Boa vontade

 

Tendo um homem adquirido uma fazenda, encontrou-se, dias depois, com um de seus vizinhos.

- O senhor comprou esta propriedade? - perguntou-lhe o vizinho em tom quase agressivo.

- Comprei-a, sim, meu amigo!

- Pois sinto dizer-lhe que vai ter sérios aborrecimentos. Com as terras, comprou, também, uma questão nos tribunais.

- Como assim? Não compreendo!

- Vou explicar. Existe uma cerca, construída pelo proprietário anterior, fora da linha divisória. Não concordo com a posição dessa cerca. Desejo defender os meus direitos e vou demandar.

- Peço-lhe que não faça semelhante coisa - retorquiu o proprietário. - Acredito na sua palavra. Se a cerca não está no lugar devido iremos e consertaremos tudo de perfeito acordo.

- O senhor está falando sério?

- É claro que estou!

- Pois se é assim - respondeu o reclamante - a cerca ficará como está. O senhor é um homem honrado e digno. Faço mais questão de sua amizade do que de todos os alqueires de terra.

E os dois vizinhos tornaram-se amigos inseparáveis, e essa amizade foi de grande utilidade para ambos.

Recebamos, sempre, com simpatia e boa-vontade aqueles que se aproximam de nós.

A simpatia e a boa-vontade repousam na mansidão.

A mansidão é uma das virtudes mais importantes da alma verdadeiramente cristã.

Os principais atos dessa virtude são:

 

1.° não permitir que se apodere de nossa alma outra ira senão a santa; irar-se contra o pecado, não contra o pecador; moderar a ira justa;

2.° não se enfadar por bagatelas, nem tomar como ofensa o que na realidade não o é;

3.° perdoar, por amor de Deus, as ofensas recebidas; não guardar rancor;

4.° ser afável com todos e não dar a ninguém motivo de irar-se.

Não se deve confundir a mansidão com certa apatia natural, nem com a interessada afabilidade dos mundanos, nem com a indiferença afetada dos estóicos, nem com o gênio tímido dos apoucados; porque estas qualidades, ainda que possam ter a aparência da mansidão, na realidade estão muito longe de o ser por faltar o motivo virtuoso e sobrenatural.

A ira nem sempre é má. É má quando falta o motivo justo ou quando passa do justo modo e medida.

Há também uma ira justa como foi a de Jesus quando expulsou do templo os vendilhões. "Irai-vos, porém não pequeis".

Pecam por ira os impetuosos que se enfadam por motivos insignificantes, os iracundos que se enfurecem demasiadamente, os rancorosos que guardam por muito tempo a lembrança das injúrias sofridas, os vingativos que não descansam até se terem desforrado.

 

(“Lendas do Céu e da Terra”) 

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