O burriqueiro impassível

 

A história do hóspede misterioso continua. A noiva do mestre-escola.

 

Das "Mil histórias sem fim...” é esta a quadragésima segunda. “Não te alegres senão quando praticares o bem”.

Lida a quadragésima segunda restam, apenas, novecentas e cinqüenta e oito.

 

Tomada a resolução não mais refleti sobre a exigência frívola e infantil formulada pelo singular egípcio. Vesti-me num abrir e fechar de olhos, enrolei na cabeça um turbante qualquer, à cintura prendi minha bolsa de passeio e, seguido pelo "taleb" Iezid, deixei a casa e fui para a estrada de Bagdá. Que pretendíamos naquela manhã de sol? Realizar tarefa urgente? Concluir rendoso trabalho? Nada de útil; nada de aproveitável. A nossa intenção era encontrar três pessoas que se dispusessem, naquela hora, a ouvir em nossa companhia a lenda intitulada "As sete pontas do quadrado", que o extraordinário Zualil me ofereceu como retribuição pelas atenções recebidas.

Não muito longe, antes de passarmos pelo primeiro grupo de casas, paramos sob uma esplêndida figueira que estendia, em redor de seu tronco nodoso, um largo tapete de sombras. O sol já ia quase a pino.

A pequena distância surgiu um modesto burriqueiro (*) levando pela rédea o seu muar num toque-toque cadenciado de homem feliz que não se preocupa com o desenvolver do tempo.

- Chama-o - sugeri sem hesitar ao mestre-escola. - É bem possível que aquele camarada esteja agora de folga e não se recuse a servir-nos.

- Olá! Olá! - chamou o "taleb" com viva insistência - Pára aí! Escuta, vem cá, burriqueiro!

Mas o rústico não alterou a marcha de seu caminhar. Inteiramente alheio aos apelos continuou, impassível, no mesmo rumo. Aquela displicência surpreendia-nos. É lá possível que possa ocorrer tal coisa? O "taleb" foi-lhe ao encalço. Defrontaram-se, afinal. Fiquei de longe como simples espectador da cena, a observá-los. Percebi que ambos discutiam com gestos estabanados. Pelo que pude perceber, o mestre-escola insistia no convite; o burriqueiro recusava com decisão, ora apontando para o céu, ora abrindo os braços, em desalento, como um caravaneiro fatigado. Decorrido algum tempo, o burriqueiro prosseguiu em seu caminho e o "taleb" voltou a passo lento e de cabeça baixa, como quem se sente irremediavelmente arrasado por um fracasso deplorável.

- Que houve, afinal? - perguntei-lhe. - O homem recusou?

O "taleb" parou diante de mim e encolheu tristemente os ombros sem nada dizer. Em seus olhos transparecia um mau-humor irreprimível. Por fim, respondeu-me:

- Achei-me sem querer envolto em grave equívoco. Percebendo que o beduíno insistia em não atender aos meus chamados, segurei-o pelo ombro, fi-lo parar e gritei-lhe cara a cara: - "Preciso agora de ti, o irmão dos árabes!" - A cada pergunta que eu lhe fazia, vinha com respostas incongruentes, ditas em voz muito lenta, como: "As melancias ainda estão verdes. Dentro de quinze dias passarei aqui”. Aquela resposta, sem nenhuma relação com o meu pedido pareceu-me gracejo de mau-gosto. Ou, ainda: "Não o vi ainda, mas o Imã da mesquita é irmão de meu cunhado!". Surpreendeu-me, de novo, tão disparatada réplica. E um terceiro disparate: "Adoeci em Mossul e acordei dois dias depois com as botas vermelhas do joalheiro!". Aquela frase sugeriu-me a única explicação aceitável para o desentendimento. O burriqueiro era surdo! Deploravelmente surdo! Suas respostas, aparentemente sem nexo e sem propósito só poderiam satisfazer a certas perguntas que ele imaginava ou admitia que eu tivesse proferido. E claro que um surdo não pode servir de ouvinte. O egípcio não o aceitaria. Deixei-o, pois, seguir tranqüilo.

- Meu caro mestre-escola - observei arrastando as palavras com grave entono. - Tudo isso que acabas de contar, em teu singular encontro com o burriqueiro, merecia o qualificativo de "espantoso". Procura analisar com atenção o episódio. Interpelas um burriqueiro surdo e ouves frases sem nexo, respostas incongruentes. Parece-me que seria altamente interessante esclarecer, à luz da realidade, o seguinte: Haverá pergunta à qual o burriqueiro responderia: "Não o vi ainda, mas o imã da mesquita é irmão de meu cunhado?". Que pergunta seria essa? Para a terceira frase não encontro justificativa alguma: "Adoeci em Mossul e acordei, dois dias depois com as botas vermelhas do joalheiro". Não seria curioso apurar a que indagações poderiam satisfazer esses informes tão extravagantes?

Ia o mestre-escola gaguejar uma explicação fantasiosa para o enigma do burriqueiro surdo; quando vimos surgir, a pequena distância, caminhando para o nosso lado, com passos leves e rápidos, duas mulheres. Velavam-se ambas com os seus espessos "haics". Uma delas, a mais alta, arrastava pela mão uma criança morena e quase nua. Trazia a outra, no braço, um grande cesto a transbordar de frutas, peixes e verduras.

- Convidemos aquelas mulheres - recomendei em voz baixa ao mestre-escola - É bem possível que elas não sejam surdas e possam atender ao nosso apelo. O pequeno completará o número de ouvintes exigido pelo egípcio.

- Bem lembrado! - anuiu o "taleb" – um auditório com duas jovens beduínas e um inocente garotinho será muito agradável ao egípcio!

Isto dito, caminhou decidido, em linha reta, ao encontro das embuçadas.

Ocorreu, porém, um acidente lastimável. Ao atravessar a estrada, o mestre-escola, na precipitação com que se dirigia para as beduínas, tropeçou num galho seco e foi ao chão. A jovem que conduzia o pequenino, ao ver o meu amigo estatelado na areia, riu gostosamente, A outra levou as mãos aos olhos, num gesto que denotava susto e aflição. E enquanto o mestre-escola se levantava do desastroso trambolhão e sacudia os braços para se livrar da terra, as filhas de eva apressaram o passo e afastaram-se de nós.

- Não poderemos detê-las mais - lamentei. - Já vão longe. Que pena!

E indaguei solícito ao companheiro:

- Machucou-se?

- Nada — explicou o "taleb" com expressão que demonstrava certa alegria e altivez A queda foi proposital. Ao me aproximar das duas jovens embuçadas reconheci-as. A mais alta (a que trazia o garotinho) chama-se Samira e é casada com um malabarista; e a outra...

Fez uma ligeira pausa e concluiu como se revelasse grave segredo de sua vida:

- ... a outra, pretendo pedir em casamento dentro de uma semana! Chama-se Edna. É minha futura noiva! (Se Allah quiser!)

Aquela declaração deixou-me no simum da confusão. Se o mestre-escola reconhecera as duas jovens, por que não as convidara? Como explicar e justificar a queda diante de sua amada, em plena estrada?

- Seria indelicado convidar moças de minha amizade para ouvir lendas contadas por estrangeiro desconhecido. Aproveitei a oportunidade para certificar-me do amor de minha eleita. Atirei-me ao chão, simulando uma queda. Se Edna risse de mim é porque eu teria parecido ridículo diante de seus olhos. Ora, o verdadeiro amor é cego para o ridículo e para os defeitos. Só tem olhos para as atitudes nobres, para os gestos dignos, para as qualidades que exaltam. E Edna não riu. Com gesto natural lamentou a minha queda. Posso, pois, confiar em seu amor.

Achei que não seria oportuno discutir, naquela ocasião, com o mestre-escola. Percebi que nele latejava o ardor imaginativo dos apaixonados. Admiti como verdadeira a teoria de que o namorado, rolando por terra de pernas para cima, diante de sua amada, poderia colher prova segura do verdadeiro amor.

Vendo-me pensativo, o mestre-escola, que era um incorrigível palrador, pôs-se a discorrer sobre o amor:

- Grande coisa é o amor, grande e absoluto bem para a vida e para a morte! Torna leve o que é pesado; esclarece o que nos parece sombrio e apaga as tristezas de nossos corações. Aligeira os sofrimentos que nos torturam e faz desaparecerem as mágoas que nos entenebrecem a existência. O amor quer ser livre e alheio a todos os interesses materiais. Nada mais doce, nada mais forte, nada mais sublime do que o amor. O amor é o acabamento com que Deus achou acertado dar por finda a perfeição de Sua obra!

Cortei as considerações sentimentais do noivo de Edna dizendo:

- Tratemos, sem perda de tempo, de obter os três ouvintes para a lenda. Deixemos para mais tarde essas digressões sobre o amor. Não te esqueças de que o egípcio está em minha casa à nossa espera. Em vez de apelarmos para os passantes desconhecidos, que a esta hora escasseiam, mais eficiente e mais seguro, a meu ver, seria convidarmos pessoas de nossa amizade. Aqui perto mora o corretor Chafid Bechara. É meu amigo. Vamos procurá-lo. Será o nosso primeiro ouvinte.

O "taleb" aceitou, mais uma vez, a minha sugestão e seguimos para a casa do corretor Bechara. Vou contar o que de estranho nos ocorreu.

 

(*) - aquele que vende, aluga ou conduz burros.

 

(“Mil Histórias Sem Fim”)

 

continua ("O Jovem e a canção")

 

voltar

home