O banquete

 

O rei Baribê oferece um banquete - andorinhas fritas e faquires excêntricos - tartarugas com amêndoas e dançarinas - Um licor precioso - O rei exige a presença de uma escrava

 

O céu azulado de Bagdá assinalava tranqüilo a terceira lua do mês de dul-ka-dê (novembro) . Raiava para a famosa cidade dos califas um dos dias mais festivos e gloriosos de sua longa e agitada existência.

Sabia-se que o generoso rei Baribê iria comemorar as esmagadoras vitórias de suas forças contra os revoltosos persas, num imponente banquete oferecido aos seus oficiais. vizires e nobres muçulmanos.

Outro motiva ainda, emprestava àquela festa uma importância quase histórica. O primeiro vizir mandara anunciar que, durante o banquete, o Emir dos Crentes assinaria um decreto de palpitante interesse para o país. Quais seriam os termos da nova disposição! Que problema social ou político iria abordar e resolver? Os homens mais esclarecidos, os ulemás e os judiciosos talebes preocupavam-se com o caso, aventando desencontradas e imaginosas conjecturas.

Prometia o festim revestir-se de um brilho jamais igualado, nem mesmo nos gloriosos tempos do sultão Harum Al-Raschid (Que Allah o tenha entre os eleitos!). Desde muito cedo as espaçosas cozinhas do palácio regurgitavam de ativos e incansáveis serviçais. Para atender ao paladar apurado dos ilustres convivas, preparavam-se as mais delicadas e finas iguarias. As aves, tão apreciadas pelos Xeques, mereciam cuidados especiais. Grandes pavões de espeto levariam como adorno as próprias penas coloridas; faisões, perdizes, pombos e galinhas enchiam as assadeiras, sob a fiscalização permanente de hábeis escravas; um enorme avestruz recheado com miúdos de javali, azeitonas gregas e cebola (o chamado avestruz à Baribê!), levado inteiro ao forno, dava de si um aroma capaz de estontear os mais inapetentes. Havia, ainda, lombos de girafa, guisados de peixe com tâmaras secas. silveiras de veado, saladas de andorinha, cozido de carneiro com camarão cru, sopas de rã, bolos de tartaruga com amêndoas, pastéis de ostra com leite de camela, doces, frutas, tortas e mil outros acepipes.

Para divertir e animar os convivas mandara o rei contratar vinte músicos armênios, sete dançarinas, quatro lutadores hindus e nada menos de três faquires excêntricos que mastigavam vidro com brasa, liam sortes e se deitavam nus sobre lâminas afiadas.

Quando o rei Baribê, com seu diadema de ouro e brilhantes, entrou no salão de banquete, todos os oficiais sacaram de suas espadas e bradaram:

- Que Allah, o Exaltado, conserve o nosso rei! - porque na Arábia, mais de uma vez, os reis haviam morrido de indigestão!

Acomodou-se o monarca em seu lugar de honra; à sua direita, em amplo coxim de veludo e seda, postou-se de pernas cruzadas o prestigioso vizir Chamseddin, conselheiro da corte; à esquerda do califa tomou lugar o general Velid, apelidado Dik-el-djin.

Entre os convidados de honra destacavam-se três príncipes da Síria e um poeta rico e famoso (mais rico do que famoso), chegado, dias antes, de Córdova.

O vizir Chamseddin correu rapidamente o olhar pelos circunstantes para certificar-se da presença dos amigos prediletos do rei. Avistou logo o alegre Nagib, o Egípcio, que dez dias antes desposara a encantadora Nedjma. Nagib palestrava animadamente com o Xeque Madyã e com o sábio filólogo Mostacini.

Nagib Noturno não pudera comparecer ao banquete. Dois dias antes, em companhia do velho Hayek, seguira para Basra, onde fora exercer, por ordem do rei, as honrosas funções de quaimacã (prefeito).

E o jovem Noturno deixava Bagdá sob a névoa de um profundo e torturante desgosto. É que a diligente polícia do rei, por mais esforços que fizesse (pesquisas, buscas e interrogatórios) não lograra obter a menor informação sobre o paradeiro da delicada Halcima, misteriosamente raptada de sua tenda por bandoleiros do deserto.

O fracasso da policia bagdali não se fizera sentir apenas no caso de Halcima. Por maior que fosse o interesse do califa, nada se conseguira apurar em rela-cão a Myriam, a cristã, sobrinha do vizir Tela Fari, misteriosamente citado pelo dervixe Telibrã durante o casamento de Nedjma.

Halcima e Myriam, a cristã, eram dois enigmas que desafiavam a argúcia dos investigadores do rei Baribê.

A um ligeiro aceno do Xeque Motased, chefe das cozinhas, teve início o memorável banquete. Os servos entraram a trazer, solícitos, as apetitosas iguarias, desde os pastéis de pombo com açúcar perfumado até os bifes de corça com coalhada fresca.

Os músicos deleitavam os convivas com suas repousantes melodias; graciosas bailarinas descreviam, num largo estrado, volteios que eram demonstrações eloqüentes do encanto da Geometria. Os lutadores rolavam, aos socos, num tapete de couro de hipopótamo, e os faquires operavam prodígios, atirando para o ar e recolhendo, com irritante precisão, os seus longos e afiados punhais.

Dominava inteira alegria; largas e ruidosas risadas cortavam, por vezes, o surdo rumorejar das palestras. Aumentava a animação da festa a ansiosa expectativa reinante entre os comensais. Sabiam todos que, no final do banquete, o rei Baribê iria surpreender o povo e deslumbrar o país com uma nova lei de enorme projeção social.

- Mas afinal, que irá regulamentar o rei?  - indagava em voz baixa um médico da corte a um jurisconsulto ilustre que, a seu lado, devorava uma torta de pêssegos.

Cochichou o jurista mastigando a torta e as palavras:

- É uma lei regulando, para todos os árabes e islamitas, a liberdade de pensamento.

- Qual nada! - casquinou um nobre, passando a aba do dedo indicador nos lábios besuntados de manteiga. - Verão que a nova lei visará a garantir as nossas fronteiras!

Súbito a atenção geral foi despertada por um brado do Xeque Motased:

- Podem sair!

Retiraram-se, imediatamente, as dançarinas, os andrajosos faquires e os hindus que se esmurravam. Os músicos silenciaram seus instrumentos.

A sala foi invadida por dezenas de escravas morenas que traziam, em pequenas taças chinesas, uma bebida quente, negra como carvão, e que exalava um delicioso aroma

- Iallah! - exclamavam todos, saboreando aos pequeninos goles o conteúdo das taças.

O rei Baribê, depois de prelibar, vagarosamente, a nova bebida, bradou com alegre e contagiante entusiasmo:

- É uma bebida digna do nosso santo Profeta Maomé (com ele a salvação e a glória!).

Todos os nobres, erguendo as taças, concluíram:

- Iallah! Que delicioso licor!

- Como se chama esta bebida? - indagou o rei ao chefe de seus serviçais.

O Xeque Motased respondeu:

- Esse licor precioso, que dá ânimo aos fracos, saúde aos combalidos e vivacidade aos tímidos, chama-se ahwah! Para alguns povos é o "café"!

O califa, depois de sorver outra taça, quis saber quem havia preparado aquele maravilhoso ahwah! Respondeu o corpulento Motased:

- Foi uma escrava do palácio!

- Quero conhecê-la! — declarou logo o rei. - Deve ser uma criatura talentosa e interessante! Manda chamá-la!

A ordem foi transmitida a um dos servos. A humilde escrava que tivera a habilidade de preparar o ahwah para o banquete ia ter a honra de ser apresentada ao glorioso rei Baribê, Príncipe dos Crentes, sombra de Allah na terra!

 

("Aventuras do Rei Baribê")

 

continua ("Myriam e Alcima")

 

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