O buracão

 

Era no meu tempo de criança – tempo de menino do interior, quando a gente saía pelos campos dos arredores da cidade, pés no chão sobre a relva ainda úmida da manhã, para andar, andar, andar...

Coisa que, em razão da vida corrida da cidade, com sua fumaça, seus odores, impede a beleza de algo que ninguém mais nota hoje em dia: o sol! – sol de primavera, brilhante, invadindo todos os recantos das árvores, da mata, dos casebres, das pessoas...

E muitas, muitas flores, das mais variadas cores – amarelas, vermelhas, azuis – flores silvestres, sem valor comercial, mas de grande valor sentimental.

E, além disso, andar, para inocentes caçadas com estilingue, quando o mais que se conseguia era bastante canseira e suor.

Mas não deixava de ser uma delícia, um esvaziar de compromissos – de criança, é claro – e um contato total com a natureza e com as belezas que o mundo das cidades não pode oferecer.

Ali à frente estava o "buracão" – depressão natural fora da cidade, um verdadeiro cânion, com lugares chegando a cem metros de profundidade.

Atingir o fundo do "buracão" era a meta sempre sonhada de quantos, como eu, almejavam saber o que havia lá embaixo – grutas, corredeiras, plantas, quem sabe animais!...

Havia riscos, mas quem estava se importando com eles, desde que não interferissem nos planos?

Certa vez, estávamos nós – eu, o Ruy e o Ney, seu irmão - a descer as paredes do "buracão", equilibrados entre os degraus de uma rocha, umas raízes e um cipó que servia de sustentáculo, quando um de nós – o Ney, que era devagar, quase parando, mas que tentava fazer tudo que os demais faziam, "resolveu" ficar entalado entre as raízes das árvores que estavam à frente.

Foi um "deus nos acuda!". Não sabíamos se deveríamos puxá-lo ou empurrá-lo, e a razão era bem simples: ele era grande e pesava mais de oitenta quilos. Pode-se imaginar o trabalho que deu!

A raiz da árvore onde ficara preso estava à beira do buraco e, quando olhávamos para baixo, não podíamos deixar de sentir tremores de medo. Entretanto, não havia tempo para medos, suores ou recuos. Tínhamos que tirar o nosso amigo Ney daquela entaladela e o colocarmos a caminho do fundo, logo abaixo. Sim, porque nem pensávamos em desistir da incursão.

Até que, finalmente, foi desentalado e desceu. Porque, que se saiba, nunca ninguém ficou eternamente entalado que não fosse socorrido – pela polícia, bombeiros, helicópteros...

O próximo passo era saber como levá-lo de volta.

- Bem – diz alguém – por que levá-lo já? Não podemos aproveitar a decida e explorar o fundo do "buracão"?

- É mesmo!...

Todos concordaram, visto que o tempo despendido e a trabalheira sugeriam que visitássemos, sem pressa, o alvo, o quase "mito" do fundo do buraco.

E assim fomos.

Árvores pouco conhecidas – pelo menos para nós, novatos, tristes estudantes do ginásio (era assim que nos chamavam naquele tempo) - vimos muitas e, por isso mesmo, não nos preocupávamos em identificá-las. E nelas se incluíam as orquídeas, as samambaias, as trepadeiras, os cipós (do Tarzã?...) que íamos encontrando.

No fundo, no fundo, no fundo mesmo da depressão, um riacho, águas correntes, cristalinas, convidativas, onde acabamos por mergulhar – de roupa e tudo, a despeito do clima frio, até que o cansaço ou o sono nos fizesse deitar de olhos nas nuvens, com desenhos de jacarés, baleias, cavalos, carneirinhos..., até finalmente adormecer.

Mas, nem tudo são sonhos: à tarde estávamos acordando, e acordando para uma dura realidade: como voltar, com todo o trabalho que estava diante de nós? E o Ney? Como tirá-lo dali? - O mundo nos tirava daquele verdadeiro sonho - o mundo real em que vivíamos, a família, a escola, tudo enfim que nos ligava à civilização, e que não era melhor do que aquele mundo onde passamos parte do nosso dia...

Tínhamos que sair, tínhamos que subir, tínhamos que tirá-lo dali.

Toca subir. Toca ter forças, não apenas para si, mas para o Ney – ah! O Ney, com sua vagareza e com os seus oitenta quilos de peso.

Foi difícil, mas... conseguimos!...

 

voltar

home