Bicicleta desgovernada

 

Morei muitos anos em Marília.

É uma cidade moderna, com muitos recursos. Tem o clima diferente de outras cidades da região, por estar em um espigão, o que faz com que seus dias e noites sejam mais frescos do que o de outras cidades, como Bauru, Tupã, Oswaldo Cruz e Dracena.

Exatamente por se encontrar num lugar bem alto, alguns pontos da cidade têm ladeiras íngremes.

Assim é que, onde morávamos, as ruas que saíam perpendiculares à Avenida Rio Branco desciam acentuada ladeira em direção a um buracão, oitocentos metros abaixo.

Era o caso em especial das Ruas Arco Verde, 24 de Dezembro, 15 de Novembro e São Luiz.

Certo dia fomos – eu e um de meus irmãos - ao mercado para comprar algumas verduras de que nossa mãe precisava.

O Mercado Municipal ficava cerca de duzentos metros, ladeira acima.

Levávamos pelas mãos a nossa bicicleta.

De lá para cá, a técnica de fabricação dos freios melhorou e, com isso, aumentou a sua segurança. Naquele tempo a coisa era precária. Havia freios em ambas as rodas, como hoje. Eles acionavam sapatas de borracha que, quando pressionavam as rodas, faziam a bicicleta parar. Eram constituídos por duas grossas varetas de ferro, que subiam das rodas em direção ao guidão. As pontas eram encaixadas uma dentro na outra e, depois de ajustada a pressão sobre as rodas, eram bem fixadas através de parafusos.

Só que nesse dia tudo deu errado. Subi na bike, meu irmão subiu atrás com as verduras, e iniciamos a descida de mais ou menos duzentos metros até a esquina de nossa casa.

Ao chegar na esquina que tínhamos que virar, acionei o freio traseiro e vi, assustado, que as varetas estavam desencaixadas. Acionei o dianteiro e horrorizado verifiquei que nem ao menos estava lá!...

E agora? Se continuássemos descendo a ladeira, com certeza iríamos nos esborrachar no buracão, com evidentes machucaduras.

O que fazer?

Ocorreu-me o seguinte: instrui o meu irmão para segurar-se muito bem, colocar o pé esquerdo levemente no chão. Eu faria o mesmo. Pretendia, a despeito da velocidade que a bicicleta alcançava, virar à esquerda na próxima esquina, que já estava bem abaixo da nossa casa, até que parássemos, por inércia.

E foi o que fiz.

Quando a bicicleta parou o nosso coração estava disparado. Só depois de alguns minutos estávamos em condições de terminar o percurso até nossa casa – empurrando a bicicleta na subida, é claro...

Nada de mal nos aconteceu, graças a Deus. Mas o susto foi grande.

 

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