
Nagib, o Egípcio, se vê no fundo de um subterrâneo - Uma prece cristã — Estranho e valioso achado - O Egípcio recebe a inesperada visita da jovem Omalisã
Longas, penosas e inesquecíveis foram as horas que passei, inteiramente só, recluso no fundo daquele trágico e silencioso inferno! Assaltavam-me, como fantasmas no meio das trevas, os mais acabrunhantes pensamentos. E se Nedjma não aparecesse mais? E se a pesada porta de ferro ficasse para sempre fechada? Lembraram-me as palavras do cádi, ao reclamar a presença do dervixe: "O Destino, às vezes, escreve da esquerda para a direita". Era bem possível, pois, que a minha vida estivesse dependendo de causas inteiramente fortuitas. Podia acontecer que Nedjma e a mãe ficassem presas no harém durante horas, durante dias! Quem, naquela dependura, viria arrancar-me daquele sepulcro horrendo?
Omalisã, a loura dos olhos azuis, e a meiga Oadia já haviam, com certeza, retornado às casas de seus pais. E eu ficaria encarcerado naquele antro medonho, condenado ao mais tremendo dos suplícios.
Perdido no tumulto de meus pensamentos lembrei-me de minha mãe, de meu pai, e de meus irmãos que eu deixara no Egito. As cenas mais gratas de meu passado no Cairo, entre jardins e pomares, invadiam-me a imaginação. E os meus olhos encheram-se de lágrimas. Repeti, lentamente, uma prece que aprendera de um escravo cristão:
“Allah, Clemente e Misericordioso! Arrancai, Senhor, de nossos corações, toda suspeita, inveja e rancor e tudo mais que possa abalar a caridade e diminuir o amor fraterno!
Apiedai-vos, Senhor, daqueles que se acham sob ameaça ou em perigo de vida! Apiedai-vos dos que imploram a vossa misericórdia! Dai Graça, Senhor, aos que dela necessitam e fazei que de tal modo vivamos, que nos tornemos, para sempre, dignos de Vosso olhar!”
Pesava-me na cinta, ao lado da espada, a bolsa havida do Xeque. Os meus trajes eram riquíssimos. Vestia uma blusa de seda clara bordada com fios de ouro, sob a qual uma cota de malhas, de tão macia, mais parecia um veludo. As minhas calças eram de lã, como as que usavam os oficiais do rei. Cobria-me o cabelo um vistoso turbante de três voltas com guarnições de prata. Recapitulei, uma por uma, todas as peripécias ocorridas desde o meu encontro no pátio da mesquita com o velho Xeque Kamil. Poderia eu desvencilhar-me daquela complicada situação e retornar, tranqüilo, para o meu país?
Uma voz, partida do coração, parecia bradar: "E Nedjma? Abandonarás a tua noiva?"
Não. Jamais abandonarei essa adorável criatura. Devo-lhe a vida. Tudo farei por ela.
Era inútil iludir-me. Não havia em mim, em relação à filha do Xeque, apenas um sentimento de gratidão. Outro impulso, mais forte, agia sobre o meu ser: o Amor! Resistirei, até o fim, e Nedjma será minha esposa!
E para distrair um pouco o meu atribulado espírito, pus-me a examinar minuciosamente o recinto em que me achava. Como primeira medida de cautela, apaguei três lâmpadas. É preciso economizar luz, pensei. Ignoro quanto tempo serei obrigado a permanecer neste recinto. Os beduínos dizem que é duplamente horrível sentir fome e sede na escuridão. É a luz um refrigério para quem sofre.
Dei uma volta curiosa e lenta. Verifiquei cuidadosamente a segurança da porta. Era fortíssima e estava fechada pelo lado de fora. Um homem, mesmo dotado de força hercúlea, não conseguiria arrombá-la. Inútil qualquer tentativa nesse sentido.
Junto a uma grande almofada escura, já muito sovada, posta a um canto, avistei uma caixa com incrustações de madrepérola. Abri-a. Dentro havia apenas um pouco de areia muito fina e clara, e um belo exemplar do Alcorão, o Livro de Allah! Pareceu-me estranho aquele achado e pus-me a pensar por que teriam colocado o Livro da Verdade num escrínio forrado de areia?
Assaltou-me logo uma lembrança. Arranquei da espada e com a ponta da lâmina, arranhando de leve o pergaminho, inscrevi na capa do Livro da Evidência:
"Nedjma! Tomo Allah como testemunha de que o meu amor por ti será eterno!"
Um pequeno rumor junto à porta despertou-me a atenção. Fechei cautelosamente a caixa, deixando-a como estava, e acerquei-me do sítio de onde partira o ruído. Abriu-se a pesadíssima porta e, à luz incerta da lâmpada, vi surgir a figura esbelta e graciosa de Omalisã, a amiga de Nedjma.
Pareceu-me um pouco medrosa e enleada. Trazia, como sempre, o rosto inteiramente descoberto. Um lindo véu vermelho caía-lhe sobre a brancura imaculada do vestido.
Interroguei-a sem ocultar a sôfrega ansiedade que me dominava. Por que não viera Nedjma? Que teria acontecido com a minha noiva? Que fizera o vizir Sayeg?
- Calma, Egípcio! - interrompeu-me num tom denunciante de grave apreensão. - Responderei a todas as tuas perguntas. Se estás doido de impaciência, lamento dizer-te que as coisa vão mal. Queira Allah que tudo isso não dispare em desgraça e morte! Ainda assim, espero que o caso não seja insolúvel.
E a formosa Omalisã, para pôr-me a par de todos os acontecimentos, numa voz suave e lenta, narrou-me o seguinte:
(“Aventuras do Rei Baribê”)
continua ("Case comigo")