Apaixonada

 

Ivan Ângelo

 

Movida pela raiva e pelo ressentimento, Carol pegou todas as cartas de amor do seu amor, relíquias de uma relação de confiança inabalável e de irreprimidas declarações escritas, pegou aquelas trinta e nove cartas guardadas na primeira gaveta da cômoda, cartas que relia nos momentos de saudade do ausente, juntou com as fotos dedicadas por ele e jogou tudo no lixo.

A paixão é um sentimento de risco. Porque não admite erros. Qualquer falha da outra pessoa na área sensível da confiança joga o apaixonado na irracionalidade.

Depois de se desfazer das cartas do traidor, ela passou um tempo gozando a satisfação de saber que ali na porta da casa elas esperavam a passagem dos lixeiros, espremidas no saco preto de plástico com rejeitos da cozinha, cascas de frutas e flores murchas. Restos, tudo resto.

Ouvidos atentos ao que se passava lá fora mesmo enquanto assistia à novela, Carol aguardava os barulhos inconfundíveis do caminhão de lixo, aquela suspensão socada, as pás trituradoras girando e compactando os sacos. Só depois de completo o serviço consideraria banidas as mentiras, punido o infame.

O caminhão chegou, parou na sua porta. Ela sabia o que estava acontecendo em cada momento, ouvia os passos pesados dos homens de galochas, o som abafado do saco jogado na goela malcheirosa, as pás trabalhando, o carro se afastando em marcha reduzida e pesada, recolhendo outros sacos...

Nesse momento escutou um gemido. Tensa, procurou identificar de onde ele vinha, girando a cabeça aos arrancos como uma galinha, esperando ouvi-lo outra vez para ter certeza de que não fora ela.

Ouviu, e era ela quem gemia.

Correu, abrindo portas e portão, arrependida, iluminada, aquelas cartas eram a parte do seu amor que deveria guardar, não os podres que vieram depois, tinha de jogar no lixo era o que veio depois. Gritou, alcançou o caminhão, explicou o motivo de sua aflição, mas o motorista afirmou que era impossível regurgitar ali o lixo compactado.

Ela falou que iria com eles até o lugar onde iam descarregar. Ele preveniu: "É perigoso, dona. É lixão da periferia". Ela disse que iria só para marcar o lugar exato, que depois a deixassem em algum lugar, voltaria com Deus. O homem, perturbado por tanta obstinação e prevendo alguma vantagem, aceitou. Paixão é risco.

Fincou na escuridão do lugar um galho de mamona, a coisa mais imprestável que encontrou. O caminhão ia voltar para coletar mais lixo no bairro dela e o homem a deixou num bar com telefone em troca de uma nota de 10.

De manhã cedinho ela voltou ao lixão, fervorosa e confiante, de galochas, luvas de borracha, máscara e garfinho de jardinagem. Insana mas limpinha. O galho de mamona estava arrancado, não se podia ter certeza de que o lugar fosse aquele. Orou e começou a escarafunchar a imundície.

Por volta do meio-dia ainda estava lá. Sol forte, cheiro péssimo. Pessoas catavam, separavam coisas. Uma mulher reparou que ela não pegava nada, só procurava. Apenas concordou: "É". A mulher contou: "Já achei aliança. Radinho de pilha. Monte de fita pornô. Faca de cozinha. Dentadura. Celular. Aquele ali diz que tá procurando jogo da loto premiado, jogou fora por engano. Pra mim, tudo que vier é lucro. Cê tá procurando o quê? Anel?" Ela resolveu falar: "Cartas, um pacote de cartas de amor, amarrado com fita azul. Você viu?".

Voltou no segundo dia, obstinada. No terceiro, a televisão foi falar com a mulher branca, nova, bem-arrumada, que procurava cartas de amor no lixão.

Um homem apareceu e pôs-se a convencê-la de que deveria esquecer aquela história, começar outra. Trazia-lhe café e bolachas, conversavam. Um dia ele disse que não ia voltar. Ela cravou o garfo num saco, encontrou as cartas, olhou o homem que se afastava, deixou-as lá e foi atrás dele. 

 

http://veja.abril.com.br/vejasp/161105/cronica.html

 

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