Areias, 15.9.1908
Rangel:
Temos velhas contas a justar. No bilhete em que declinas do cargo de cronista da Ascensão, há isto: "Não pude ler o Sur la Pierre Blanche!".
Não pôde? Impossibilidade material, como olho furado? Proibição da polícia? Ou não pudeste ler por inferioridade da obra, ilegibilidade do Anatole France?
Não podendo tomar o "não pude" no primeiro caso, tomei-o no segundo - e sinceramente desejei que Hércules ressuscitasse para fazer em teu cérebro o que fez nas cavalariças de Áugias.
O pobre Anatole nasce com fortes aptidões filosóficas e estéticas; educa-se laboriosamente durante cinqüenta anos de vida européia; afinal, apura, lapida as qualidades ingênitas de pensador e artista da expressão; consegue atingir a meta suprema - vários Everests ainda não atingidos, entre eles o de "associar às verdades extensas da Ciência às verdades profundas da Poesia"; escreve o Le Lys Rouge, onde bate Dante e Petrarca na descrição do maior amor que jamais existiu; cria um gênero em que ele ainda está só, uma arte nova - a de engastar raios de ironia na gema da forma; eleva o Paradoxo à estratosfera, chega a desvendar o futuro - e ensina à França o Humor. E quando esse homem alcança o zênite e produz Sur la Pierre Blanche, onde, na mais cristalina das linguagens, diz todas as altas idéias que embaraçam as pernas dos Sílvios Romeros - diz idéias que são como o sol de certas manhãs de maio - tu, Rangel, tu, pulgão verde da roseira literária, tu, Silvério dos Reis, tu, queijo de Minas, dizes, com onze letras: "não pude lê-lo!..."
Cândido escreve-me do Egito, montado num camelo junto à Grande Pirâmide. Veja a maldade! Dar-nos em cima com túmulos de faraós! Mas o Egito dele é um cenário pintado de fotógrafo de Paris. Percebe-se.
Não te mando parabéns pela entrada na maçonaria. Não há mais sociedades secretas porque não há mais o que derrubar. Lembras-te da Bucha, na Academia, com todos aqueles panos pretos e caveiras, tíbias e círios? Eu ri-me sem querer. Caveiras, tíbias: calcários inofensivos! E contas que lês Manzoni!... Que estômago, Rangel! Manzoni é polenta cristã demais.
Contes Drôlatiques? Sim, conheço. Balzac é grande em todos os gêneros - e igualmente o contrário de Flaubert em todos.
Ando vogando em Anatole, Carlyle e Wells - este dum terrível mecanicismo. E também ando fazendo alpinismo na Serra da Bocaina - aprendizagem para a nossa projetada ascensão às Agulhas Negras.
Lobato
("A Barca de Gleyre")