
Três ou quatro dias depois viu-se Salim envolvido, ou melhor, enrodilhado em estranha aventura e foi levado, por obra exclusiva do Destino - Maktub! - a praticar a primeira mágica, totalmente involuntária de sua vida.
Voltava Salim do açougue onde fora comprar um bom pedaço de carneiro. Em dado momento lembrou-se de que havia esquecido de comprar na loja de seu amigo Chalub (e comprar fiado) um par de babuchas (pantufas) - coisa bem modesta - para Nurenahar. Salim não tinha dinheiro para adquirir as babuchas; mas com o Chalub seria, como já disse, no sistema do fiado. Sua esposa, pela manhã, advertira-o várias vezes: "Salim! Não te esqueças das babuchas! Compra fiado no Chalub. Não te esqueças das babuchas!".
Salim, sempre distraído, em estado de permanente alheamento, esqueceu-se das malditas babuchas. Ora, as babuchas! Que azar! Voltar ao mercado? Retornar à loja do Chalub? Era impossível. Já estava muito longe. Nurenahar, na certa ia aborrecer-se com o caso.
E caminhando para casa, o nosso bom Salim, envencilhado pela contrariedade, monologava e gesticulava como um demente: - "Quê fazer? Esqueci as babuchas! Que direi, como desculpa, a Nurenahar? Que coisa! Levo o carneiro, bem pesado; levo meia dúzia de figos maduros; levo uma romã, e não levo as babuchas... Se eu tivesse dez dinares compraria as babuchas numa loja qualquer. No Chirity, por exemplo. No judeu Elias Chirity. Mas fiado, só no Chalub... As babuchas...".
Mercadores apressados, que cruzavam com o Salim, comentavam:
- Esquisito! Pelo templo de Meca! O mágico Salim caminha para a casa falando sozinho! Que teria acontecido? Que irá acontecer?
Ninguém ousava esclarecer o caso. Seria uma loucura? Todos respeitavam o mágico. Os damascenos são muito ciosos daqueles que possuem poderes extranaturais. Quando um mágico fala sozinho alguma coisa está para acontecer no Céu ou na Terra. Há um certo esfuziar do mistério.
E os pombos pousavam no turbante de Salim. Salim era mágico. E mágico autêntico!
("Salim o Mágico")