O berço e o rei

 

O vizir Tela Fari narra um estranho episódio - O derxive Telibrã faz vaticínios diante de um berço - A profecia - O vizir pronuncia grave acusação - O rei que saiu do berço

 

Foi há quase dois anos passados. Quando meu filho Tufik completou o seu primeiro aniversário, ofereceu a um grupo numeroso de amigos uma festa noturna em meu palácio. Por sugestão de um escriba damasceno, chamado An-Haif, mandei que trouxessem esse dervixe. Queríamos ouvi-lo sobre o futuro de meu filhinho. Fazendo-o acompanhar de meus convidados levei-o aos meus aposentos.

O pequenino Tufik repousava em seu berço. Ordenei que se acendessem todas as lâmpadas. O ignóbil mistificador resolveu zombar cruelmente de mim. Encaminhou-se para o meio do aposento, voltou-se para o bercinho em que dormia meu filho e depois de fazer, com as mãos uma infinidade de trejeitos, proclamou solene:

- Deste berço há de sair um rei! - E apontava, como se fosse uma estátua, para o berço do pequenino.

Aquele augúrio encheu-me de entusiasmo. O futuro de meu filho seria glorioso. Reservava-lhe o destino um trono entre os tronos do mundo! Ouvi, de todos os que assistiram àquela cena, palavras de regozijo e efusivas congratulações. Tomei de uma bolsa com duzentos dinares e mandei oferecê-la ao dervixe.

Passaram-se as semanas; amontoaram-se os meses; novos Ramadãs se festejaram. Do meu pensamento não saíam as palavras proféticas do dervixe Telibrã - “Deste berço há de sair um rei!”.

E, no entanto, o estado de saúde do meu filho Tufik não era satisfatório. O pequenino vivia sempre doente. Febres terríveis abatiam-lhe o organismo. Antes de completar o quinto aniversário, faleceu! Era, pois, falsa, mentirosa, a profecia desse intrujão! Afirmou, com a segurança de sua ciência, que meu filho seria rei! E o infeliz menino saiu do berço para a sepultura.

E o vizir Tela Fari, tomado de indizível rancor, bradava, numa irritação crescente:

- Mentiroso infame! Mistificador!

E no excesso da indignação chegou a espumar pelos cantos da boca.

Aquela tremenda acusação, o velho neby ouvia-a impassível, os braços cruzados, a cabeça baixa. Quando o vizir deu por findo o relato, Telibrã resolveu intervir. Ergueu o rosto, voltou-se para o rei e, numa voz roufenha e impiedosa, assim falou:

- Posso afirmar, ó Vigário de Allah!, que esse preclaro vizir, com o coração ainda abalado pela morte de um filho querido, adultera as minhas palavras, aponta o erro e acusa engano, onde só existe certeza e verdade. A minha previsão naquela noite festiva foi: “Deste berço há de sair um rei!". Não me referia, é claro ao pequenino. Seria doloroso pungir, com palavras desalentadoras, um pai extremoso que sonha glórias imensas para um filho enfermiço. Aludi, pois, unicamente ao berço, dizendo: "Deste berço há de sair um rei!"

E após estes dizeres, encarando com serenidade o vizir, interpelou-o com surpreendente gravidade:

- E o berço, o jubiloso ulemá? Que fizeste do berço de teu filho?

Ao ouvir aquela pergunta expediu o vizir uma casquinada de riso desdenhoso e amargo.

- Tranqüiliza-te, imbecil. Ben Debb (filho de um asno) - replicou o vizir, levando a mão ao peito como se quisesse conter o coração convulso - não me desfiz, ao acaso, do berço de meu filho. Não o vendi a outra família. Temi que, por ironia do Destino, fosse alguém confirmar o teu vaticínio mentiroso Queria desmascarar-te, intrujão! Desmanchei o berço, queimei algumas peças, e a parte restante, toda de ébano, conservei-a comigo durante muito tempo! Há duas ou três semanas ofereci-a ao imã da mesquita!

- Pois o imã dirá se menti ou não! – atalhou o dervixe, com um sorriso de piedosa lástima.

Determinou o rei que fossem imediatamente buscar o zelador do templo.

Quando o velho imã chegou, o próprio califa foi o primeiro a interrogá-lo.

- É verdade, meu amigo, que recebeste do vizir Tela Fari algumas peças de ébano?

- Sim, o Rei! - confirmou o interpelado.    Era o que restava de um berço antigo que pertencera ao vizir!

- E que fizeste com Esses pedaços de madeira? - insistiu, conciliador, o rei.

Respondeu o imã erguendo para o califa a face requeimada:

- Dedico as minhas horas feriadas a pequenos trabalhos de carpintaria. Faço cofres, caixas, argolas, pulseiras, cachimbos e dezenas de adornos caseiros que os mercadores tanto apreciam. Com a fina madeira que recebi do nosso ilustre vizir, fiz uma coleção completa de peças para o jogo de xadrez!

- E entre essas peças não há uma chamada rei! - acudiu com voz lenta, o dervixe.

- Sim  - respondeu o imã. — Há um rei!...

Concluiu vitorioso o dervixe:

- Reparai, ó Emir! O futuro veio confirmar a minha previsão. Do leito precioso em que repousava o filho do vizir "saiu" um rei!

Ia o rei Baribê comentar aquela estranha coincidência, quando um dos oficiais veio com a nova de que Nagib, o Egípcio, acabara de chegar.

Estava prestes a realizar-se o casamento do Egípcio com a jovem Nedjma, filha do Xeque Ahmed Kamil.

 

(“Aventuras do Rei Baribê)

 

continua ("Finalmente o casamento")

 

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