A bolsa encantada

 

Das Mil Histórias sem fim... é esta a vigésima quarta! Lida esta, restam apenas novecentas e setenta e seis...

 

Com a chegada de duas caravanas da Pérsia, o movimento do suque de Basra naquele dia fora excepcionalmente intenso.

Ao cair da noite, fatigado pelo trabalho brutal de muitas horas, o mísero Mustakin Karuf, o carregador, recolheu-se, para dormir, à kuba sórdida em que vivia no fundo do pátio de uma casa de cameleiros, no bairro de Tahhin.

Sentou-se na ponta de um "tanght" (leito) feito de caixas velhas cobertas com panos grosseiros e, enquanto mastigava uma tâmara seca, quase sem gosto, tirou de um pequeno cesto as poucas moedas que havia recebido pelo trabalho no mercado. Contou e recontou várias vezes o dinheiro. Verificou possuir doze dinares de cobre e cinco moedas de prata. Tudo isso, porém, valia quase nada.

- Como é triste a minha vida - murmurou, lastimando-se da sorte. - Bem adverso foi para mim o Destino! Trabalho como um escravo sem parar até o cair da noite, e mal ganho num dia o que já devo pelo sustento da véspera. Que faço, senão praticar as boas obras e os deveres impostos aos muçulmanos sinceros? Jamais deixo de atender ao chamado do muezin para as cinco preces do dia; auxilio os pobres; leio com fervor o "Alcorão"...

Nesse momento sentiu Mustakin que alguém muito de leve, com as pontas dos dedos, lhe tocara no ombro. Voltou-se rápido e viu de pé, a seu lado, um ancião desconhecido, que pelo trajar bem-posto, parecia pessoa de alto lustre e distinção. O estranho visitante atravessou com certeza sem ser notado o pátio deserto e entrou silencioso no quarto pela porta lateral.

Ergueu-se o pobre Mustakin, surpreendido com a presença daquele Xeque de aspecto venerável, que o fitava com um sorriso bondoso e leal.

- Quem sois? - perguntou, com um espanto que não sabia disfarçar. - Que desejais de mim? Por que conduziu Allah os vossos passos até a minha pobre "kubba"?

- Logo saberás - acudiu com severidade o desconhecido. - Levado por uma indicação errada, entrei há pouco neste pátio, e sem querer vim ter aqui à porta do teu quarto. Tão absorto estavas em contar o teu pecúlio que não notaste a minha chegada. Ouvi, portanto, as palavras injustas de revolta que acabaste de proferir. Diz o Alcorão, o Livro de Allah: "As recompensas serão proporcionais aos méritos. Deus aprecia e julga todas as obras!"

E diante do infinito assombro de Mustakin, o velho Xeque continuou, solene:

- Escuta, ó muçulmano! Pela vontade do Altíssimo estudei as ciências ocultas, a misteriosa Astrologia e todos os segredos da Alquimia. Queres verificar se és, realmente, um homem justo e sincero? Toma esta bolsa. Ela poderá proporcionar àquele que for bom e puro uma riqueza incalculável.

Mustakin tomou nas mãos a bolsa que o misterioso personagem lhe oferecia. Era uma bolsa escura, de couro liso, como as que usavam os arrogantes recebedores de impostos.

Essa bolsa - esclareceu o mago - parece vulgar e inútil mas é maravilhosa e encantada. Toda vez que praticares um ato bom e louvável, aparecerá dentro dela uma moeda de ouro. Se a tua vida, como há pouco afirmaste, é um rosário de virtudes, poderás ao fim de pouco tempo possuir uma riqueza que excederá os tesouros do sultão! Que Allah, o Exaltado, não te abandone, ó Mustakin! Alahur akbar!

E saiu.

O pasmado Mustakin, que jamais conhecera os famosos cultores da magia, ficou imóvel no meio da "kubba", com a bolsa na mão, sem saber como julgar aquele estranho sucesso.

- Verificarei amanhã - pensou - se esta história de encantamento não passa de um simples gracejo de um Xeque extravagante.

Súbito, porém, as mãos lhe tremeram; verificara que a bolsa trazia por fora, em letras douradas, o seu nome "Mustakin Karuf" acompanhado de sinais cabalísticos indecifráveis. A dúvida desapareceu dando lugar à certeza. A bolsa era encantada.

 

***

 

Mal acabara de balbuciar a prece da madrugada, saiu Mustakin, depois de uma noite de vigília, levando na cintura a bolsa. Formara o intuito de praticar um ato bom e digno, a fim de obter pela virtude mágica da bolsa a sedutora moeda de ouro.

Ao aproximar-se da fonte de Hajar avistou um mendigo, de horripilante aspecto, sentado na laje da rua, ocupado em limpar com uma espécie de pente um cão magríssimo que se estendia a seus pés.

- Por Allah - murmurou Mustakin, com incontida alegria. - Eis que se me depara uma ocasião magnífica para praticar o preceito da esmola!

E aproximando-se acintosamente do mendicante atirou-lhe todas as moedas que com tanto sacrifício havia ganho na véspera.

Não há palavras que possam descrever o espanto que se apoderou do andrajoso pedinte ao receber uma esmola tão vultosa.

- Que Allah vos conserve, ó generoso amigo! - exclamou, enquanto arrebanhava sofregamente os dinares espalhados pela areia. - Seja a paz a vossa estrada...

Mustakin afastou-se e discretamente abriu a bolsa. Com dolorosa surpresa verificou que se conservava vazia. Onde o dinar de ouro que ali deveria estar?

- A moeda de ouro não apareceu - pensou Mustakin - e houve, bem o sei, razão para isso. O ato que acabei de praticar não foi um ato de perfeita caridade. Que fiz eu ao socorrer o mendigo? Dei-lhe algumas moedas na esperança de obter, em troca, quantia muito maior. Allah é justo e sábio, e lê no pensamento a intenção de cada um! Quem dá dez com a esperança de receber cem, não pratica a caridade!

 

***

 

Preocupado com tais pensamentos caminhava Mustakin, quando avistou uma velha que cruzava uma praça curvada ao peso de um enorme feixe de lenha. Era de causar pena o sacrifício que a infeliz fazia!

- Vou auxiliar aquela anciã - planejou Mustakin. - Tenho certeza de que irei, agora, praticar um ato de elevada piedade.

Ofereceu-se à desconhecida para transportar a pesada carga. E só deixou o feixe junto à porta do casebre em que a velha morava, muito longe da cidade, perto do rio.

E mal completara a fatigante tarefa que ele próprio se impusera, abriu a bolsa para admirar a prometida moeda de ouro. Nada encontrou.

- E não devia ser de outra forma - pensou Mustakin, procurando analisar o auxílio que acabava de prestar. - Que fiz eu, afinal? Ajudei uma pobre velha, e essa ajuda não passou de um esforço material que para mim nada representa.

 

***

 

Nesse instante ouviu Mustakin gritos que partiam do rio. Avistou no meio da corrente um menino que se debatia desesperado, em grave perigo, prestes a perecer afogado. Um pensamento, mais rápido do que o simum, atravessou-lhe o espírito. Que oportunidade ótima se lhe oferecia para por em prática um ato de incontestável heroísmo e abnegação! Sem hesitar um segundo, atirou-se ao rio e conseguiu trazer para terra a mísera criança. Camponeses e curiosos haviam se aproximado do local. Os pais do menino que fora arrancado à morte, graças à coragem e ao heroísmo de Mustakin, choravam de satisfação.

- Esse homem é um santo! - afirmava a velha do feixe de lenha. E de todas as bocas saíram, dirigidas ao abnegado salvador, palavras sinceras de louvor e gratidão.

Ao ambicioso Mustakin eram, entretanto, indiferentes os elogios com que todos lhe exaltavam o belo feito. Preocupava-o, como sempre, a preciosa moeda que devia estar a rebrilhar no fundo da bolsa encantada. Uma só? Não. Muitas! A proeza do rio merecia um punhado de ouro. Allah é generoso; a bondade de Allah não tem limites nem no impossível!

Afastou-se estouvadamente como um ébrio das pessoas que o cercavam, repeliu os que o queriam seguir por curiosidade, e longe dos olhares indiscretos abriu a sedutora bolsa do velho feiticeiro.

Que dolorosa desilusão para seus olhos ávidos! A bolsa continuava como sempre vazia; vazia e inútil, inútil como um punhado de areia no meio do deserto!

- Já compreendi a verdade - murmurou o desolado Mustakin. - Louvado seja Allah que me abriu os olhos para a realidade da vida! Esta bolsa encantada jamais poderá ter dádivas para mim. Não sei praticar o bem senão movido pelo interesse do ouro. E essa preocupação da paga que me deve tocar anula por completo o mérito de qualquer ação piedosa que eu venha a praticar. O homem justo pratica o bem sem olhar para a recompensa. Aquele que tem bons sentimentos auxilia seus irmãos desinteressadamente. A mácula da ambição jamais sairá da minha consciência e esta bolsa, enquanto estiver comigo, permanecerá vazia.

Que fez, então, Mustakin? Tomou uma resolução extrema, capaz de surpreender o mais impassível faquir da Índia.

Vou contar:

 

("Mil Histórias Sem Fim")

 

continua (Ainda a bolsa encantada)

 

voltar

home