Brincando com a alma

 

Àqueles que visitam as célebres quedas no Niágara mostram os guias o sítio do qual, certa vez, um homem atirou a filhinha na corrente invencível.

O pobre pai não o fez movido por infanda crueldade, ou levado por súbita alucinação. Brincava com a pequenita e fingiu que ia arremessá-la ao abismo; a criança assustou-se e tentou fugir-lhe. Por uma triste fatalidade, porém, escapou-se das mãos paternas que a sustinham e precipitou-se no torvelinho de espuma, sendo rapidamente tragada pelo sorvedouro.

Terá um pai o direito de brincar desse modo com a sua filhinha?

Decerto que não.

Do mesmo modo, ninguém tem o direito de brincar com a sua alma, tão preciosa, fazendo-a rodopiar sobre a correnteza do pecado e diante do abismo da eternidade.

Acautela-te, pois, jovem, do pecado e diante do abismo da eternidade.

Acautela-te pois, jovem, com as tentações do pecado.

Nenhum homem está inteiramente isento de ser tentado enquanto vive: porque em nós mesmos está a causa donde vêm as tentações, pois nascemos propensos ao pecado.

Passada uma tentação ou tribulação sobrevém outra, e sempre teremos que sofrer, porque se perdeu o bem de nossa primeira felicidade.

 

("Lendas do Céu e da Terra")

 

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