírito do árabe, felicitou-se intimamente pela feliz execução da sua original idéia! E tomando do copo encheu-o novamente com o generoso vinho e preparou-se para saboreá-lo pela quinta vez.
Com assombro, porém, viu o beduíno erguer-se rápido e arrancar-lhe o copo da mão exclamando:
- Peço-vos perdão, ó califa. - Não posso consentir, entretanto, que bebais esse copo de vinho!
E como o califa, surpreendido por aquele movimento inesperado e irreverente fulminasse com o olhar o pobre beduíno, este ajuntou:
- Quando aqui chegastes, há pouco, éreis apenas um simples tecelão de Samarra que se perdera na floresta; depois de terdes bebido o primeiro copo passastes a ser um dos oficiais da guarda do califa; a segunda dose de vinho, logo depois, vos levou ao cargo de vizir; a promoção a grão-vizir foi inspirada pelo terceiro copo. A quarta porção de vinho vos ergueu ao trono de Bagdá! É por isso, ó Príncipe dos Crentes!, que não posso permitir agora que bebais em minha companhia.
- Insensato que és! - exclamou o sultão, dando à voz um tom de invulgar energia. - Ousas contrariar a vontade do teu soberano?
- Que Allah vos conserve, ó califa! – responde o beduíno. Vou explicar o motivo justo que me obrigou a impedir-vos de beber o quinto copo de vinho! Tive medo que a última porção de vinho fizesse vir à vossa mente o desejo de declarar que a vossa situação era ainda mais elevada do que a que realmente exerceis!
E ajuntou com a maior naturalidade:
- Tive receio de vos ouvir declarar que sois Maomé, o profeta de Deus!
Achou o sultão tanta graça nessa original e inesperada resposta e com tais gargalhadas expandiu o seu bom humor, que chegou a cair de costas no chão.
Al-Mahdi - inútil seria dizer - levou o inteligente beduíno para Bagdá e tomou-o sob sua preciosa proteção.
("Lendas do Deserto")