As rajadas de vento

 

 

Ao regressar vitorioso de suas guerras de conquistas pelo mundo, o imperador Adriano convocou os cortesãos e declarou num tom de excepcional gravidade:

- Dado o poder de que disponho, e em virtude da força incalculável que represento, exijo de agora em diante que me considerem como um Deus! Elevou-me o Destino ao plano da Divindade!

Mal ouvira tal declaração adiantou-se um dos nobres e disse jubiloso ao rei:

- Uma vez que sois um Deus, imploro desde já o vosso precioso auxílio. Podeis, senhor, ajudar-me nesta hora de grave inquietação em que me encontro?

- Que aconteceu contigo? perguntou o imperador com vaidosa entonação. - Em que poderei auxiliar-te?

- Preocupa-me a situação em que se encontra um de meus bons navios. Acha-se essa galera parada a três milhas da costa. Reina, há já vários dias, absoluta calmaria e o navio, com grave prejuízo para mim, não pode alcançar o porto!

- Isso é simples - declarou logo Adriano, com ostensiva indiferença. - Mandarei uma frota, tripulada por bons remadores, que o fará navegar.

- Para que tão grande incomodo acudiu pressuroso o áulico, com um sorriso impertinente. - Com algumas rajadas de vento a galera estará salva!

- Mas aonde irei eu buscar o vento? - esquivou-se o imperador.

- Se não sabeis como obter duas lufadas de vento, muito fraco é o vosso poder. Como pretendeis arrogar-vos dos atributos de Deus, que criou o vento e faz bramir os vendavais, se não conseguis perturbar com duas rajadas a calmaria do mar?

Tão justa e sábia advertência fez calar o poderoso monarca e deixou-o confuso e constrangido diante de sua corte.

 

("Lendas do Povo de Deus")

 

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