Amigo velho

 

Guido Wilmar Sassi

 

Os ruídos da serra entravam pelos ouvidos de João Onofre escarafunchando-se pelo cérebro, como verrumas; e desciam depois, desciam por todo o peito, fixando-se perto do coração; e depois cresciam, aumentavam, num latejar doloroso, parecendo querer rebentar-lhe as costelas. Uma coisa ruim, uma sensação penosa, uma espécie de bola lhe subia pela garganta, tornava-lhe a respiração opressa e o impedia de falar. Emoldurado pela porta, os braços caídos ao longo do corpo, as pernas presas pelo desânimo, o rosto inundado de tristeza e o peito a arfar uma raiva surda, ele observava os trabalhadores da serraria que, indiferentes aos seus sentimentos, porfiavam na sua faina destruidora. Dois homens manejavam a serra, em movimentos rítmicos e monótonos.

A lâmina de aço já calara mais da metade e, em cada vaivém, mais e mais se aprofundava na carne do pinheiro. Os gemidos da madeira estalando cortaram o ar e o gigante chocou-se afinal contra o solo, num fragor imenso, num barulho de tempestade.

Para não ver nem ouvir mais nada, João Onofre fechou os olhos, tapou os ouvidos, e abalou para dentro da casa. Por alguns instantes, um silêncio sepulcral caiu sobre tudo e, logo a seguir, os machados entraram em ação. João Onofre voltou a olhar. Os homens se atiraram ao tronco inerte, deceparam os seus galhos e desfizeram-no em toras. Depois avançaram-lhe na casca, arrancando-a aos pedaços, até que o deixaram desnudo, pelado, a epiderme branca alvejando ao sol. Veio um carroção tirado por duas juntas de bois. Com gritos e ordens os homens colocaram as toras dentro dele e puseram-se a caminho.

João Onofre saiu de casa. A cena parecia o campo abandonado de uma batalha; havia mesmo um ar de morte em torno. O arbusto e as árvores menores haviam sido esmagados pela queda do monstro; galhos a verter seiva, esparsos aqui e ali, lembravam braços e pernas arrancados a um corpo ainda há pouco cheio de vida; ramos juncavam o chão e cavacos estavam espalhados por todos os lados. No lugar em que a velha árvore se erguia altiva, havia agora apenas um toco sem vida.

Cabisbaixo e triste, o velho pôs-se a seguir a carroça que se dirigia em seu rodar lento, pelas estradas mal traçadas, em demanda ao local em que se achava a serraria, o monstro insaciável, onde o seu pinheiro seria mutilado ainda, a sofrer a tortura de vários dentes de aço em sua carne. Ali seria transformado em tábuas e pranchões - que se traduziriam em dinheiro nos bolsos dos donos da terra. Animais e homens caminhavam a passos lentos, as rodas da viatura se arrastavam lerdas, e o silêncio que reinava parecia respeitoso. Os trabalhadores, cansados da faina, mantinham-se calados, e João Onofre pensava que eles faziam causa comum com a sua dor. No seu íntimo, aquele caminhar moroso e silente semelhava mesmo um enterro ou sepultamento de um amigo, de uma pessoa querida.

E era mesmo. O pinheiro era como um membro da sua família, um amigo velho e querido que deixava de existir. Sim, aquela árvore estava ligada a ele com laços muito fortes: os laços da amizade, do costume. Desde pequenino ele se acostumara a brincar à sua sombra.

Mas a família de João Onofre não deixava nada para as aves; limpava tudo. Era tão fácil conseguir alimento: bastava trepar pelo tronco, onde os talhos de facão feitos para facilitar a subida já haviam cicatrizado, e lá de cima fazer rolar as pinhas enormes; era como que uma despensa, bem pertinho de casa, onde estava a comida armazenada com fartura. Na sua imponência majestosa, o pinheiro se erguia ali, a dois passos da casinha, completando-a; ou melhor, esta é que parecia um complemento daquele. E depois, aquilo já lhe parecia uma herança, um bem de família, pois já seu pai se beneficiara da hospitalidade amiga da velha árvore; era algo que ele haveria de legar aos filhos, algo que seria transmitido de geração em geração. Como era gostoso, no verão, dormir à sesta, refestelado em pelegos, sob aquela sombra que se espraiava enorme; e como era gostoso, no inverno, sentir a barriga reconfortada pela "sustância" daqueles frutos doces, macios e suculentos. Era a sua riqueza de pobre, quiçá a única coisa que ele se habituara a considerar como sua. E agora...

Foi naquele dia que João Onofre compreendeu que era um miserável, que não era dono de nada. A casa não era dele, a terra não era dele. Estava ali de empréstimo, tolerado pela benevolência dos verdadeiros donos da terra, gente invisível que, ao exemplo de verdadeiros deuses, mandava e desmandava na sua vida. 0 pinheiro não era seu; não, não era; pertencia à serraria, aquele animal terrível e insaciável cujo ventre jamais se satisfazia, que mandava abater árvores e mais árvores para triturá-las nas suas mandíbulas de aço.

A serraria lhe roubara os filhos maiores que desertaram a rocinha do pai, engodados pelo ganho mais bem remunerado. Os filhos não eram dele, eram dos donos da terra. Ele mesmo não se pertencia, não passava de um escravo. Quando mais moço e forte, quando ainda podia trabalhar, assalariara-se nas hostes do monstro, escravizando-se a ele. E lá vinha a ordem: "João Onofre, você vai derrubar aqueles pinheiros da banda do lagão". E ele ia, calando o machado nas árvores, abatendo-as sem dó, sem nem de longe imaginar que um dia, o mesmo iria acontecer à "sua" árvore.

João Onofre odiou a terra, odiou a casa, odiou a si mesmo e odiou ainda mais aquela entidade poderosa e cruel que se chamava serraria. Depois que a serraria fora instalada, bem poucos eram os pinheiros que escapavam - somente aqueles que ainda não estavam no ponto de corte, - o mais tudo ia sendo derrubado, ficando de pé apenas as cepas cortadas quase rente ao solo, como testemunhas mudas da destruição tremenda.

Nunca lhe passara pela cabeça que seu pinheiro viria a ter a sorte dos demais. Dico, o sobrinho que trabalhava na serraria, lhe trouxe a notícia:

- Vão cortar o pinheiro grande de perto da sua casa, tio João.

- Hein? Não pode ser. Quem foi que te disse isso? Por quê?

- Não sei. O gerente é que disse. Este ano vão cortar todos os pinheiros que estiverem no ponto, desde a ponta do capão até o rio. Esse daí também vai ser marcado. E o sobrinho nem reparou na sua tristeza. O ingrato disse aquilo como quem dá uma notícia sem importância, não se lembrando mais de que em menino, também havia brincado à sombra e subira pelo tronco da árvore velha. O tempo passou e João Onofre já nem pensava mais no assunto, quando certo dia viu os operários que passavam marcando as árvores que deveriam ser abatidas. Pararam perto da sua casa, conversaram um pouco com ele, e puseram no seu pinheiro o estigma da condenação. Ele não escaparia mais, antes do fim do ano estaria por terra.

João Onofre foi falar com o gerente da serraria e este lhe respondeu secamente:

- São ordens.

- Mas seu Almiro, isso é o mesmo que tirar a comida da boca dos meus filhos. O senhor não poderia deixar o pinheiro? A gente até já pensa que ele é nosso. As crianças vão sentir muito.

E continuou a desfiar queixumes e súplicas que redundaram inúteis.

- Não, o dono da serraria disse que é para cortar e nós vamos cortar. Não tem mais conversa. Ficarão ainda muitos pinheiros dando pinhão por aí. Vocês não vão morrer de fome só por isso. E depois, homem, que mania é essa de comer só pinhão? Até parecem porcos. Por que não comem outra coisa?

João Onofre quis ainda argumentar, dizendo que os pinheiros restantes ficariam longe, que ele estava velho e os filhos eram ainda muito pequenos para saírem longe de casa, à cata de pinhões, mas viu que nada demoveria o homem.

"Que mania é essa de comer só pinhão? Até parecem porcos". Não, mil vezes não. Agora ele não pediria mais, não se humilharia, não iria dizer que no inverno só comiam pinhões porque estes não custavam dinheiro, não contaria que só comiam pinhões porque não tinham outra coisa. Colocou o chapéu na cabeça e retirou-se macambúzio, com uma raiva impotente a roer-lhe o peito e a tristeza e a desolação impressas na cara.

A carreta chegou à serraria. O velho viu quando dela retiravam o seu pinheiro, que se perdeu no amontoado anônimo de pilhas de toras, no monte sem fim de cadáveres vegetais.

Naquele inverno, a tristeza de João Onofre aumentou. Em frente à sua casa havia um "vazio", um vazio que se alastrava também em seu coração. Olhando em torno, ele deu-se conta da devastação que ia em derredor.

O caponete de perto da sanga havia desaparecido, os sopés dos morros estavam pelados e, logo à sua porta, onde antigamente o vulto do pinheiro se erguia, ele descortinava agora um vasto panorama, um panorama vasto e desolado - por toda a parte a ruína, a hecatombe, a decomposição. Como cruzes mutiladas, os tocos já carcomidos pela intempérie, atestavam a destruição em massa. Todas as árvores grandes haviam sido derrubadas; poupados, foram apenas o mato ralo, a vegetação rasteira, os arbustos sem importância. O resto, tudo fora consumido, tudo desaparecera entre as queixadas metálicas da serra e saindo do outro lado, transformado em moedas e notas.

O silêncio era maior do que antes. Para conseguir o sustento, João Onofre tinha agora de caminhar muito, acompanhado pela filharada. O maiorzinho já estava começando a subir pelos troncos ásperos, mas a caminhada fazia mal ao velho, tornando-o cada vez mais triste, mais irado, mais velho.

Se João Onofre fosse um poeta, haveria de escrever um poema ao seu pinheiro, haveria de imortalizá-lo em versos e estrofes. Mas João Onofre não conhecia os mistérios da métrica nem os segredos da rima. Tudo o que fazia era cultivar a sua mágoa e ficar olhando a mortandade em torno, olhando, olhando.

A paisagem era desoladora. Só agora é que ele percebia a devastação que aquela máquina de transformar madeira em dinheiro viera trazer à região. João Onofre tinha raiva.

E um dia, João Onofre morreu. Morreu e ninguém mais se lembra dele. Teve uma morte de pobre, o velório e o caixão de pobre, e o enterro foi também de pobre. Dico, que era um pouco carpinteiro, tomou uns pedaços de tábua na serraria e confeccionou uma cruz que, no seu parecer estava bem bonitinha. Gravou-lhe em letras toscas um letreiro - AQUI JAZ JOÃO ONOFRE - e plantou-a sobre a sepultura do tio.

O que nem Dico nem ninguém nunca soube foi que, por bondade ou ironia da sorte, os pedaços de madeira pertenciam ao pinheiro que alimentara João Onofre e sua família. Coincidência? Acaso? Predeterminação? Sei lá o que...

Ninguém mais se lembra do velho João Onofre. Ele desapareceu tanto de cima da terra como do coração de todos. Entretanto, a cruz ainda existe, lá no topo do montículo de terra que cada ano mais e mais raso se torna. A cruz ainda existe, embora o letreiro há muito já tenha sido lavado pelo tempo. Os restos mortais da árvore anônima servem de marco aos restos mortais do homem sem nome.

A tardinha, quando o sol investe sobre a terra os seus raios oblíquos, a sombra da cruz se projeta sobre o solo; e seus braços de sombra se abrem e parece que envolvem a sepultura humilde para protegê-la num abraço, num grande abraço, num abraço grande de amigo velho.

 

("Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro" – Editora Cultrix)

 

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