Buda

          

(por volta de 563 a.C. / por volta de 483 a.C.)

 

Ao longo dos séculos tem sido representada a imagem de Buda tantas vezes que inclusive no Ocidente sua efígie resulta tão familiar como qualquer outro objeto artístico. Costumamos vê-lo sentado sobre as pernas em atitude meditativa, com uma protuberância mais ou menos saliente na cúspide do crânio e um lunar piloso entre as sobrancelhas, coberto por um vaporoso manto sacerdotal, e aureolado seu rosto por uma serenidade e uma doçura profundos. Há algo, sem dúvida, que surpreende às vezes: para ser um asceta que renunciou os prazeres do mundo e que conhece a fundo as misérias humanas, em certas representações parece excessivamente bem alimentado e obeso.

É crença comum considerar que os santos levavam uma vida de luta e sacrifício em busca da paz interior, e assim era, efetivamente, na Índia que Buda conheceu, uns quinhentos anos antes de Cristo. A idéia da purificação através do sofrimento era usual entre homens já maduros ou anciãos, horrorizados e confusos ante a perversidade de seus contemporâneos. Com freqüência abandonavam suas famílias e se refugiavam nas montanhas, cobertos de andrajos e com uma cuia de madeira como única posse, usada para mendigar comida.

Antes de se converter em Buda, que significa "o Iluminado", Siddharta Gautama também praticou estas disciplinas corporais abnegadamente, mas não demorou em comprovar que eram inúteis.

Siddharta Gautama nasceu provavelmente no ano de 558 a.C em Kapilavastu, cidade com muralhas, do reino de Sakya, situada na região meridional do Himalaya, na Índia. Conhecido também como Sakyamuni ("o sabio de Sakya"), Siddharta era filho de Suddhodana, rei de Sakya, e da rainha Maya, que descendia de uma poderosa família do reino. Segundo a tradição, Siddharta nasceu nos jardins de Lumbini, quando sua mãe ia visitar sua família. A rainha Maya morreu logo após o parto e o recém-nascido foi criado por uma tia.

Siddharta cresceu rodeado de luxo: tinha três palácios, um de inverno, outro de verão e um terceiro para a estação das chuvas. Neles desfrutava a presença de numerosas donzelas, bailarinas e músicos; vestia roupa interior de seda e um criado o acompanhava com um guarda-sol. É descrito como um menino de constituição esbelta, muito delicado e com esmerada educação. De seus anos de estudo, possivelmente dirigidos por brâmanes, só se sabe que assombrou os mestres por seus rápidos progressos, tanto em letras como em matemática. Muito se tem falado de seu caráter sensível; mas sendo filho de um rei e aspirante ao trono, devia ser educado também nas artes marciais e em todas aquelas disciplinas necessárias para um monarca, não obstante o reino de Sakya fosse apenas um principado do reino de Kosala, do qual dependia.

Casou-se com sua prima Yasodhara quando tinha entre dezesseis e dezenove anos.

Sua vida transcorria a maior parte do tempo no palácio real, sob a proteção paterna. Segundo a tradição, durante suas saídas furtivas à cidade, em que era acompanhado por um cocheiro, foram produzidos os chamados “quatro encontros”. Numa das saídas encontrou-se com um ancião; noutra ocasião viu um enfermo; quando saiu pela porta ocidental, viu um cadáver; outro dia, ao cruzar a porta setentrional, encontrou-se com um religioso mendicante. Lá a velhice, a enfermidade e a morte indicavam o sofrimento inerente à vida humana; o religioso, a necessidade de encontrar-lhe um sentido.

Isso acabaria por levá-lo a deixar atrás os muros do palácio.

Aos vinte e nove anos Siddharta abandonou a família. Fez isso de noite, em companhia de seu criado Chantaka.

Sua meta era Magadha, no sul, onde se estavam produzindo trocas culturais e filosóficas. É possível que escolhesse esse reino, a uns dez dias de caminho, para evitar a possibilidade de ser repatriado. Uma vez percorrido parte do caminho, cortou os cabelos, se despojou de suas jóias e adereços e os entregou a seu criado para que, de volta a casa, os devolvesse a sua família, com a mensagem de que não regressaria até haver alcançado a iluminação. O resto do caminho o fez como mendicante, prática, por outro lado, muito considerada na Índia da época. Também era habitual que homens já maduros e com inclinações filosóficas adentrassem o bosque para buscar a verdade.

Uma vez em Rajagaha, capital de Magadha, o jovem mendicante chamou a atenção do poderoso rei Bimbisara que, acompanhado por seu séquito, foi visitá-lo no monte Pandava, donde praticava meditação e ascetismo. Segundo conta a tradição, o monarca lhe ofereceu quantas riquezas desejara em troca de aceitar pôr-se ao mando de seus batalhões de elefantes e de suas tropas de elite. Siddharta informou ao rei de sua origem nobre e do propósito de sua permanência em Rajagaha. O rei Bimbisara não reiterou a proposta; rogou-lhe unicamente que queria ser o primeiro a conhecer a verdade alcançada para chegar à iluminação.

Siddharta seguiu os ensinamentos dos mestres do yoga,

Segundo todos os indícios, isto havia ocorrido na cidade de Gaya, perto de Sena. Mais tarde a chamariam BodhGaya, e nela se levantaria um templo em honra de Buda.

Quando considerou que seus discípulos estavam convenientemente preparados, mandou-os a pregar a nova verdade por toda a Índia.

O rei Bimbisara doou a Buda e a seus seguidores um pedaço de terra (o “Bosque de Bambus”) para lhes servir de refúgio, embora os discípulos passassem a maior parte do tempo mendigando e pregando.

Buda pregou durante quarenta e cinco anos. Visitou várias vezes sua cidade natal e percorreu o vale do Ganges.

O ascetismo de Buda provinha das antigas religiões, mas é evidente que seu propósito não era tranqüilizar seus semelhantes apresentando-lhes una nova divindade ou renovando ritos anteriores, mas fazer cada uno consciente de sua solidão e ensiná-lo a lutar contra os males da existência. Com a contemplação do mundo Buda outorgou importância suprema a algo muito parecido com a oração individual e privada.

Outra das causas de seu êxito foi, sem dúvida, sua assombrosa tolerância.

 

(“Vidas e Obras”)

 

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