O caçador de raposas

 

Nagib, o caçador de raposas, conta ao rei Baribê uma estranha aventura. O Xeque do turbante cinza-pérola. A hóspede encantadora – A jovem Halcima perde os sentidos. Nagib procura um socorro urgente

 

A história de minha vida, ó Rei do Tempo, envolve uma aventura tão surpreendente e estranha, que bem merecia fosse escrita com a ponta de um alfanje na escama dourada de um peixe-voador. Muito cedo perdi meu pai e, forçado a lutar duramente pela vida, deixei a modesta aldeia em que morava com minha mãe e meus irmãos, e transportei-me para esta formosa cidade, onde me empreguei como auxiliar de um hábil caçador de raposas.

Esse meu amo chamava-se Hayek e com ele aprendi todos os pequeninos segredos que deve conhecer aquele que mercadeja com peles finas e raras, resolvido a tentar sozinho a vida e atender as solicitações de alguns parentes, deixei o serviço do diligente Hayek e passei a caçar e a negociar por conta própria. E, como prefiro sempre agir nas matas aproveitando as sombras da noite, apelidaram-me "Nagib Noturno'. Tenho por sistema aplicar, nas regiões áridas ou montanhosas, três variedades de armadilhas; já verifiquei que mesmo as raposas velhas quando...

- Não me interessam as tuas armadilhas - interrompeu o rei, nem desejo, tampouco, conhecer os sistemas que aplicas para apanhar raposas novas ou adultas. Conta-nos sem rodeios inúteis o episódio, crime ou aventura de que resultou a tua condenação. Deixa de lado os pormenores de teu ofício.

Respondeu Nagib sem vacilar:

- Assim o farei, ó melih el-bilad el-Kabir (grande rei). Vou narrar o drama insólito que cortou, para sempre, o fio tranqüilo de minha vida. O caso passou-se há pouco mais de dois anos.

- Uma tarde achava-me sozinho, a descansar descuidado à porta de minha tenda, quando vi aproximar-se um desconhecido ricamente trajado. Seguia-o uma jovem de cabelos castanhos, que trazia o rosto cuidadosamente velado por um espesso véu cor-de-rosa.

O recém-vindo, ostentando um belíssimo turbante cinza-pérola, disse-me, com acentuada delicadeza:

- Allah sobre ti e ao redor de ti, ó jovem caçador!

- E sobre vós a proteção infinita do Distribuidor - respondi, numa cortesia grave, retribuindo a delicada saudação.

A curiosidade, que abria brechas em meus pensamentos, levou-me antes de tudo a observar atentamente a jovem. Apesar do haic que lhe ocultava o rosto percebia-se, ou melhor, adivinhava-se, que devia ser uma criatura dotada de rara formosura. As mãos eram claras, muito finas, e os dedos esguios iam terminar numas unhas cor de rubi líquido.

- Em que posso ter a honra de vos servir, ó Xeque? - perguntei, inclinando-me em breve mesura.

Respondeu-me o homem do turbante cinza-pérola (e sua voz tinha uma leve inflexão estrangeirada):

- Minha filha Halcima deseja adquirir algumas peles de luxo para oferecer a duas amigas íntimas que se casam na próxima semana. Quero saber se tens aí, no meio de tua mercadoria, artigo que nos possa servir agradar.

- Pelas letras sagradas do Alcorão, ó Xeque dos Xeques! - exclamei com alvoroço.   Não encontrareis na Pérsia, na Arábia ou na China, peles mais ricas e mais preciosas. As raposas que escolho são dignas da primeira esposa do nosso Emir.

E, num gesto largo, à maneira dos nobres muçulmanos, convidei-o a ir para o interior de minha tenda.

O Xeque olhou-me gravemente da cabeça aos pés. E depois de um rápido momento de reflexão, voltou-se para a jovem a quem disse com uma expressão cheia de ternura e paciência:

- Entre você, minha querida Halcima. Ficarei de observação, pois é bem possível que a terceira nuvem passe pelos olhos do chinês corcunda.

Tais palavras (de sentido impenetrável para mim) puseram-me na fronte um sulco de espanto e temor. A desconfiança latejou forte em meu pensamento. Quem seria aquele desconhecido, com trajes principescos, que mandava a filha para o interior da tenda de um mercador e ficava tranqüilo na estrada a ver se a "terceira nuvem passaria pelos olhos de um chinês corcunda"?

Que borbulhante mistério havia, afinal, naquele caso?

Dominei-me, entreabri de leve, com a mão esquerda, o pano escuro que velava a porta da tenda, e declarei à jovem:

- Esta pobre tenda é vossa, ó Lala (dama). Honra será para mim se me incluírem entre os mais humildes de vossos servos!

Ela não hesitou nem meio segundo. Encaminhou-se para o interior da tenda e sentando-se com a naturalidade de uma criança entre as peles preciosas, reclinou-se sobre um monte de almofadas. A seguir, numa voz desbordante de doçura e suavidade, murmurou:

- Dá-me, ó bondoso mercador!, um pouco d'água. Estou a morrer de sede e de cansaço!

Com tais palavras (como era cariciosa e sedutora a sua voz!) ergueu num gesto gracioso, sem afetação, o véu cor-de-rosa que lhe ocultava o rosto. Fiquei deslumbrado! Foi como uma inesperada aparição! Jamais se me depara, pelo mundo, tão linda criatura de Allah! Tive a impressão nítida, perfeita, de que a minha modestíssima tenda se iluminara como se fora o palácio do nosso grão-vizir! Emocionado, com os lábios a tremer, exclamei:

- Louvado seja Allah que criou a Beleza! Louvado seja Allah que criou a Mulher!

Vendo-me imóvel, vencido pelo encantamento infinito que seus olhos, sua boca, suas faces, ela toda enfim, irradiava a linda menina, num fio de voz cantante e deliciosamente infantil, insistiu debilmente:

- Depressa, meu caro mercador! Pela sombra do Profeta! Sou agora tua hóspede nesta boa tenda! Dá-me um pouco d'água! A minha sede é tão forte que já sinto secar-me o coração!

As palavras lhe brotavam dos lábios, e vibravam diluídas na ternura de sua voz. Parecia dominada por uma sensibilidade aflitiva. Encaminhei-me para o fundo da barraca onde guardava, entre dois amarrados de peles, uma pequena talha de água pura e fresca. Sentia-me enleado e confuso pela presença a tão poucos passos de mim daquela menina tão sedutora. Tomei de um pequeno púcaro de bronze e inclinei-me para enchê-lo.

Nesse momento, porém, ouvi do lado de fora da tenda um grande tropel de passos, gritos insofridos e imprecações. Voltei-me assustado e vi a encantadora Halcima com a sua formosa cabeça pendida para trás como se estivesse desfalecida. Rápido como uma flecha corri em seu auxílio. Toquei-lhe de leve no rosto, nos braços, nas mãos.

- Halcima! Halcima! - bradei desorientado.

Estava desacordada, como morta. Urgia avisar o Xeque. Corro à porta, afasto nervoso o pano, olho para fora. O pai de Halcima já não estava ali. A estrada alongava-se tranqüila e deserta.

De um momento para outro o rolar dos acontecimentos me atirava a uma situação angustiosa, quase alucinante. Que fazer sozinho, na tenda, em companhia de uma jovem desconhecida a quem o desmaio imobilizara?

 

 

(“Aventuras do Rei Baribê”)

 

continua (Procurando um médico)

 

voltar

home