Boi na estrada

 

Um bom período de nossas vidas, eu e a Jô – minha mulher – residimos na pequena cidade de Santa Cruz Cabrália, a 18 quilômetros de Porto Seguro, sul da Bahia.

Lá tudo era precário: a saúde, a educação, a água, a luz e outros itens considerados tão importantes pelos entendidos e pelas ONG's. Mas vivia-se – calmamente, sem atropelos, os homens fazendo um muro hoje, um pedaço de calçada amanhã, entrando nos quintais acessíveis para apanhar uma jaca ou alguns cajus. As mulheres cuidando dos filhos e da casa e fazendo comida.

Não achamos nada maus os cinco anos que ali moramos.

Pela distância de São Paulo, onde moravam – e ainda moram – os nossos filhos, fizemos algumas vezes aquela desgastante viagem de 1.700 quilômetros, sempre por alguma razão importante. Ora era para consultas médicas envolvendo o meu sogro, ora era para ver os filhos.

A propósito, a caçula – a Lia – estava cursando medicina na UNESP – Botucatu, e uma visita a ela representava mais duzentos e cinqüenta quilômetros.

Obviamente, não percorríamos todos os 1.700 quilômetros de uma só vez: parávamos duas vezes para descansar, pernoitar, tomar banho...

Certa vez, numa dessas viagens, juntamente com o meu sogro, saímos de Cabrália muito cedo. O tempo estava fechado e chuviscava, o que queria dizer que era necessário o máximo cuidado.

Mal havíamos rodado uns 150 quilômetros, envolvemo-nos em um acidente: algumas reses atravessavam calmamente a pista, sem ninguém que as dirigisse, em uma curva fechada. Não estávamos em alta velocidade mas, com a chuva que caía e a estrada muito escorregadia, não deu outra: atropelamos uma vaca que, literalmente, subiu no capô do carro e veio colidir com o pára-brisas, que despedaçou.

O animal caiu de volta na estrada e, em razão do impacto, ficou deitado.

Enquanto isso tentávamos sair do estado de quase choque em que nos encontrávamos.

Os nossos cabelos, a nossa pele, a nossa roupa, os bancos e o piso do carro estavam cheios de pequenos fragmentos de vidro.

Tentamos fazer uma avaliação da situação: o lugar era ermo, o carro estava bastante danificado, sem pára-brisas, o capô estava muito amassado e nós precisávamos, no mínimo, de um banho para nos livrarmos dos pedacinhos de vidro.

Súbito apareceu uma cabeça da nossa janela. Era uma senhora.

– Venham até a nossa casa – disse-nos ela – eu moro do outro lado da estrada. Lá poderão tomar um banho e se recompor.

Fomos, tomamos banho, mas tudo no escuro. A iluminação no banheiro - que não tinha janela - estava avariada, e o tempo chuvoso deixava tudo ainda mais escuro.

Procuramos saber quem era o dono dos animais, para reclamar. Aconselharam-nos a ir até uma cidadezinha próxima para registrar a ocorrência. Só que a delegacia estava fechada. São coisas da Bahia.

O melhor era continuarmos a viagem.

Mas como? E o pára-brisa? Estávamos ainda no começo da viagem e era impossível viajar sem pára-brisa por causa da chuva. Além de que era proibido.

Alguém nos encaminhou a um funileiro. Por sorte, ele tinha exatamente o que precisávamos: um pára-brisa usado, para o nosso modelo de carro.

Para colocar foi um drama, pois a parte da lataria que serve de moldura ao vidro estava toda amassada e torta. Com criatividade, paciência e boa dose de força, aquele profissional finalmente conseguiu encaixá-lo.

Não adiantava reclamar. Prosseguimos a viagem como se nada tivesse acontecido, parando nos lugares pré-determinados para pernoitar, até chegarmos ao nosso destino – São Paulo – com o capô todo amarrado com arames e cordas.

O episódio foi bastante desgastante - imagine a cena: uma vaca quebrou nosso pára-brisa e danificou o capô do nosso carro. Um verdadeiro desastre. Nunca tínhamos nos envolvido em nenhum, mesmo morando por muitos anos na Capital de São Paulo.

Na hora você não sabe o que fazer: chorar, se lamentar, xingar.

Bem, mas nada disso fizemos. Sabíamos que sobre as nossas vidas pairava a mão protetora do Senhor. Sim, protetora, pois nem imaginávamos o que poderia ocorrer sem a Sua presença.

"Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia" (Salmos 46:1).

 

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