
O guia, mostrando-se muito aflito, aproximou-se de mim e declarou, com voz trêmula:
- Sidi, estamos perdidos! Aquela tempestade de ontem perturbou-me! Já não sei mais qual o caminho a seguir! Estou desorientado! Que Allah nos ampare!
Fiquei bastante assustado ao ouvir tão inesperada revelação. Um dia de atraso em nossa marcha pelo deserto seria um desastre para as nossas tropas. Fiz parar a coluna da frente e fui levar imediatamente ao conhecimento do comandante a terrível declaração do guia.
O capitão Ralph, homem experimentado nas mais cruentas campanhas, não se mostrou perturbado com a notícia, e murmurou:
- Já sei o que esse miserável maometano quer.
Logo que o guia chegou, o capitão entregou-lhe uma bolsa de ouro em que retiniam várias libras, e disse-lhe:
- Olha, amigo. Soube que perdeste o rumo no deserto. É necessário, porém, que o encontres novamente. Aqui dentro desta bolsa há uma "bússola" magnífica! Vê se te orientas por ela!
O árabe, calmo, tomou da bolsa, examinou-lhe, com vagar, o conteúdo e dirigindo-se ao capitão, respondeu
Está bem, Sidi. Creio que esta bússola me vai ser muito útil.
Continuamos a marcha sem mais acidentes. Dois dias depois acampávamos às portas da cidade de Karb, ponto terminal da nossa jornada. Fiz ver ao comandante que já não eram mais necessários os serviços do guia árabe, convindo, portanto, dispensá-lo.
Quero falar a esse homem! - declarou o capitão.
Mandei que um soldado fosse chamar o guia. Logo que este se apresentou, perguntou-lhe o capitão se a "bússola" que lhe dera servira para alguma coisa.
Serviu-me perfeitamente, Comandante - respondeu o guia.
- Está bem - tornou o capitão Ralph. - Está bem. Era só isso que eu queria ouvir da tua bôca. Pois eu também me orientei perfeitamente pela mesma bússola.
- Não percebo, Sidi, - observou o guia. -Por Allah! Não percebo!
Eu explico - continuou o comandante. - Não ignoras que estamos em tempo de guerra. A Inglaterra precisa saber quais os seus leais servidores. Ora um guia que se confessa perdido no deserto e que se orienta de novo à vista de um punhado de ouro não é um leal servidor da pátria: é um traidor e não pode merecer piedade. Assim, vais ser fuzilado imediatamente.
Ao ouvir aquela inesperada sentença de morte o árabe tremeu, pálido, encostado à sua lança de jornada. Depois, procurando dominar o terror que o avassalara, fez menção de arrancar do cinto a bolsa fatídica.
- Não! - exclamou o capitão. Leva a tua bússola. Servirá, também, para a viagem que vais fazer ao outro mundo!
A voz de fogo foi dada por mim.
("Lendas do Deserto")