Ao terceiro tiro o havaiano zangou-se

 

Narrativa épica da coragem e fidelidade dos habitantes das Ilhas do Havaí, ao repelir o primeiro invasor japonês

 

Blake Clark

(1943)

 

Os duzentos e poucos havaianos que moram na pequena e florida ilha de Niihau não sentem falta de luz elétrica, automóveis, telefones e aparelhos de rádio, dispensando até whiskey e fumo, que são, aliás, proibidos. Por gerações e gerações, eles se têm dedicado à criação de gado, sem dar muita atenção à confusão que reina no resto do mundo. Mas por ocasião do ataque à América esse pedacinho de terra, o mais remoto e tranqüilo recanto do mundo, foi logo no primeiro dia arrastado à luta. Pois o primeiro invasor japonês a por pé em solo americano o fez na ilha de Niihau.

Por volta das duas horas da tarde de 7 de dezembro de 1941 um avião japonês de combate deu umas voltas sobre a aldeia e fez uma aterrissagem forçada. Abatendo-se sobre o terreno pedregoso e derrubando uma cerca, veio parar perto da casa de um dos vaqueiros da ilha, Hawila Kaleohano.

Hawila correu para investigar o avião. Abrindo a porta da cabina, viu um japonês pegando o revólver. Hawila agarrou a arma, e arrancou o piloto do avião, rebentando as correias que o prendiam ao assento. Quando o piloto, todo confuso, se levantou do chão, Hawila notou que ele procurava alguma coisa que trazia escondida dentro da camisa. Percebendo imediatamente do que se tratava, o havaiano apoderou-se dos mapas e papéis que o piloto trazia.

O japonês conseguira chegar até ali, mas Hawila por enquanto era senhor da situação.

Acorreram homens, mulheres e crianças. Dirigiram algumas perguntas ao piloto, mas este fez que não compreendia palavra de inglês, o que, aliás, ficou verificado ser mentira. Por isso mandaram buscar Harada, o abelheiro, um dos dois japoneses que moravam na ilha. Quando ele chegou para servir de intérprete, o piloto recusou explicar os furos de balas no seu avião, e confessar que Honolulu havia sido alvo de ataque — fato que os naturais da ilha já suspeitavam, apesar de que só uma semana mais tarde, viriam a receber as notícias do ataque.

Os habitantes da aldeia reuniram-se em conselho, e decidiram deter o prisioneiro japonês até que Aylmir Robinson, o dono da ilha e seu único habitante de raça branca, regressasse de sua viagem semanal em busca de provisões. Meteram o japonês numa casa, deram-lhe de comer, e vigiaram-no durante a noite toda.

Decorreram porem muitos dias sem que Robinson aparecesse; de fato, só voltou depois de finda a batalha de Niihau. Por isso os naturais decidiram que, dc fato, «algo de muito sério» se estava passando nas ilhas. Levaram o prisioneiro para a casa de Ilarada—a pedido do próprio Hlarada—e aguardaram os acontecimentos.

Quinta-feira à noite, segundo parece, o prisioneiro havia completado os seus planos de fuga. Primeiramente, tivera que ganhar para a causa os seus dois compatriotas: Harada, cidadão americano nascido nas Ilhas Havaí, e Shintani, um japonês mais idoso que vivera em Niihau já muitos anos. Talvez o piloto lhes falasse em termos nostálgicos daquela fidelidade eterna ao Deus-Imperador que os tinia à terra natal. Talvez ameaçasse matá-los se não fizessem o que ele, o samurai, ordenava. Ao menos, conseguiu persuadi-los a ajudá-lo.

Na manhã seguinte, bem cedo, Shintani apareceu à porta da casa de Hawila: poderia ele, por favor, entregar-lhe os papéis que apreendera ao piloto? Este estava sarado e queria que lhos restituíssem.

Hawila recusou.

Então o piloto se prontificava a pagar generosamente pelo simples favor de ver queimados os papéis. Shintani mostrou duzentos dólares em notas dos Estados Unidos — muito mais dinheiro do que Hawila vira em toda a sua vida.

«Huakcle!» (Dê o fora, já!) gritou Hawila.

Shintani sumiu, sem que ninguém mais pusesse os olhos nele. Aparentemente, temendo confessar ao piloto que falhara na missão, fugiu para o mato.

Não se sabe por que o piloto dava tanto valor aos seus papéis. Talvez revelassem as posições dos porta-aviões que serviram de base para o bombardeio de Pearl Harbor, ou contivessem qualquer código secreto.

Enquanto esperava em vão a volta de Shintani, o piloto pediu permissão para dar uma volta pelo armazém onde trabalhava o Harada — para fazer um pouco de exercício. Os havaianos não podem deixar de tratar até os seus prisioneiros como hóspedes; por isso, um dos guardas, Hanakai, foi escolhido para acompanhar o prisioneiro. Desde que se viram dentro do armazém, o piloto agarrou uma espingarda que Harada ali tinha para seu uso, e Harada puxou do revólver que o piloto de alguma maneira havia recobrado. Ameaçando matar o pobre Hanakai, que estava desarmado, caso fizesse ele um movimento sequer, os dois japoneses, saíram do armazém, trancando em seguida a porta.

Apoderando-se de uma carroça, Harada e o piloto se dirigiram à casa de Hawila. Mas este os viu aproximar, e fugiu pela porta dos fundos para dar alarme pela aldeia afora. Hanakai, que escapara pulando de uma janela alta do armazém, apareceu novamente para ajudar a espalhar o alarme.

Harada e o piloto deram busca na casa de Hawila, mas não encontraram os papéis. Desnorteados, tiraram as duas metralhadoras do avião, colocaram-nas no meio da rua principal da aldeia e começaram a atirar a torto e a direito. Os habitantes da ilha, ouvindo barulho de tiroteio pela primeira vez em suas vidas, fugiram para o mato.

Os dois japoneses então saíram a revistar sistematicamente a aldeia. Levando consigo as metralhadoras e armados também com a espingarda e o revólver, — as únicas armas de fogo de toda a ilha — foram de casa em casa, ameaçando matar todo mundo se Hawila não lhes entregasse os papéis. Mas só acharam em casa uma senhora muito idosa, a velha Huluoulani.

A velha lia calmamente a sua Bíblia. Recusou estoicamente dizer-lhes onde estava Hawila. Quando ameaçaram matá-la se não lhes desse a informação, a velha Huluoulani respondeu que só Deus tinha poder sobre a vida e a morte — e continuou a ler a sua Bíblia. Os japoneses fitaram-na um momento, cochicharam um pouco, sacudiram as cabeças e foram-se embora:

Enquanto isso, Hawila convocara um conselho de guerra numa mata de cactos, fora da aldeia, onde se ajuntara o povo. Tomaram algumas decisões. Primeiro, esconder todas as mulheres e crianças em cavernas, durante a noite. Segundo, expedir Hawila e cinco homens fortes para a ilha de Kauai, a cerca de vinte e quatro quilômetros dali, para trazer socorro. E em terceiro lugar, procurar agarrar os japoneses durante a noite, caso dormissem.

Mas antes de fazer outra coisa, deveriam pedir o auxílio divino.

Com o cair da noite, dirigiram-se silenciosamente para a pequena capela e, de joelhos no soalho rústico, levantaram as suas preces.

Hawila e os companheiros conseguiram tirar os cavalos das cavalariças. Foram descobertos pelos japoneses justamente quando montavam, e saíram da aldeia perseguidos por uma chuva de metralha. Chegando a galope ao cais de Kii, lançaram na água a baleeira, reservada para as emergências. Horas mais tarde alcançaram a ilha de Kauai, após atravessarem as águas encrespadas do estreito.

A pequena lancha de abastecimento do farol saiu imediatamente em direção a Niihau com um pelotão de infantaria. Mas em Niihau, os acontecimentos se haviam precipitado, antes da chegada dos soldados.

Beni Kanaheli, cujos cinqüenta e um anos o coroavam de sabedoria, por longo tempo fora chefe do seu povo. Media dois metros de altura, e dizia-se que era capaz de levantar do chão, de uma vez, três caixote de mel de sessenta quilos cada um.

Decidiu-se a fazer um raide ao depósito de abastecimentos do inimigo. Devagarzinho, pé ante pé, subiu a rua escura e, aproveitando um momento em que os japoneses desapareciam dentro de uma casa, conseguiu surripiar toda a munição das metralhadoras.

Os japoneses continuaram a rebuscar as casas até de madrugada. Mas nada dos papéis. Enfurecidos, incendiaram a casa de Hawila, deixando-a em cinzas. Então jogaram gasolina no avião e reduziram-no também a cinzas. Provavelmente esperavam apoderar-se da sampana a motor que deveria trazer à ilha o senhor Robinson. Se a sorte lhes fosse favorável, poderiam nela alcançar as Carolinas. Beni levara a esposa para a praia, por ser mais garantido. De madrugada, voltavam ambos quando de repente depararam cara a cara com o piloto e Harada, armados de espingarda e do revolver.

Beni não gostou lá muito disso. Sem um movimento sequer que os pudesse prevenir, pulou sobre o piloto japonês.

Durante um instante rolaram os dois para um lado e outro. Então o piloto conseguiu desembaraçar a mão direita, em que empunhava o revolver.

Mas a esposa de Beni — à moda das antigas mulheres havaianas, que acompanhavam os maridos aos campos de batalha —lançou-se na luta agarrando o braço do piloto antes que este pudesse atirar. Então Harada meteu-se no conflito, travando luta com a mulher.

Beni gritou para Harada que largasse a mulher, senão o mataria. Harada não lhe deu atenção e empurrou a mulher.

O piloto, desembaraçada a mão que agarrava o revolver, deu um tiro no ventre de Beni, sem que este o soltasse. Atirou nele outra vez, e desta atingiu-o na coxa. Beni ainda o segurava firme. O terceiro tiro se enterrou na virilha do gigante havaiano.

— Aí, disse Beni com simplicidade ao americano a quem mais tarde contava a sua história, — aí perdi a calma e me zanguei.

Agarrou o japonês por uma perna e pelo pescoço, como costumava apanhar as ovelhas do seu rebanho, e com toda a força deu com a sua cabeça de encontro a um muro de pedra.

Virou-se então para Harada — justamente no momento em que este esvaziava os canos de espingarda no seu próprio ventre segundo a louvável técnica do hara-kiri. Procurou então certificar-se de que o piloto não recobraria os sentidos. Mas a mulher já se encarregara dele, desmanchando-lhe os miolos com uma enorme pedra...

— Ela estava bem hu-hu (zangada), a minha mulher! — dizia depois Beni. — O que fez, fez bem direitinho...

Por esse tempo, com três balas cravadas no corpo, Beni já não se sentia tão bem. Sentou-se junto ao muro de pedra ensangüentado, enquanto sua mulher foi buscar socorro na aldeia. Contudo, cansado de esperar, encaminhou-se para a aldeia, sozinho.

Assim terminou a batalha de Niihau. Fora coroada de êxito a primeira defesa do solo americano na Segunda Guerra Mundial!

Mais tarde o major-general Rapp Bush condecorou Hawila e Beni com as medalhas da Legião Americana.

Lá em Honolulu dissemos depois: "É o que se pode esperar de guerreiros havaianos da marca de Beni e da esposa, de Hawila e da velha Huluoulani, — uma história épica de coragem e fidelidade”.

E acrescentamos: “Convém mesmo prevenir os japoneses de que não devem atirar nos havaianos mais de duas vezes. Pois, com a terceira bala, acabam ficando zangados...”

 

(Seleções do “Reader’s Digest”, abril de 1943)

 

voltar

home