Ainda a "mão cortada"

 

A surpreendente descoberta

 

Das "Mil histórias sem fim..." é esta a vigésima sétima. Lida esta, restam apenas novecentas e setenta e três.

 

Residia o Xeque Mussa Chadi num velho casarão que se debruçava para a face mais larga da praça das ovelhas. Batemos à porta principal já bem suja do tempo. Do interior partiram rumores confusos.

Alguém perguntou:

- Quem está aí?

Destacou-se Ghanem do nosso grupo, colou o rosto à porta e anunciou com autoritária energia:

- Somos enviados do cádi Amin Buazar. Precisamos falar ao dono da casa. Temos muita pressa. O assunto é grave e urgente.

Seguiu-se curto silêncio. Ouvimos a seguir insistentes zunzuns junto à porta e tive a impressão de que estranho vulto feminino nos espionava semi-oculto no fundo do muxarabiê.

Recebeu-nos, afinal, um homenzinho de barbicha rala, enfezado e meio calvo.

- Entrem - convidou secamente. - O Xeque já os aguarda e vai recebê-los.

Chegamos a ampla sala iluminada. Num grande escudo de prata, em letras de ouro, destacava-se esta legenda admirável: 

"Há quatro coisas que não retornam: a pedra, quando atirada; a palavra, depois de proferida; a ocasião, depois de perdida; e o tempo, depois de passado". 

Ali se achavam cinco homens de aparência distinta. Ergueu-se um deles e veio solícito ao nosso encontro. Reconheci-o imediatamente. Já o vira inúmeras vezes na mesquita. Encontrara-os nos cafés e nos jardins. Era o Xeque Mussa Chadi.

Vestia-se com simplicidade e ostentava, com natural distinção, belo turbante vermelho à mossulense. Devia ter mais de cinqüenta anos, embora robusto e bem-conservado. Tinha os olhos cor de veludo negro. Na barba, bem-aparada, repontavam fios brancos.

- Usalani! - exclamou com acolhedora simpatia. - Sejamos todos bem-vindos a esta pobre tenda do velho caravaneiro de Mossul!

A voz, de timbre agradável, denunciava leve sotaque sírio.

Os Xeques (por certo amigos da casa, e visitantes descerimoniosos) retribuíram a cortesia de Ghanem na forma clássica entre muçulmanos:

- Assalã aleikum!

Senti que os olhares convergiram para o nosso grupo, com impaciente curiosidade. Alguns se mostraram desconfiados. A nossa chegada viera, certamente, perturbar a alegria e a intimidade da reunião.

Sentia-se que fora interrompida uma palestra amistosa e interessante.

O Xeque Musa, ao atentar nas duas mulheres que vinham conosco, acudiu pressuroso:

- Não é essa a prestimosa Fetnah, nossa boa amiga? Minha filha Wadad decerto gostaria de vê-la! Creio mesmo que tem uma encomenda qualquer a fazer-lhe.

E apontando para uma pequenina porta à esquerda, semi-oculta por dois vistosos tapetes, instou muito amável:

- Entra por ali, ia-saidite, por favor. Leva, também, a tua amiga Ma-aruff.

E, voltando-se para Ghanem, indagou acariciando lentamente a barba negra e baixando ligeiramente a voz:

- Em que poderei servir ao nosso honrado cádi Amin Buazar? Terei o maior prazer em acatar as suas ordens e colaborar com a sua eficiente administração.

Tive a impressão de que Ghanem, interpelado de chofre, não encontrava, de pronto, uma evasiva discreta que pudesse disfarçar o verdadeiro objetivo de nossa visita. Uma vez que a jovem Wadad, a filha do Xeque, estava viva e sã, a nossa presença naquela casa tornar-se-ia inútil. A pessoa do opulento Mussa Chadi já não mais interessava à justiça.

Para o imaginoso policial não era, porém, difícil descobrir um pretexto qualquer. Meditou um instante e disse atencioso.

Poderia conceder-me alguns minutos de atenção?

- Com o maior prazer! Bi-kull surur, ia-azize! - aquiesceu o Xeque.

E, voltando-se, para os seus convidados, desculpou-se com voz persuasiva:

- Voltarei dentro de alguns minutos. Permitam-me que atenda a este enviado de nosso honrado cádi.

E afastou-se com Ghanem conduzindo-o pelo braço para o interior da casa.

Permaneci na luxuosa sala com Rahal e os dois agentes que nos acompanhavam.

Um Xeque muito jovem ainda, de rosto pálido, fisionomia abatida, insistiu, obsequiador, voltando-se para o nosso lado:

- Sentem-se! Acomodem-se na roda! Receio muito que a conversa daqueles dois seja mais demorada do que é de permitir!

Sentei-me de pernas cruzadas sobre uma almofada. Rahal, com a gravidade de um dervixe, acomodou-se a meu lado.

Rahal, inclinando ligeiramente o rosto, sussurrou-me com voz assaz misteriosa:

- Repara naquele Xeque de barba ruiva. Seria capaz de jurar que ele é o criminoso que procuramos!

Sacudi os ombros num gesto de incredulidade.

- Palpite cochichou-me Rahal. - Tive agora um estranho pressentimento! Notei, há pouco, em seu rosto, um ligeiro tremor quando deu com a presença da velha Fetnah.

- Deixa os teus palpites para outra ocasião - aconselhei em voz baixa. - Aquele homem, com certeza, nada tem que ver com o caso!

Como quem retoma o fio de uma palestra, o jovem da faixa verde voltou-se para ele e advertiu com ar de graça:

- Mas afinal, meu amigo, creio bem que fomos esbulhados e feridos em nossa curiosidade. Fazemos todos o maior empenho em ouvir a aventura que nos prometeste!

- Ora, ora – desculpou-se o Xeque de barba ruiva. - Confesso que já não me lembro mais do que estávamos falando quando fomos interrompidos pela polícia.

("Pela Polícia"? Então ele sabia que nós éramos da Policia?).

Acudiu com alvoroço um homenzinho gorducho, de olhos claros:

- Pelo céu do "Haram"! Fraca é a tua memória, meu caro Abul-Boteyn! Discorrias com invejável eloqüência sobre versos e pensamentos mais adequados para tapetes de luxo!

Segredou-me Rahal com voz emocionada:

- Ouviste? O ruivo se chama Abul-Boteyn! É o tal cujas sobrinhas tiveram as mãos pintadas pela velha Fetnah! Insisto na minha suspeita. É esse o esquartejador de mulheres! Veremos se ele será capaz de nos apresentar, vivas e intactas, as duas pupilas entregues a seus cuidados!

Fui forçado a reconhecer a estranha coincidência no caso. Aquele homem figurava na lista dos prováveis criminosos sugeridos pela manicura!

- É melhor prendê-lo já! - investiu Rahal nervoso, com voz trêmula.

- Estás louco! - discordei com energia. - E, recalcando-lhe os desassossegos do espírito, objetei prudente: - Não temos prova alguma contra o ruivo! Somos hóspedes do Xeque! Queres praticar uma violência, melindrar o dono da casa e pôr a perder o nosso trabalho? – perguntei baixinho.

O homenzinho gorducho insistiu:

- Interessa-nos conhecer aquela famosa lenda do tapete turco que causou a morte de um emir.

Desculpou-se novamente o barba-ruiva vacilante, forçando o sorriso:

- Não me recordo bem de todas as peripécias. Ando, ultimamente, com a memória em deplorável decadência.

Nesse momento - com espantosa surpresa para mim - Rahal viu no rumo da conversa dos Xeques boa margem para intervir. E o fez em tom fidalgo, com exagerada finura, fitando o Xeque com atencioso interesse:

- Vossas delicadas e encantadoras sobrinhas gozam de perfeita saúde?

Ergueu-se Abul-Boteyn num violento arranco como se fosse picado por um escorpião. Percebi-lhe na testa gotas lívidas de suor.

- Minhas sobrinhas? - arrematou, encarando Rahal com rancorosa desconfiança. - Permita-me que considere estranha e impertinente a sua pergunta! Onde as conheceu?

O inteligente Rahal com a maior naturalidade retorquiu:

- Quando crianças brincaram muitas vezes com minhas filhas. Lembro-me de que a mais moça, a Samira...

- Samira! - interrompeu Abul-Boteyn com voz cada vez mais tremula e gesto descomposto - Foi sempre uma desmiolada. Não atendia aos meus conselhos. Não fosse esse deplorável defeito seria a menina mais estimável do mundo!

Suas mãos, cabeludas e grossas, fecharam-se numa crispação violenta. Fez pequena pausa e tornou com voz sucumbida:

- E como já era, aliás, de prever, deu-nos a tresloucada Samira um grande desgosto...

- Desgosto? – repetiu com afetação Rahal.

- Sim, um irreparável desgosto - confirmou o Xeque, com a voz a estalar de cólera. - Durante um passeio que fizemos até Basra, conheceu um pelotiqueiro que se exibia aos mercadores do porto. Como tutor, opus-me com a maior energia àquele casamento. Que fez Samira? Há dois dias, sem se despedir da irmã, sem se despedir de mim, desapareceu de nossa casa! Fugiu alta noite, com o namorado!

- Estás ouvindo? - ciciou Rahal emocionado - O infame assassino já está ensaiando um meio de ocultar o crime. Inventou esse complicado romance da paixão e fuga de Samira. Quando a Justiça interpelar: "Xeque, o que fizeste de tua sobrinha mais moça?" - o bandido, com lágrimas nos olhos, contará a lenda do "malabarista apaixonado".

- Cala-te, Rahal - sibilei cauteloso. - Falando assim serás capaz de despertar suspeita no espírito dessa gente!

O cochichar de Rahal tornara-se impertinente. Sobre nós já incidiam os olhares desconfiados dos circunstantes.

- Deixa em paz a rapariga - aconselhou com bom-humor o gorducho. - Ela simplesmente quis fugir. Conta-nos, o Xeque!, a famosa lenda do tapete misterioso!

- Bem lembrado - disfarçou Rahal reforçando em voz alta o pedido - Será para nós indizível encanto ouvir essa interessante narrativa.

E muito discreto, falando-me ao ouvido, sem que os outros percebessem, preveniu-me em tom quase inaudível:

- Logo que Ghanem voltar vou denunciar esse bandido! Verás que ele não chegará a concluir a tal lenda do tapete! Essa gente que aqui está vai se deliciar com uma nova "história sem fim...”

O arrogante Abul-Boteyn ajeitou-se nervoso nas almofadas, espraiou o olhar suspeitoso por toda a sala, e narrou o seguinte: (*) 

(*) A trágica aventura da "mão cortada", é aqui interrompida para ser reiniciada na 344 narrativa. Todos os episódios serão, então, esclarecidos nas narrativas 344ª, 345ª e seguintes.


Nota do site: É claro que nunca saberemos o fim da aventura da “mão cortada”, como não sabemos o fim de nenhuma das histórias aqui narradas... 

(“Mil Histórias Sem Fim”)

 

continua (O Tapete Azul

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