A bela adormecida

 

A linda morena dos cabelos ondulados - A fatalidade de um erro de orientação

 

Achei-me numa sala modestamente decorada. Sobre um divã forrado de veludo dei com os olhos numa cena que me deixou inteiramente perturbado. Achava-se ali, de braços desnudados e rosto descoberto, mergulhada em profundo sono, uma criatura do sexo brando, a mais linda que tenho visto no mundo. Era morena, de um moreno mais doce do que a tâmara de El-Medina; os lábios finos encheriam de inveja os corais de Omã. A cabeleira castanha, de irresistível atração, era toda ondulada. Naquelas ondas eu afogaria todos os meus sonhos!

Vestia um vestido de seda azul fina e delicada.

Desse vestido diria o poeta:

"Nem tudo deixa ver, nem tudo esconde."

Permaneci de pé, imóvel, a admirá-la. Louvado seja Allah, o Único, que soube encher o mundo de tanta beleza e poesia!

Decorridos alguns momentos a deliciosa menina abriu os olhos. Tive a impressão de que um dilúvio de luz se derramava de seus olhos negros, rasgados, aveludados.

- Louvado seja Allah! – murmurei - e nunca fui tão sincero.

Ao topar comigo ali, em seu aposento, uma expressão de espanto toldou-lhe as linhas perfeitas do rosto. Levantou-se rápida, relanceou-me um olhar da cabeça aos pés e gritou:

- Buia! Buia! (“meu pai!”)

E como uma corça perseguida por um bando de panteras, fugiu por uma porta no fundo da sala.

Surge-me, no mesmo instante, vindo não sei de onde, um velhote baixo, meio vesgo, nervoso, que me interpelou com energia:

- Que fazes aqui, ó muçulmano? Como tiveste a audácia de entrar neste aposento?

Disse-lhe o meu nome, falei-lhe da minha profissão e expliquei-lhe, em poucas palavras, o fim da minha visita.

- Estás enganado – explicou-me o velhote já mais calmo. A casa do taleb que é, aliás, meu amigo, fica do outro lado da rua e à entrada da mesquita.

“Allahur Akbar!” - disse de mim para mim. Um erro de orientação conduzira-me àquela casa. Mas que engano feliz!

E decidido a captar, com palavras prazenteiras, a simpatia daquele bom maometano, interroguei-o, interessado em prolongar a minha inesperada visita:

- E o senhor não gostaria de ver as preciosas pérolas que trago?

- Sim, sim, - respondeu. - Mostra-mas!

Abri a bolsa e retirei os colares.

O velhote ficou deslumbrado.

- Que beleza! Que beleza! - exclamava com arrebatamento.

E depois, virando ligeiramente o rosto, chamou com meiguice:

Djohar! Djohar! Vem cá, minha filha!

Que coincidência! A linda morena tinha o nome de "Pérola" e eu, um mercador de pérolas!

Pouco depois reaparecia a jovem que eu surpreendera adormecida. Trazia, desta feita, o rosto formoso coberto por espesso véu. Percebi que ela mal sabia dissimular o embaraço que a constrangia.

- Que é, meu pai? - perguntou com um fiozinho de voz. “De voz”, digo, porque não há, em árabe, termo que exprima aquele cantar.

Respondeu o velhote:

- Repara que lindas pérolas traz este bom mercador!

Ao vê-la aproximar-se juntei, num gesto rápido, todos os colares e escondi-os no fundo da bolsa.

- Que é isto, mercador? - repreendeu o dono da casa. - Não queres que minha filha admire tuas pérolas?

- Senhor! - respondi prontamente. - Diante da beleza sem par de sua Djohar, as minhas pérolas vão sentir-se envergonhadas. Escondo-as para não as humilhar. Djohar é o maior tesouro que já vi em toda minha vida!

- Pela honra da mãe do Profeta! - retorquiu a jovem, com ar de graça, fitando-me com seus olhos negros e curiosos. - És muito gentil, ó mercador! Quero ver as tão famosas pérolas de Omã!

E sorriu para mim benévola e lisonjeada.

Abri de novo a bolsa e dela despejei todos os colares.

Duas horas depois, ao entardecer, quando deixava a casa de Obeyd (assim se chamava o pai da formosa morena), trazia a bolsa vazia de pérolas e o coração a transbordar de amor. Três dias depois pedi Djohar em casamento e ofereci-lhe de dote os três preciosos colares. Cada um deles valia mais de mil dinares!

Fixou-se, afinal, o dia de meu casamento. Sentia-me o homem mais feliz do mundo. Mal poderia prever que o Destino me preparava a mais triste e a mais dolorosa das surpresas.

Vou contar-vos a trágica aventura do meu malogrado casamento.

 

(“Aventuras do Rei Beribê”)

 

continua ("Os trocadilhos")

 

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