
Rudyard Kipling
Os três sabiam onde ficavam as Tocas Frias, embora poucos habitantes do Jângal as freqüentassem, salvo porcos-do-mato e macacos. Os outros, só em tempo de seca. Nessas cidades em ruína sempre se acumula alguma água nos reservatórios semidestruídos.
- Fica daqui a seis horas de jornada - informou Bagheera. - Seis horas na corrida máxima - especificou.
- Estou com fome! - explicou a serpente. - Além de que, eles me chamaram de rã amarela e de verme amarelo... - Dá na mesma. Toca! - e Kaa projetou-se ainda com mais ímpeto pelo meio das ervas.
Chamavam os macacos, àquela cidade, a sua cidade. Sentavam-se em círculos para catar pulgas. O tempo era todo despendido assim, em micagens e agitação estéril. Empenhavam-se em brigas nos relvados e, de repente, corriam a reunir-se perto dali para gritar bem alto:
- Não há no Jângal povo mais sábio, mais hábil, mais forte e gracioso do que os Bandar-log. - Até que se cansavam de brincar de cidade e voltavam às árvores, ansiosos de serem vistos e admirados pelos outros animais.
Mowgli, que fora ensinado na Lei do Jângal, nada sabia daquele estranho viver em cidade. Um dos macacos insinuou que Mowgli iria lhes ensinar a fazer as esteiras de vime que protegem contra os ventos.
- Quero comer! - declarou Mowgli. - Não conheço esta parte do Jângal, não sei seus costumes. Trazei-me comida ou deixai-me ir caçar.
Vinte ou trinta macacos saíram aos pulos em busca de nozes e mamões selvagens. Mas brigaram pelo caminho e lá destruíram todas as frutas que haviam colhido.
"Tudo quanto Baloo disse dos Bardar-log é verdade", pensou consigo Mowgli. "Não têm Lei, nem Grito de Caça, nem chefes, nada a não ser palavras loucas e micagens torpes”.
Mowgli tentou sair da cidade em ruínas; os macacos, porém, fizeram-no voltar. O menino cerrou os dentes e acompanhou calado a turba de símios até o terraço existente junto aos reservatórios d'água.
- Somos grandes. Somos livres. Somos admiráveis. Somos o povo mais notável do Jângal.
Mowgli nada objetou e os macacos se reuniram aos centos no terraço da rainha para ouvir os oradores que iam cantar hinos ao povo Bandar-log. Lá consigo refletia:
- Se escurecer de todo aproveitarei a ocasião para fugir. Sinto-me tão cansado...
Aquela nuvem também estava atraindo a atenção de dois amigos de Mowgli, ocultos nos fossos que rodeavam a Cidade Perdida: Bagheera e Kaa.
- É pena que Baloo não esteja aqui. Temos que agir sem ele. Quando a nuvem tapar a lua, penetrarei no terraço. Parece que lá estão reunidos em conselho em torno do rapaz.
- Boa caçada! - murmurou Kaa, um tanto sarcástica, e deslizou rumo norte.
Súbito Mowgli, com surpresa, percebeu Bagheera a penetrar no terraço. Chegara de manso, para então, qual um raio, atirar-se contra o bando. Um dos símios gritou:
- É um inimigo só. Mata! Mata!
E o bando inteiro investiu contra a pantera, mordendo, arranhando, unhando, enquanto cinco ou seis agarravam Mowgli e o arrastavam para cima da casa de verão, onde o despejaram dentro, pelo rombo da cúpula.
- Fica aí - gritaram-lhe os macacos - até que matemos os teus amigos; depois voltarás a brincar conosco... se o Povo Venenoso te houver poupado.
Referiam-se às cobras que habitavam aquelas ruínas.
- Somos do mesmo sangue, eu e vós! - gritou Mowgli ao ouvir isso, dando assim a Palavra de Senha das Serpentes. Como resposta ouviu um silvo perto.
- Ssss! Ssss! Não te movas, Irmãozinho, que teus pés poderão fazer-nos mal - sussurraram meia dúzia de cobras que moravam ali.
- "Baloo deve estar perto; Bagheera não teria vindo só" - pensou Mowgli.
Depois, lembrando-se dum recurso que seria precioso para a sua amiga, berrou-lhe:
- Para os tanques, Bagheera! Atira-te à água! Mergulha!
Bagheera ouviu Baloo e ganhou nova coragem.
- Bagheera - exclamou ele, - eis-me cá! Vou subir.
Baloo alcançou, por fim, o terraço e foi envolvido por uma nuvem de macacos. Pôde, porém, tomar posição de defesa e, atracando-se com magotes de símios, começou a parte de matança que lhe cabia. O ruído dum corpo que cai n'agua veio dizer a Mowgli que Bagheera estava a salvo nos tanques.
Kaa tinha acabado de varar por entre as fendas dos muros e coleava-se toda, da cabeça à ponta da cauda, como para verificar se seus músculos estavam em ordem. Enquanto o ataque a Baloo prosseguia, a macacada no rebordo dos tanques guinchava de ódio. Mas Kaa avançava, sequiosa de sangue. Seu primeiro golpe foi desferido em cheio na massa de macacos amontoada em cima de Baloo - e tão forte que não necessitou ser secundado. Os macacos debandaram aos gritos de "Kaa! É Kaa! Salve-se quem puder”!
E fugiram, tomados de pânico, e galgaram o topo dos telhados em ruína, permitindo que o velho Baloo respirasse, afinal.
- Tirai o filhote de homem da casa de verão - disse Bagheera, inda ofegante.
- Não pude vir antes, Irmão - disse ela a Baloo - mas creio que ouvi teu chamado, ou foi Bagheera quem me chamou?
- Sim... sim... chamei-te no ardor da batalha - confessou a pantera. - E Baloo? Está muito ferido?
- Não sei se ainda me resta no corpo qualquer coisa intacta - respondeu o urso. - Devemos a ti nossas vidas, Kaa, eu e Bagheera.
- Não importa. Onde esta o homenzinho? - Aqui neste mundéu, donde não posso sair - gritou Mowgli do fundo da casa de verão.
Kaa examinou cuidadosamente as paredes da casa de verão até encontrar o ponto mais fraco que pudesse ser demolido e, em meio de nuvem de pó, Mowgli saltou da prisão com os braços abertos para os seus salvadores.
- Estás ferido? - perguntou Baloo, retribuindo o abraço que o menino lhe dera.
- Machucado, apenas, arranhado e faminto. Ó, eles vos maltrataram bastante, Irmãos! Vejo-vos derreados e sangrentos...
- Tudo isto é nada, já que estás em seguro, Mowgli. Tudo fizemos por amor da Pequena Rã que tanto nos orgulha - disse o urso.
- Deixemos as expansões para mais tarde - murmurou a pantera com voz dura, que soou mal ao menino. - Aqui está Kaa, a quem devemos nós a vitória e tu deves a vida. Agradece-lhe de acordo com o uso, Mowgli.
O menino do Jângal voltou-se e viu a cabeça da serpente erguida um pé acima da sua.
- Somos do mesmo sangue, tu e eu – disse o menino. - Devi a ti minha vida esta noite. Doravante, minha caça será tua caça, sempre que o quiseres, Kaa.
- Obrigada, Irmãozinho - respondeu a serpente, piscando. - E que pode caçar tão intrépido caçador como tu?
- Tenho alguma astúcia nisto - continuou Mowgli mostrando as mãos - e se algum dia caíres em mundéu, poderei pagar a dívida que hoje contraí para contigo... e ali para com Bagheera e Baloo. Boa caçada para todos vós, mestres.
- Bem dito! - rosnou o urso, entusiasmado com o aluno. - Vai dormir, que a lua está alta e o que resta não deve ser visto de teus olhos.
- A lua descamba - disse Kaa dirigindo-se para os Bandar-log. - Podeis ver-me?
Dos muros e tetos em ruína, ressoou um gemido como resposta:
- Vemos-te, sim, ó Kaa.
- Bem. Comece-se então a dança... a Dança da Fome de Kaa. Permanecei imóveis e olhai.
A serpente enrolou-se em três voltas e oscilou a cabeça da esquerda para a direita. Depois começou a fazer boleios em oito e triângulos, que logo se desfaziam em quadrados e pentágonos. nunca parando, nunca se precipitando, nunca interrompendo o seu cântico de silvos.
Baloo e Bagheera estavam imóveis, como de pedra, grugulejando a espaços. Mowgli assombrava-se.
- Bandar-log - disse Kaa, por fim. - Podeis mover uma só pata que seja sem ordem minha? Respondei!
- E verdade, é verdade! - exclamou o menino, compungido. - Confesso que sou um mau filhote e que meu estômago dói de fome...
- Não, Kaa. Sem ordem tua não podemos mover nem pés nem mãos.
- Bem. Chegai mais perto. Mais, mais...
A linha dos macacos aproximou-se, lenta, fazendo que Baloo e Bagheera instintivamente se afastassem:
- Mais perto! - silvou Kaa, e os macacos achegaram-se ainda mais.
Mowgli bateu no pescoço da pantera e do urso, convidando-os a irem-se. Ambos olharam-no com olhos de quem sai dum pesadelo.
- Conserva a mão sobre meu pescoço - murmurou a pantera. - Segura-me, que me sinto arrastada para Kaa. Aah! - Nada. Sou culpado. Por falta minha, vós ambos vos achais feridos. A punição será justa.
- Que fraqueza é essa, Bagheera? Nada aconteceu. Apenas a velha Kaa se diverte, fazendo círculos no chão, disse Mowgli.
Vamo-nos embora - e os três tomaram pela fenda que abria para a floresta.
A pantera deu-lhe então meia dúzia de tapas de amor, tapas que, do seu ponto de vista, teriam apenas sacudido um filhote de pantera, mas que para uma criança de sete anos correspondia a castigo bastante severo. Quando o último soou, Mowgli ergueu-se do chão sem uma palavra, apenas fungando.
- Vamo-nos - disse Bagheera, - salta sobre o meu dorso, Irmãozinho, e vamo-nos para casa.
Uma das belezas da Lei do Jângal é que o castigo concerta tudo. Depois dele, nenhum ressentimento subsiste.
Mowgli pousou sua cabecinha no pêlo de Bagheera e dormiu tão profundamente que nem sequer despertou ao ser deposto no chão da caverna de Mãe Loba.
(“Mowgli o Menino Lobo”)